Superou a barreira dos 350 jogos na I Divisão, apenas com dois emblemas ao peito: o do Belenenses, onde despontou, e o do SC Braga, onde acabou a capitão. Por ambos, representou a seleção nacional.
2017-09-27

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1970

Não são muitos os jogadores que podem gabar-se de ter somado mais de 350 jogos na I Divisão. João Cardoso, que nasceu avançado no Sacavenense e que Mourinho-pai converteu em defesa-esquerdo, no Restelo, é um deles. Fê-lo graças a 15 épocas de regularidade, sempre sem grandes baixas de forma: era um lateral teso defensivamente e com presença em todo o corredor, ao que somava ainda um caráter competitivo e uma seriedade que lhe valeram ser escolhido capitão do SC Braga na ponta final da sua permanência e convocatórias regulares para a seleção nacional, numa altura – a década de 80 – em que ela era uma espécie de feudo exclusivo dos três grandes.

A seleção, contudo, era uma velha conhecida de João Cardoso. Esquerdino e habilidoso, o sacavenense começou por ser extremo. Foi assim que chegou à seleção de sub18 e que na fase de apuramento para o Torneio Internacional de juniores – prova que a UEFA organizava e que foi a “mãe” do atual Campeonato Europeu da categoria – se sagrou mesmo o melhor marcador nacional, com três golos, incluindo um bis à Espanha em Alvalade. O apuramento perdeu-se para a França e João Cardoso tratou de procurar o objetivo seguinte, que era conseguir um lugar no plantel do Belenenses, onde Mário Wilson dera o lugar a Joaquim Meirim. O novo treinador dizia que ia ser campeão, mas ao fim de quatro jornadas já tinha perdido duas vezes. À quinta, numa deslocação ao Berreiro, a 18 de Outubro de 1970, mudou: Freitas, que até então jogava a defesa-central, ao lado do capitão Quaresma, saltou do onze e nele entrou João Cardoso. Sim, para defesa-central.

O jogo acabou empatado a uma bola e João Cardoso não deixou de contar para Meirim: um pouco por todas as posições, até final da época só falhou dois jogos. Quando, em finais de Janeiro de 1971, após um empate caseiro com o Barreirense (0-0), o Belenenses viu que em vez da luta pelo título teria, sim, de se preocupar com a ameaça da descida de divisão – estava dois pontos acima da linha de água –, a direção substituiu Meirim pela dupla formada pelo guarda-redes Mourinho Félix e pelo jornalista Homero Serpa e João Cardoso passou a jogar a defesa-esquerdo. Os azuis ainda acabaram o campeonato em sétimo lugar e João Cardoso assumiu-se como titular também para treinador que chegou no Verão de 1971, o brasileiro Zezé Moreira. Só uma lesão numa derrota em casa com o Benfica, a 27 de Março de 1972, lhe custou o lugar, porque permitiu o despontar de Pietra para a direita e a passagem de Murça para a esquerda, o que nas duas temporadas seguintes, com Scopelli, o forçou a um grau menor de utilização no onze azul.

Os dois anos que se seguiram foram de fulgor do Belenenses, que em 1972/73 acabou mesmo o campeonato em segundo lugar, atrás apenas do Benfica, mas a João Cardoso isso valeu sobretudo pela estreia nas competições europeias: a 3 de Outubro de 1973, depois de ter falhado a primeira mão (0-2 em casa), o lateral foi titular na derrota do Belenenses em Wolverhampton (1-2), que significava o afastamento da Taça UEFA. Em 1974, porém, com a cegada de Peres Bandeira, a saída de Murça para o FC Porto e a passagem de Pietra para o meio-campo, João Cardoso tornou-se um jogador fundamental. Nessa época falhou apenas três jogos e na seguinte, em que os azuis acabaram o campeonato em terceiro lugar, teve duas alegrias suplementares. A 28 de Março de 1976, a passe de González, marcou o primeiro golo como sénior, numa vitória por 2-0 frente à Académica, na Taça de Portugal. E a 7 de Abril José Maria Pedroto deu-lhe a primeira internacionalização A, colocando-o no lugar do benfiquista Barros a 13 minutos do fim de uma derrota por 3-1 com a Itália em Turim. Com ele em campo, Fraguito ainda marcou o golo de honra de Portugal, que falhara a presença na fase final do Europeu de 1976 e nesse dia começava a preparar o Mundial de 1978.

