Chegou tarde à ribalta, fruto da demora do clube que o formou em apostar nele. Mas ainda veio a tempo de partilhar o balneário da seleção com a geração de ouro e de impor a sua forma sempre calma e segura de estar na baliza na fase final de um Europeu.
2017-09-25

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1986

Aos 29 anos, quando Pedro Espinha saiu do Belenenses, que ao mesmo tempo via chegar o ex-leão Ivkovic, poucos diriam que este era um guarda-redes de seleção. Tinha pouco mais de 50 jogos na I Divisão, em épocas sempre atribuladas, nunca tendo conseguido ser titular absoluto em lado nenhum a não ser nas equipas do escalão secundário pelas quais passou na tentativa de ganhar balanço para começar de novo. Mas foi aí que o guarda-redes de Mafra encontrou o seu Norte. Renasceu no Salgueiros, brilhou no Vitória de Guimarães, jogou o Europeu de 2000 e só falhou a aposta de ser campeão nacional, quando assinou pelo FC Porto e apanhou um raro momento sem títulos dos dragões.

Penduradas as luvas, a imagem que se tem deste filho de um antigo aspirante a guarda-redes – o pai andou pelas camadas jovens do Benfica – é a de um jogador sólido, calmo e eficaz. Pouco dado a grandes brilhantismos, mas nada propenso a falhas. O exato oposto daquilo que dele se disse na primeira vez que pisou um grande palco. Foi a 17 de Março de 1985, tinha Pedro ainda 19 anos e acabara de dar o primeiro passo atrás para depois poder dar dois em frente. Para trás deixara a formação no Belenenses, que chegado a sénior o dispensou. Pedro – era esse o seu nome de guerra de então – assinara pelo Cova da Piedade, equipa que seguia em quinto lugar da Zona Sul da II Divisão quando lhe coube defrontar o Benfica na Luz, em partida dos oitavos-de-final da Taça de Portugal. Os encarnados, liderados pelo polémico Pal Csernai, patinavam no campeonato (vinham de três empates seguidos), mas perante os piedenses não tiveram piedade: ganharam por 4-0 um jogo em que a crítica acusou o guardião forasteiro de se ralar mais com as poses do que com a eficácia das defesas.

Após mais um ano passado da II Divisão, desta vez no Torreense de Pedro Gomes, Pedro chamou a atenção de uma equipa de primeira. Assinou pela Académica, onde Vítor Manuel fez dele o substituto de Vítor Nóvoa. Mas ainda não estava pronto e durante toda a época fez apenas dois jogos. Estreou-se na I Divisão na Luz – mais uma vez – frente ao Benfica, a 16 de Novembro de 1986, e ainda aguentou o 0-0 até aos 15 minutos finais, mas nessa altura Chiquinho e Diamantino estabeleceram o 2-0 que os livros de história registam. O treinador manteve-o na partida seguinte, a estreia da equipa na Taça de Portugal, no terreno do modesto Oliveira do Douro, mas a derrota por 2-1 no Campo de Santiago ditou-lhe a sorte. Não voltou a jogar e teve de baixar mais uma vez à II Divisão para reconquistar estatuto.

Foi após duas épocas no Sacavenense, a última das quais com descida de divisão, mas marcada por grandes exibições, que Pedro voltou a merecer a confiança de uma equipa “grande”. E a chamada veio do Restelo, onde o conheciam bem: prestes a completar 24 anos, foi chamado de volta a casa para ser a dobra do internacional búlgaro Mladenov e de Justino. Durante a primeira época, só alinhou em jogos de reservas. E a segunda ia pelo mesmo caminho quando, com os azuis em último lugar da tabela, em Janeiro, regressou Moisés de Andrade. O treinador brasileiro manteve Justino na baliza durante duas semanas, mas à terceira, quando a equipa se preparava para visitar o líder FC Porto, nas Antas, chamou Pedro. E Pedro respondeu bem, parando todas as investidas do ataque formado por Domingos e Kostadinov. O empate a zero custou aos azuis e brancos a perda da liderança mas valeu a Pedro a titularidade até final da época. Para o que não deu foi para a manutenção: o Belenenses acabou o campeonato em penúltimo lugar e foi condenado a disputar a II Divisão de Honra.

Parecia, aí, que a carreira de Pedro ia disparar. Titular no ano de regresso dos azuis à I Divisão, o guarda-redes de Mafra veio a ser preterido em favor de Figueiredo a meio da época seguinte, após uma derrota por 4-2 com o Marítimo nos Barreiros. Abel Braga não voltou a confiar nele. A ponto de Pedro só ter voltado a jogar em Janeiro de 1994, quando o brasileiro voltou a casa e José António foi chamado interinamente a assumir um lugar que estava reservado para José Romão. Finda a época, quando estava prestes a fazer 29 anos e o Belenenses se preparava para contratar o internacional jugoslavo Ivkovic, Pedro não ficou no Restelo. Partiu à aventura para Norte e assinou pelo Salgueiros, onde em virtude da convivência com o capitão Pedro Reis passou a ser conhecido como Pedro Espinha. Ali, com Mário Reis, teve finalmente estabilidade e começou a render. Durante dois anos, só faltou a um jogo – a última jornada do campeonato de 1994/95, na qual, já com a manutenção assegurada, Reis proporcionou a despedida ao veterano Madureira.

