Um dos muitos algarvios que ajudou o SC Covilhã a tornar-se uma das forças do futebol nacional na década de 50, Amílcar era um jogador combativo e polivalente, que até a guarda-redes chegou a jogar.
2017-09-28

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1957

Houve uma altura em que Vila Real de Santo António era viveiro de futebolistas. Na equipa do Lusitano chegaram a coexistir três que fizeram carreira na I Divisão: os dois irmãos Cavém e Amílcar Gonçalves. Dos três, este terá sido o que menos fez falar dele, mas a sua carreira não teve falta de episódios heroicos e de entrega às equipas que representou. A polivalência de Amílcar era tal que transcendeu em muito a tendência natural que os extremos-esquerdos têm para recuar no campo, primeiro para médios e no final para defesas: o algarvio chegou a iniciar um jogo do SC Covilhã como guarda-redes, por não haver nenhum especialista da posição entre os disponíveis.

Amílcar fez a formação no Lusitano de Vila Real de Santo António e aos 18 anos já jogava entre os seniores que, em 1951/52, levaram o clube a subir da III para a II Divisão. Com ele estavam os dois irmãos Cavém, não figurando ainda o irmão Marco, três anos mais novo, mas com o qual Amílcar chegou a jogar na última época em que vestiu a camisola do clube da terra: em 1954/55, já o Lusitano voltara a cair na III Divisão. Amílcar começou então a viagem para norte. Por um ano, jogou no Elvas, mas voltou a conhecer a amargura de uma despromoção: a equipa alentejana foi última da Zona Sul da II Divisão e voltou ao terceiro escalão. Amílcar, contudo, subiu. Amílcar Cavém, o mais velho dos manos, ter-se-á lembrado do conterrâneo numa altura em que o SC Covilhã ainda não encontrara um substituto à altura para o irmão Domiciano, que um ano antes trocara a serra pelo Benfica. E Amílcar Gonçalves chegou à I Divisão em 1956, aos 23 anos.

Na Covilhã, Amílcar não teve facilidade para se impor. O titular da posição era Vinagre, um alentejano que tinha chegado a jogar no Belenenses, pelo que o algarvio só se estreou à sétima jornada, a 28 de Outubro de 1956, num empate com a CUF, no Barreiro (1-1). Logo ali, contudo, fez a assistência para o golo do SC Covilhã, marcado pelo espanhol Suárez. Amílcar não jogou muitas vezes nesta primeira época, mas teve ainda a oportunidade de participar na vitória (4-3) sobre o Sporting, no Santos Pinto, e de fazer o seu primeiro golo na I Divisão: aconteceu a 31 de Março de 1957 e abriu o caminho para uma vitória por 3-0 sobre o Barreirense que, no entanto, não chegou para a permanência. Aos 23 anos, Amílcar descia de divisão pela terceira vez, a segunda consecutiva.

Mas aí começou a retoma do SC Covilhã. Naquele tempo, a Taça de Portugal jogava-se no final do campeonato e, no primeiro jogo da competição, os serranos foram a Montemor aviar o União por 6-1, com bis de Amílcar. O extremo algarvio alinhou em mais um jogo – a vitória frente ao Lusitano, em Évora, por 4-0 – da caminhada covilhanense até á final da Taça, mas nesse dia 2 de Junho ficou a ver os companheiros perderem o troféu com o Benfica, por 3-1. A dinâmica de vitória, porém, estava criada. E apesar de ter sido segundo na Zona Norte da II Divisão, atrás do Vitória de Guimarães, o SC Covilhã apurou-se para a segunda fase e nela veio a sagrar-se campeão nacional do escalão. A festa, fê-la na penúltima jornada, precisamente uma vitória em Guimarães, que permitiu outro estado de espírito para a ronda final, em que perdeu em casa com o Boavista. Já não importava, pois a subida estava garantida.

No regresso à I Divisão, Amílcar continuava a não ter a vida facilitada. O seu maior concorrente era agora o argentino Óscar Silva e, mesmo tendo feito o golo serrano no empate em casa com o Benfica (1-1, a 5 de Outubro de 1958), foram mais as vezes em que ficou a ver do que aquelas em que jogou, no oitavo lugar com que a equipa celebrou a manutenção. Só a partir de 1959 Amílcar se tornou titular de facto do SC Covilhã. Em 1961, com a chegada de Palmeiro Antunes à equipa, Janos Szabó começou o processo de reconversão deste extremo que se destacava pelo arreganho: passou a interior esquerdo na equipa que não foi capaz de evitar nova despromoção. A três jornadas do fim, Amílcar ainda fez um golo ao Beira Mar, mas a derrota que a equipa sofreu nessa tarde, em casa (3-4), deixava-a desde logo condenada. A despedida, o agora médio algarvio fê-la a 27 de Maio de 1962, com mais um golo: um remate do meio da rua valeu um empate (1-1) com o Salgueiros, o outro despromovido.

Amílcar ainda participou em mais cinco épocas com as cores do SC Covilhã, todas a tentar o regresso ao escalão principal. Nunca o conseguiu, apesar dos três segundos lugares obtidos pela equipa: atrás do Varzim em 1963, do SC Braga em 1964 e da Sanjoanense em 1966. Em 1967, com 33 anos, mudou-se para o vizinho CD Gouveia, que entretanto já chegara à II Divisão, e ali assumiu o papel de capitão de equipa. Retirou-se em 1969, com 35 anos, mas ficou a viver em Gouveia, onde se tornou funcionário da Escola secundária local.