Era um avançado dos golos acrobáticos e estilosos. Não se via muito nas fases de criação, mas se o que era preciso era meter a bola lá dentro, usava todos os recursos de um físico ágil e imponente.
2017-10-02

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1969

Há nomes que ajudam. Chico Gordo tinha um desses nomes: nem precisaria de ser grande no que fazia para se destacar. Não era o caso, porém. O angolano que o FC Porto não conseguiu aproveitar e que viu a carreira retomar a sério aos 26 anos ainda foi a tempo de se tornar um dos maiores goleadores da I Divisão portuguesa na segunda metade da década de 70. Ganhou com isso o SC Braga, o clube que com ele na frente se chegou pela primeira vez aos primeiros lugares do campeonato.

A passagem por Braga marcou a carreira de Chico Gordo, mas o futebol, para ele, começara muito antes – e mais por cima. Criado pela mãe, a quem o pai abandonara, Chico andava livre por Benguela, a ver o que a vida lhe dava. Deu-lhe para o futebol, que era a maior distração dos miúdos naquelas ruas. E ele era tão promissor que rapidamente passou das peladas de rua para o jogo organizado, com a camisola do FC Lobito, à data a filial local do FC Porto. E mesmo ali não parou muito tempo: recomendado pelo olheiro portista na cidade, Eurico Mendonça, viajou para o Porto com apenas 16 anos, para integrar a equipa de juniores dos azuis e brancos da metrópole. O rapaz fazia golos e chegou mesmo a internacional júnior, jogando, por exemplo, pela equipa nacional, o Torneio de Cannes, em Abril de 1968, ao lado de jogadores como Humberto Coelho ou Chico Faria.

Não espantou, por isso, que José Maria Pedroto o quisesse ao lado dos seniores na época que se iniciava a seguir. A 15 de Setembro de 1968, à segunda jornada da Liga, com a equipa portista a perder por 2-0 em Setúbal com o Vitória, Pedroto mandou-o para dentro do campo, para fazer a segunda parte em vez de Rolando. O jogo acabou mal, com derrota por 3-1, mas o rapaz não foi responsabilizado. É, pelo menos, o que se depreende do facto de o treinador lhe ter dado a titularidade três dias depois, na deslocação a Cardiff, para o empate (2-2) que marcou a estreia portista na edição desse ano da Taça das Taças. Chico Gordo foi mantendo a titularidade e a 6 de Outubro fez o primeiro golo no campeonato: correspondeu a um passe de Valdemar para estabelecer o resultado de uma receção ao Varzim nos 2-0 que ficaram para a história. O resto da época, contudo, já não lhe correu tão bem, tendo sido titular pela última vez na Tapadinha, frente ao Atlético, em meados de Outubro.

Esta foi a época em que a direção tirou o tapete a Pedroto, já perto do final da prova, quando o treinador quis levar os jogadores para estágio, alguns jogadores se recusaram e, vendo a direção apoiá-los, o diretor bateu com a porta, numa altura em que ainda discutia o título com o Benfica. A segunda época de Chico Gordo nos seniores seria melhor do ponto de vista individual, mas um desastre coletivo, terminado com o nono lugar final e três treinadores a sucederem-se a um ritmo vertiginoso. Chico Gordo ainda fez dois golos, nos dois jogos com a Académica, e foi sendo quase sempre titular, até se magoar, no Barreiro, em Março de 1970. A noção de que a equipa precisava de sangue novo, alguns erros de comportamento – as tentações eram muitas – e a incorporação militar acabaram-lhe então com a carreira no FC Porto. Após uma terceira época quase sem jogar, foi destacado para Angola, juntamente com Seninho, outro promissor jogador portista.

Em Angola, ambos ajudaram o FC Moxico a ser campeão local, mas só quando a guerra acabou e Chico Gordo voltou a Portugal o futebol voltou a acender verdadeiramente a luz na sua vida. Recomeçou na II Divisão, no Lusitânia de Lourosa. E o campeonato que fez foi o suficiente para convencer os responsáveis do SC Braga, que nesse mesmo ano subiram à I Divisão, a acenar-lhe com um contrato. Em 1975, prestes a completar 26 anos, Chico Gordo tinha uma segunda oportunidade. E desta vez aproveitou-a. Não só marcou no primeiro jogo que fez com as cores bracarenses – uma vitória por 2-1 frente ao Atlético na Tapadinha – como, em cinco épocas de SC Braga, multiplicou os golos. Na temporada de maior fulgor (1977/78) chegou à notável marca de 21 tentos na Liga, números pouco comuns para um jogador que não jogasse nos grandes e que naquele ano foram apenas superados pelos 25 do portista Gomes.

