Foi o primeiro futebolista a ser campeão nacional por três clubes e ainda é o único a ter ganho o campeonato pelos três grandes. Nasceu no Benfica, cresceu no Sporting e no FC Porto e tornou-se nome seguro na seleção nacional.
2017-09-29

1 de 14
1975

O único local onde Eurico simplificou sempre as coisas foi no campo. Aí, era um modelo de rigor e disciplina, era quase um jogador alemão num ambiente latino. Fora do campo, sempre foi um homem de personalidade vincada, incapaz de ir na correnteza e de assumir posições que não fossem as dele de uma forma incondicional. Isso ter-lhe-á causado alguns dissabores ao longo da vida – até como treinador – mas ao mesmo tempo permitiu-lhe um feito que dificilmente será repetido em Portugal: foi campeão nacional por Benfica, Sporting e FC Porto. Tudo porque a dada altura meteu na cabeça que devia sair de onde estava. E saiu.

O feitio irreverente deste transmontano começou a notar-se muito antes de ter voltado costas ao Benfica, por não gostar da demora com que os dirigentes vieram falar-lhe da renovação do contrato. Notou-se logo aos 14 anos quando, ao contrário de todos os miúdos da idade dele, recusou assinar pelo Benfica porque o clube lhe pagava menos do que a oficina de automóveis onde trabalhava desde os 10. Natural de Santa Marta de Penaguião, Eurico mudou-se para a Póvoa de Santo Adrião, a norte de Lisboa, aos oito anos, quando o pai ali arranjou emprego para ele e para os três filhos mais velhos. Eurico continuou a estudar, mas assim que acabou a quarta classe decidiu ele mesmo ir à procura de emprego – encontrou-o como aprendiz de mecânico e confrontou o pai com o facto, aos 10 anos. Começou depois a jogar futebol no Várzea, um clube local, onde um dirigente, de seu nome Jeremias, o recomendou ao Benfica.

Eurico jogava como médio, pelo que da Luz veio o histórico Mário Coluna para o observar. E tanto gostou que recomendou a sua contratação imediata. O problema é que do Benfica só lhe davam 500 escudos por mês, para os transportes, enquanto que Eurico já ganhava quatro contos (oito vezes mais) na oficina. Assim sendo, a resposta foi clara: não, obrigado. Eurico entrou então para os juvenis do Odivelas, com cuja camisola brilhou no Regional de juvenis. Um dia, vendo-o jogar contra o Benfica, Ângelo Martins, que treinava aquela categoria dos encarnados, já não o deixou fugir. Eurico entrou então no Benfica, em 1972, com um salário de cinco contos por mês, ainda para jogar nos juniores.

Foi Ângelo quem, numa ocasião, por necessidade, o passou do meio-campo para o centro da defesa. Meticuloso como era, Eurico acabou por tornar-se um dos melhores “stoppers” do futebol nacional, o melhor defesa-central que o país viu nascer depois de Humberto Coelho e até ao aparecimento da geração de ouro. Rigoroso, raramente falhava em campo. Estudava cada movimento, cada forma de desmarcação – e isso muitas vezes permitia-lhe adivinhar o que ia acontecer e jogar na antecipação. Rapidamente chegou à seleção de juniores e ao plantel principal do Benfica. Aí, porém, as coisas eram mais complicadas. O Benfica vivia momentos de grande esplendor, ganhava três campeonatos em cada quatro e, se o fazia, não era seguramente por ter maus jogadores. Na primeira época de sénior, Eurico não fez um único minuto em campo: tudo o que Milorad Pavic lhe deu foi a honra de o sentar no banco numa partida em Setúbal, a 23 de Março de 1975, que o Benfica perdeu por 2-1. O título de campeão que chegou no final da época era pouco dele, portanto.

Na época seguinte chegou à Luz Mário Wilson e a vida de Eurico começou a mudar. A 10 de Setembro de 1975, pouco mais de duas semanas antes de fazer 20 anos, o jovem transmontano foi pela primeira vez titular, formando dupla de centrais com Messias, numa receção ao Boavista, na Luz. O jogo acabou empatado, mas a zero, sinal de que os defesas fizeram bem o seu trabalho. A estreia europeia veio uma semana depois, a 17 de Setembro, num retumbante 7-0 ao Fenerbahçe, também na Luz. E o jovem defesa-central foi-se mantendo na equipa: foi titular em todos os jogos até se lesionar, em inícios de Dezembro, num jogo em casa com o Vitória de Guimarães. Mesmo assim, tendo Wilson passado a apostar em Messias e Bastos Lopes, sagrou-se pela primeira vez campeão nacional de pleno direito. A certeza matemática do título chegou a uma jornada do fim, num 3-0 ao Sporting em Alvalade. Nessa tarde, no entanto, Eurico ficou a ver.