À terceira época de Pedro em Vidal Pinheiro, porém, o novo treinador, Carlos Manuel, decidiu dar a baliza a Jorge Silva. Pedro teve de esperar por uma oportunidade, que chegou outra vez após um desaire nos Barreiros: a derrota por 3-1 frente ao Marítimo, que deixava o Salgueiros em 13º lugar, levou o treinador a trocar de guarda-redes. Nas quinze jornadas até final, já com Pedro – que agora se chamava Espinha, em virtude da convivência com o capitão Pedro Reis – além de ganhar ao FC Porto nas Antas (2-1) e ao benfica na Luz (4-3), o Salgueiros foi a terceira equipa que mais pontos fez (30, só superados pelos 32 do FC Porto e pelos 34 do Sporting) e acabou a Liga em sexto lugar. A qualificação europeia só não foi conseguida porque, no último minuto do último jogo, Abílio falhou a grande penalidade que daria ao Salgueiros a vitória face ao Farense, no Algarve. Os salgueiristas acabaram a época em sexto lugar, com o Vitória de Guimarães em quinto a celebrar a entrada na Taça UEFA.

Essa Taça UEFA, contudo, foi Pedro Espinha quem a jogou, pois finda a época trocou o Salgueiros pelo Vitória. No Minho, foi suplente de Neno na primeira jornada, mas agarrou a baliza à segunda, altura a partir da qual nem Jaime Pacheco nem Quinito – que o substituiu a meio da época – abdicaram dele. Fez a estreia europeia a 16 de Setembro, dias antes de completar 32 anos, numa pesada derrota caseira com a Lazio de Eriksson, onde pontificava um dos maiores ídolos do guardião português, o atacante Roberto Mancini. Foi buscar quatro bolas às redes nessa noite, mas na Liga portuguesa a conversa era outra. O Vitória acabou a prova em terceiro lugar e com a defesa menos batida do campeonato – 25 golos, contra 29 do Benfica e 31 do Boavista. Não foi estranho, portanto, que mantendo a titularidade no Vitória (e isso aconteceu depois, tanto com Filipovic como com o regresso de Quinito), Pedro Espinha tenha sido chamado para a seleção nacional. Estreou-se a jogar de quinas ao peito a 26 de Março de 1999, já com 33 anos, quando Humberto Coelho o chamou para render Vítor Baía nos últimos 13 minutos de um jogo que se tornara fácil, precisamente em Guimarães, com o Azerbaijão. Portugal ganhou por 7-0 e Pedro Espinha somou ali a primeira de seis internacionalizações, uma das quais na fase final do Europeu de 2000.

Após três anos no Minho, e já com o final de carreira ao virar da esquina, Pedro Espinha quis ser campeão nacional e aceitou o convite do FC Porto. Ali, a baliza era de Baía, mas a lesão grave do titular do clube e da seleção nacional conduziu a um período de indefinição do qual ninguém saiu a ganhar. Nessa época, Fernando Santos tinha cinco guarda-redes: Baía, Pedro Espinha, Rui Correia, Hilário e Ovchinnikov. Espinha jogou pouco: só uma vez na Liga, uma na Supertaça, outra na Taça UEFA (a eliminação frente ao Liverpool, em Anfield Road) e cinco na Taça de Portugal, onde mesmo não tendo alinhado na meia-final e na final, ganhou o direito a inscrever o nome nos vencedores ao tomar parte na renhida eliminatória ganha ao Benfica em dois jogos. No final da época, Fernando Santos quis levá-lo com ele para a Grécia, mas Pedro preferiu ficar. Queria ser campeão nacional. Só que o FC Porto de Otávio Machado não chegou lá e quando chegou José Mourinho já o guarda-redes estava a caminho do Vitória de Setúbal, para um final de carreira menos tranquilo do que se esperaria.

No Bonfim, Pedro Espinha ainda foi capaz de dividir a baliza com Marco Tábuas. Despediu-se dos relvados a 11 de Maio de 2003, com uma derrota na Póvoa de Varzim, por 3-2, que deixava o Vitória a cinco pontos da linha de água – com três jogos por efetuar. Os sadinos não se salvaram e, aos 37 anos, Pedro Espinha decidiu enveredar por outra carreira: a de treinador de guarda-redes, que desde essa altura exerceu no Vitória e na Federação Portuguesa de Futebol, onde além de se ocupar de várias equipas assumiu ainda responsabilidades no projeto de definição do modelo de guarda-redes português, lançado por Carlos Queiroz.