A própria equipa foi crescendo à medida que os anos iam passado. Na primeira época, foi sétima classificada, tendo Chico Gordo obtido o seu primeiro hat-trick (ao União de Tomar), marcado ao Benfica (ainda que numa derrota por 7-1) e bisado (em três minutos) no jogo contra aquele que desde petiz era o clube do seu coração, o Sporting. Na segunda, o SC Braga deu um ligeiro passo atrás, para o oitavo lugar, mas mesmo tendo diminuído o total goleador, Chico Gordo continuou a ser frequente nas fichas de jogo: voltou a marcar ao Benfica (e desta vez garantindo um 2-2 na Luz) e desta vez fez até um golo ao FC Porto, ainda que numa derrota por 5-2. O FC Porto, aliás, revelar-se-ia sempre a “besta negra” do avançado angolano, que em Maio de 1977, depois de ter feito mais seis golos na caminhada bracarense na Taça de Portugal, perdeu a final com os portistas (1-0) nas Antas.

Veio então a melhor época da carreira de Chico Gordo, pontuada com os 21 golos no campeonato (com mais um bis ao Sporting, desta vez a valer uma vitória por 2-0), o quarto lugar na tabela, que dava apuramento para a Taça UEFA, e mais uma carreira longa na Taça de Portugal, onde pela terceira época seguida os bracarenses caíram aos pés do FC Porto. Desta vez, aconteceu nas meias-finais, com uma derrota por 4-1, tendo o golo minhoto sido obtido por Chico Gordo. Aliás, o angolano fez nove golos na Taça de Portugal, terminando a temporada com 30 tentos em 36 jogos. Números que abriam o apetite para a época de estreia europeia dos bracarenses. Mas, apesar de um arranque notável – um bis no arranque do campeonato, ao Académico de Viseu, e um póquer nos 5-0 ao Hibernians, na abertura da Taça UEFA – a época já não foi tão boa. A equipa acabou outra vez em quarto, mas Chico Gordo ficou-se pelos dez golos no campeonato, incluindo mais um ao FC Porto e outro ao Sporting. Somou-lhes seis na Taça de Portugal – onde incluiu o Benfica no rol das vítimas – e cinco na Taça UEFA, para uns ainda assim excelentes 21 golos.

O jogador, no entanto, sentia que a carreira em Braga estava a aproximar-se do fim. Em vez de se focarem na regularidade goleadora ou nos golos espetaculares, os adeptos olhavam mais para os lances que ele falhava. “Se calhar estão fartos de ouvir o meu nome”, desabafava, por esses tempos. O campeonato de 1979/80 foi, por isso, o último que fez em Braga. Acabou-o com nove golos, aos quais juntou mais um na Taça de Portugal, e o nono lugar final da equipa que a meio da época trocou o treinador Fernando Caiado por Hilário da Conceição acabou por criar as condições ideais para uma mudança de ares. Chico Gordo assinou então pelo Vitória de Setúbal, clube pelo qual fez as últimas duas temporadas na I Divisão. Em ambas foi o melhor marcador da equipa e na primeira ainda juntou aos sete golos que fez no campeonato mais oito na Taça de Portugal – seis no mesmo jogo, um 9-0 ao Paredes, a 1 de Março de 1981.

Essa campanha na Taça, na qual o Vitória eliminou o SC Braga e só caiou nas meias-finais, frente ao inevitável (para Chico Gordo) FC Porto foi a última proeza coletiva de uma equipa onde ele estivesse. Despedir-se-ia da I Divisão a 16 de Maio de 1982, com uma vitória por 2-0 sobre a UD Leiria, no Bonfim. O último golo tinha-o marcado a 24 de Janeiro – e tinha sido um golo muito importante. Com 0-0 no marcador no dérbi regional com o Amora, em casa, Peres Bandeira pô-lo no campo em vez de Sobrinho, a 13 minutos do final, e ele correspondeu com o golo da vitória aos 86’. Ainda assim, aos 32 anos, Chico Gordo caiu para a II Divisão. Ainda jogou um ano no Beira Mar, outro na AD Guarda, ambos a meio da tabela na Zona Centro, antes de fechar uma excelente carreira com uma época nos pelados da III Divisão, ao serviço do Macedo de Cavaleiros.

Sem o futebol para lhe encher a vida, conta-se que acabou por cair outra vez em tentações e que o vício lhe causou problemas. Já os tinha resolvido quando um acidente de trabalho lhe causou a morte prematura, aos 51 anos. Chico Gordo mudara-se para a margem sul do Tejo, onde era operário numa empresa de embalagem, e uma queda deixou-o à mercê das lâminas da máquina com que trabalhava. Não resistiu aos ferimentos e faleceu, deixando em choque os que se lembravam dos muitos golos com que encheu os relvados nacionais.