Antes de Stallone, Colorado já era o Cobra. O médio da Picheleira não se afirmou no Sporting, mas fez carreira no Beira Mar e foi um dos mais duradouros futebolistas dos escalões secundários na zona de Lisboa.
2017-09-26

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1966

No Sporting, onde cresceu como futebolista, chamavam-lhe “Cobra”. Quando entrou no Vitória de Lisboa, onde chegou para jogar no campeonato distrital, na sequência do 25 de Abril, vindo diretamente da I Divisão, ele próprio fez questão de deixar toda a gente à vontade e dessacralizou a alcunha dentro do balneário: “Sou o Colorado, mas podem chamar-me Cobra”. Para trás, deixava uma vida em que tinha sido promessa no Sporting e certeza em sete anos de Beira Mar, onde foi figura proeminente na até então passagem mais duradoura dos aurinegros de Aveiro pelo escalão principal. Fernando Colorado, um médio de futebol bonito, de baixa estatura mas boa técnica e com um remate de longe que dava que falar, estava a chegar aos 30 e podia pensar-se num rápido fim de carreira, mas ele ainda durou mais dez épocas de chuteiras calçadas, muitas vezes a comer pó nos pelados que por aí abundavam.

Mas vamos ao início da história. Fernando Colorado destacou-se com a bola nos pés e aos 14 anos já estava nas escolas do Sporting. Fez todo o percurso na formação leonina, afirmando-se como médio goleador na equipa de juniores que ficou em segundo lugar no campeonato nacional de 1963 e falhou o acesso à final em 1964. É dessa altura a alcunha: Durval, um brasileiro que não chegou a impor-se no Sporting, explicou-lhe que os bons jogadores, como ele, eram “cobras” e que os fraquinhos eram “minhocas”. Cobra ficou e ganhou um lugar no plantel que em 1964/65 atacou o campeonato nacional da I Divisão sob as ordens do francês Jean Luciano. Passou foi a época toda a jogar pelas reservas até que, terminado o campeonato num modesto quinto lugar, Juca, que três treinadores depois tinha sido chamado ao comando da equipa, quis vê-lo em ação.

A estreia na equipa principal, Colorado fê-la a 6 de Junho de 1965, ainda com 19 anos, em jogo da segunda mão dos quartos-de-final da Taça de Portugal, frente ao Belenenses, no Restelo. E se a primeira mão, em Alvalade, acabara empatada a um golo, pois a segunda acabou empatada a zero, originando a disputa de um jogo de desempate, outra vez em Alvalade. Colorado voltou a jogar e o Sporting ganhou por 3-1, dando ao jovem médio a possibilidade de alinhar outra vez de início nas duas partidas das meias-finais, contra o Vitória de Setúbal. Mais dois empates e novo jogo de desempate – aqui, Colorado já não jogou e o Sporting perdeu o acesso à final para os sadinos.

Ganhou, ainda assim, a hipótese de continuar no plantel que Juca e o brasileiro Otto Glória conduziram ao título nacional de 1965/66. O que não conseguiu foi jogar. Tanto nessa época como na seguinte, Colorado fez apenas um desafio, sempre na Taça de Portugal. Primeiro com o SC Braga, um empate em Alvalade (1-1) que originou a eliminação do clube nas meias-finais de 1965/66. Depois outro empate em casa (1-1), desta vez com o FC Porto, que também conduziu à eliminação, logo à primeira eliminatória. Esse jogo, a 30 de Outubro de 1966, marcou a última vez que Colorado representou o Sporting. No final da época estava a caminho do Beira Mar, equipa que acabara de descer a uma II Divisão onde seria mais fácil ao jovem médio ter continuidade.

Embrenhou-se então na luta por trazer os aurinegros de volta ao convívio dos grandes. Nas primeiras três épocas, ficou perto (dois quartos e um quinto lugares na Zona Norte). À quarta, foi de vez: uma vitória por 4-0 frente à AD Gouveia, na última jornada, permitiu à equipa de Aveiro manter a vantagem de um ponto sobre o Marinhense e garantir a subida. A 10 de Junho de 1971, em jogo apitado por António Garrido, uma vitória por 3-1 sobre o Atlético – que tinha ganho a Zona Sul – valeu mesmo o título de campeão nacional da II Divisão. Duas circunstâncias felizes para um lisboeta de gema.