O terceiro lugar no campeonato permitiu aos azuis nova qualificação para a Taça UEFA. E desta vez João Cardoso alinhou a tempo inteiro nas duas partidas com o FC Barcelona: empate a duas bolas no Restelo e derrota por 3-2 em Camp Nou, com um golo de Clarés aos 87’ a impedir o prolongamento e a apurar a equipa de Cruyff, Neeskens e Rexach. Nessa noite, João Cardoso saiu do relvado lavado em lágrimas. “Foi uma das derrotas que mais me doeu”, reconheceu anos mais tarde. A época, além disso, também não foi famosa: o Belenenses teve três treinadores e João Cardoso acabaria por disputar a última partida com a camisola azul a 29 de Maio de 1977, em Alvalade. A despedida foi infeliz: derrota por 4-0 e confirmação de um décimo lugar que foi o pior de toda a carreira do lateral. Seguia-se Braga, onde o argentino Mario Imbelloni tinha a tarefa de construir uma equipa com aspirações de andar na UEFA.

João Cardoso foi aposta firme do treinador até se lesionar, na receção à Académica, em meados de Maio. Os minhotos ficaram nas meias-finais da Taça de Portugal e acabaram o campeonato num quarto lugar, que permitiu a João Cardoso o regresso ás competições internacionais. Foi titular nos quatro jogos do SC Braga nessa Taça UEFA e, com Fernando Caiado a treinador, passou a ter uma nova responsabilidade: cabia-lhe bater os livres. O resultado foram cinco golos no campeonato, quatro deles de livre direto. Foi ainda ele quem marcou o golo que abriu a caminhada do SC Braga na Taça de Portugal, resolvendo um complicado prolongamento com o Marítimo, mas a equipa voltou a baquear nas meias-finais, desta vez em casa frente ao Boavista (0-1).

A troca de Caiado por Hilário à frente da equipa, em Dezembro de 1979, secou a veia goleadora de João Cardoso, mas não lhe roubou influência: o lateral de Sacavém não falhou um jogo do SC Braga entre 13 de Maio de 1979 e 1 de Novembro de 1980, quando Mário Lino o deixou no banco na receção ao Marítimo. A equipa minhota andava sempre ali, perto dos lugares europeus, mas a grande alegria da carreira de João Cardoso haveria de chegar apenas em 1981/82. Já trintão, à quinta tentativa, conseguiu ganhar uma meia-final da Taça de Portugal. É verdade que, das quatro anteriores, João Cardoso só tinha jogado duas (derrotas por 2-1 com o Benfica, pelo Belenenses, em 1975, e por 1-0 com o Boavista, pelo SC Braga, em 1979). Desta vez, porém, esteve a tempo inteiro, tanto na vitória sobre o Benfica, no Minho (2-1), a 11 de Abril de 1982, como na final do Jamor, a 30 de Maio. Aí, na tarde em que Quinito surpreendeu ao subir ao relvado de smoking, o SC Braga foi destroçado pelo Sporting de Allison (4-0), mas foi o mais perto que João Cardoso esteve de ganhar um troféu. Repetiu a tentativa na época seguinte, alinhando nas duas partidas da Supertaça, mas mais uma vez o Sporting da capital foi mais forte.

Com o aproximar do fim da carreira, João Cardoso estava também a ganhar influência dentro do balneário. Quando Chico Faria saiu para o Penafiel, o lateral foi nomeado capitão de equipa por Juca. Regressara entretanto à seleção nacional, pela qual acumulou oito presenças – a última, em Abril de 1983, foi também a primeira num jogo de qualificação e acabou mal, com a derrota por 5-0 frente à URSS, em Moscovo. Por essa altura, João Cardoso aprendera a preservar-se, voltando a assumir a regularidade como arma principal: entre 25 de Abril de 1982 e 15 de Setembro de 1984 marcou presença em 66 jogos seguidos do SC Braga no campeonato. A 25 de Novembro de 1984 fez ao seu Belenenses o último golo da carreira, batendo Justino de livre, a abrir uma vitória por 2-0. A 31 de Maio jogava pela última vez no campeonato, alinhando os 90 minutos de um empate caseiro com o Rio Ave. Mas mesmo depois de penduradas as chuteiras continuou a trabalhar no futebol: treinou clubes como o Vila Real, o Portalegrense, o Juventude e o Lusitano de Évora antes de regressar a Braga, como adjunto do espanhol Fernando Castro Santos. Desempenha atualmente funções no departamento de scouting do clube minhoto.