O processo de crescimento natural levou-o a regressar com mais força na época seguinte. Os encarnados voltaram a trocar de treinador, chegando John Mortimore, que na primeira época fez dele titular ao lado de Alhinho e na segunda ao lado do regressado Humberto Coelho. A primeira época trouxe-lhe o bicampeonato, a segunda a alegria do primeiro golo enquanto sénior: fê-lo a 14 de Maio de 1978, no Estádio do Bonfim, após passe de Shéu, e o Benfica ganhou esse jogo por 1-0. A quatro jornadas do fim, o Benfica seguia dois pontos atrás do FC Porto e ainda sonhava com o tetra, mas o empate nas Antas, mais à frente, tornou o sonho impossível. Ainda assim, Eurico chegou à seleção. A 20 de Setembro de 1978, o dia em que, de facto, fazia 23 anos – o jogador nasceu a 20, mas só foi registado a 29 –, em Setúbal, Mário Wilson fê-lo entrar para o lugar de Alhinho a meio de um jogo de preparação contra os Estados Unidos. Portugal ganhou por 1-0 e, mesmo tendo Eurico perdido a titularidade no Benfica – Mortimore passou a apostar em Humberto e Alhinho – Wilson voltou a chamá-lo para o jogo de arranque da fase de qualificação do Europeu de 1980.

Titular ao lado de Humberto no empate com a Bélgica em Alvalade, Eurico não voltou a ter a mesma preponderância no clube. E, como além disso os dirigentes tardavam em tratar-lhe da renovação do contrato, Eurico comprometeu-se com o Sporting. Ainda não tinha assinado nada quando, no Benfica, finalmente lhe fizeram uma proposta. Era tarde demais. A palavra estava dada e o defesa transmontano seguia para Alvalade, onde assumiu um papel completamente diferente. Em três anos no Sporting, Eurico falhou apenas um jogo de campeonato: foi a 20 de Outubro de 1979, numa receção ao Portimonense, que os leões ganharam por 2-0. Com tanta regularidade, e fruto também dos dois campeonatos ganhos – além da Taça de Portugal de 1981/82 – assumiu também a titularidade da seleção nacional. Era um dos valores mais seguros do futebol nacional e não escondia que queria fazer o contrato da sua vida quando este acabasse, em 1982. “Estarei com 27 anos e espero estar no Mundial de Espanha”, confessava. Só que, ainda assim, em 1982, entrou em processo de rutura com João Rocha, o presidente leonino, a quem acusava de tratar os jogadores “como se fossem robots”.

Apesar do sucesso desportivo, Eurico acabou por virar as costas aos leões e, aproveitando o clima de rivalidade que se vivia no futebol nacional, que trouxera Gabriel e Romeu das Antas para Alvalade, seguiu com Inácio para o FC Porto. A Norte, continuou de braço dado com o sucesso desportivo. Nos primeiros três anos, voltou a ser preponderante, falhando apenas dois jogos de campeonato, depois de se lesionar aos 16’ de uma derrota em Portimão, a 1 de Abril de 1984. Recuperou a tempo de marcar presença nas finais da Taça de Portugal (4-1 ao Rio Ave, a 2 de Maio), da Taça das Taças (1-2 com a Juventus, em Berna, a 16 de Maio) e na fase final do Europeu de França, para o qual Portugal se qualificara com ele em campo, no Inverno anterior, ganhando à URSS.

Nos relvados franceses, Eurico mostrou que era um dos melhores defesas-centrais da Europa, mas o mercado da altura não funcionava como agora e ele acabou por ficar nas Antas. Nesse verão de 1984 lá chegou Artur Jorge, o treinador que vinha substituir José Maria Pedroto – depois do interinato de António Morais. Com Jorge, Eurico juntou mais dois títulos nacionais ao rol. Mas foram troféus de sabor diferente. Totalista na equipa campeã em 1984/85 (época na qual perdeu pela primeira vez a final da Taça de Portugal, num surpreendente 1-3 com o Benfica de Csernai), jogou apenas 18 minutos em 1985/86. O clássico com o Benfica, na primeira jornada, tinha começado há pouco quando um choque com Nunes lhe valeu uma fratura na perna. Foi a 25 de Agosto de 1985 que Eurico jogou pela última vez com a camisola do FC Porto. A dada altura, o jogador sustentou que estava recuperado, mas Artur Jorge nunca mais lhe deu sequer um minuto em campo. Em 1986/87, quando o FC Porto ganhou a sua primeira Taça dos Campeões Europeus, Eurico fazia parte do plantel, mas não do lote de vencedores de tão histórico troféu.

De costas voltadas para Artur Jorge, resolveu então responder positivamente a Malcolm Allison, um treinador que tanto admirava, precisamente por dar aos jogadores a possibilidade de serem homens. E assinou pelo Vitória de Setúbal. Ali ainda fez uma primeira época de muito bom nível, acabando por despedir-se dos relvados a 29 de Janeiro de 1989, num empate do Vitória em Fafe: saiu ao intervalo, para dar lugar a Paulo Roberto. Duas semanas antes, num jogo em casa com o SC Braga, tinha sido pela primeira vez expulso em mais de 300 jogos de campeonato: Jorge Coroado expulsou-o a ele e ao brasileiro Valtinho, por causa de um desentendimento entre os dois.

Eurico enveredou então pela carreira de treinador. Longe de ser consensual, ainda fez um excelente trabalho no Tirsense, que subiu à I Divisão em 1994, levando o clube ao oitavo lugar final no ano seguinte. A última experiência na I Divisão teve-a em 1996/97, na UD Leiria. Desde então, esteve no Benfica como adjunto de Jupp Heynckes, experimentou o futebol na Argélia, na Grécia e na Arábia Saudita, mas nunca mais fez falar dele como quando era um dos melhores defesas centrais da Europa.