Dante Bianchi, o argentino que conduzira a equipa à subida, continuou aos comandos do Beira Mar, tendo sido ele a dar a Colorado a estreia na I Divisão, a 12 de Setembro de 1971. A ocasião, contudo, não foi das mais felizes: os recém-promovidos apanharam pela frente uma voraz equipa do Vitória de Setúbal, que lhes ganhou por esclarecedores 4-0. O primeiro golo, Colorado marcou-o a 6 de Novembro, na Tapadinha, frente ao Atlético, num remate do meio da rua que ajudou na complicada vitória por 3-2. Aliás, foram ao Atlético os dois golos que fez nessa época, mostrando que a rivalidade entre os dois populares bairros lisboetas continuava bem viva na cabeça de Colorado: o segundo aconteceu nos mais tranquilos 5-0 em casa. Colorado marcou ainda mais um golo nessa época – nos 8-0 ao Praiense, em jogo da Taça de Portugal – e o Beira Mar acabou a temporada num 13º lugar que o obrigava a jogar a Liguilha entretanto instituída. De especial, nessa temporada, foi o regresso a Alvalade para defrontar o Sporting: Colorado até arrancou no banco, foi de lá que viu Nelinho adiantar os aveirenses, de calcanhar, após um livre, mesmo a acabar a primeira parte. A 20 minutos do final ainda entrou para o lugar de Carmo Pais, ajudando a segurar a vitória histórica e os 500 escudos de prémio que ela valeu a cada jogador.

Conseguida a manutenção na Liguilha com Leixões – que também se manteve –, Peniche e Riopele (os segundos das duas zonas da II Divisão, que por lá ficaram), Colorado viu chegar a Aveiro o treinador Orlando Ramín. E tanto ele como Eduardo Oliveira e Frederico Passos, que o substituíram no decurso da época, apostaram no médio lisboeta, que apesar de começar a primeira jornada no banco, alinhou depois em todos os jogos do Beira Mar. E fez mais dois golos, o primeiro dos quais, claro, ao Atlético, em mais um remate de longe. Os empates em casa com Sporting e FC Porto foram os pontos altos de uma temporada que o Beira mar concluiu em 12º lugar, celebrando a manutenção a duas jornadas do fim, mesmo perdendo em Setúbal. A equipa de Aveiro já não teve a mesma sorte em 1973/74: apesar de uma ponta final de bom nível – duas vitórias e três empates, dois deles com Benfica e Sporting, nas últimas seis jornadas – acabou o campeonato em 13º lugar, teve de jogar a Liguilha e desta vez não se salvou, vendo Leixões e Atlético levar a melhor. Colorado despediu-se da I Divisão a 29 de Maio de 1974, com uma vitória por 3-1 frente ao Farense. O último golo tinha-o feito a 5 de Maio, numa vitória por 1-0 frente ao Oriental. Em Aveiro, contudo, ainda o recordam com saudade, como se viu ainda recentemente, quando apareceu incógnito num jogo do Beira Mar – que entretanto caiu para o distrital de Aveiro –, foi reconhecido e acabou por ser alvo de homenagem espontânea de grande emoção.

Entre a II Divisão e o regresso a casa, Colorado acabou por voltar a Lisboa. O dinheiro no futebol não era muito e, regressando a Lisboa, tinha a garantia de emprego na SNAPA, a Sociedade Nacional dos Armadores da Pesca de Arrasto. A empresa acabou por fechar, mas Colorado manteve o emprego na Doca Pesca, que lhe servia de base enquanto jogava no Vitória de Lisboa, clube do seu bairro, a Picheleira. No campeonato distrital. Não conseguiu subir, mas quem subiu – o GS Loures – viu-o e quis levá-lo com ele para a III Divisão. Colorado passou então sete épocas a saltitar entre o GS Loures e o Vitória de Lisboa, conquistando o distrital de 1977 com a equipa lisboeta, em cujo último momento de fulgor esteve presente: em 1977/78 e 1978/79 o Vitória acabou sempre a uma posição da subida à II Divisão. Antes de pendurar as chuteiras, Colorado ainda foi treinador-jogador do Elétrico de Ponte de Sor e do GD Benavente, nos distritais de Portalegre e Santarém. Em Benavente, acabou despedido após uma derrota em casa contra o Coruchense, para a Taça do Ribatejo, num jogo em que optou por dar oportunidade a uma série de “rapaziada nova”. “Ainda o Jesus não treinava e já eu fazia rotatividade”, brinca agora, sem esquecer a condição de adepto do clube leonino.