Defesa implacável, podia alinhar como lateral ou central com a mesma eficácia. Sete vezes campeão pelo Benfica, começou por mostrar-se ganhando uma Taça de Portugal no Leixões
2016-08-28

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1960

Fazia todos os lugares da defesa com a mesma eficácia. Começou como defesa-esquerdo e teve um batismo de fogo, na ponta final de uma época que viu o Leixões surpreender o FC Porto na final da Taça de Portugal, nas Antas. Chegou ao Benfica como lateral, para ser sombra de Cruz, mas foi sempre jogando e somando títulos: foi sete vezes campeão nacional em nove épocas na Luz, onde no entanto só se afirmou como defesa-central, após o declínio de Germano e o trágico falecimento de Luciano, sendo fundamental no tricampeonato de 1967 a 1969. Ainda regressou ao Leixões para acabar a carreira, mas não era já o mesmo jogador implacável na marcação e no desarme, pelo que aos 31 anos decidiu por fim a uma carreira vencedora.

Jacinto foi lançado no Leixões por Óscar Marques, o interino que pegou na equipa entre a saída do argentino José Valle e a chegada de Filipo Nuñez. A ocasião foi uma visita a Guimarães, a 19 de Fevereiro de 1961, e não correu da melhor maneira, pois os matosinhenses perderam por 2-1, fruto de um autogolo de Raul Machado – que haveria de ser colega de Jacinto na aventura benfiquista. Ainda assim, Jacinto manteve a titularidade, só falhando quatro dos 19 jogos que o Leixões fez até final da época: a vitória caseira frente ao Lusitano de Évora (3-1), no campeonato, e as deslocações aos terrenos do Alhandra (2-2), Caldas (1-1) e U. Madeira (3-1), na longa caminhada até à final da Taça de Portugal. O jovem lateral já esteve no onze de Nuñez, por exemplo, nas duas partidas das meias-finais, contra o Belenenses, com vitórias por 3-2 no Campo de Santana e 2-1 no Restelo, tendo neste último caso feito o cruzamento para o primeiro golo nortenho, da autoria de Oliveira. É que ele era um exímio batedor de livres.

Na final, um dos episódios mais marcantes da história do clube, os leixonenses entraram nas Antas como inocentes para a degola. O jogo estava marcado para Lisboa, mas alegando que iam estar em campo duas equipas do Norte, o FC Porto conseguiu transferi-la para o seu próprio estádio. Foi por isso num Estádio das Antas cheio de fervor portista que a jovem equipa do Leixões ganhou por 2-0, imortalizando os nomes dos onze jogadores naquele dia utilizados por Filipo Nuñez. Entre eles estava o jovem Jacinto, a viver um arranque de sonho na sua carreira. Jacinto já foi titular de pleno direito na época seguinte, que o Leixões acabou num honroso sétimo lugar. Estreou-se nas provas europeias a 7 de Setembro de 1961, com uma derrota por 6-2 no terreno dos suíços do La Chaux de Fonds que parecia significar o afastamento precoce na Taça das Taças, mas esteve também depois nos 5-0 da segunda mão. Só falhou seis jogos nesse campeonato, alguns deles por causa de uma expulsão na primeira vez que voltou a defrontar o FC Porto: o árbitro, Pedro Santos, viu-o agredir o portista Hernâni e mandou-o para o duche, mas mesmo reduzido a dez o Leixões conseguiu sair com um empate a zero.

Jacinto acabaria esse campeonato com três golos. O primeiro marcou-o ao Benfica, a 21 de Janeiro de 1962, mas nem assim o Leixões escapou a uma pesada derrota por 7-1. O último, a 1 de Abril, foi bem mais importante: com um remate de longe abriu o marcador na receção ao Sporting, que o Leixões acabaria por ganhar por 2-1. No fim da época, fruto do destaque assumido na equipa, tanto Jacinto como Raul Oliveira seguiram para o Benfica. Na Luz entrava também o treinador chileno Fernando Riera, para substituir Guttmann, o mago das vitórias na final da Taça dos Campeões. O ano era, por isso, de transição, mas nem por isso Jacinto viu muita competição: somou 13 presenças ao longo da temporada, divididas entre a Liga (oito), a Taça de Portugal (três), a Taça dos Campeões (uma) e a Taça Intercontinental (uma). O suficiente para ser pela primeira vez campeão nacional. As quatro primeiras épocas de Jacinto na Luz foram, aliás, mais ou menos assim. A concorrência era tanta que ele tinha de aproveitar qualquer chance para jogar. Voltou ainda assim a ser campeão em 1963/64 (ano em que só jogou no campeonato) e em 1964/65 (época em que Elek Schwarz lhe deu a titularidade até ao Natal, mas na qual não voltou a alinhar depois disso). Nos dois anos, foi ainda vítima do seu empenho excessivo, com expulsões que lhe roubaram presenças: viu um vermelho num dérbi com o Sporting, que os encarnados perderam por 3-1, em Alvalade, e outro no empate frente ao La Chaux de Fonds, na Taça dos Campeões Europeus.

Em 1965/66, a época de regresso de Guttmann, na qual Jacinto marcou os primeiros golos com a camisola do Benfica – à Oliveirense e ao Alhandra, nas duas primeiras eliminatórias da Taça de Portugal – o matosinhense viveu a primeira época na Luz sem ganhar nada. E se na Liga não havia muito a dizer, deve ter perdido muitas horas a pensar no que lhe aconteceu nas duas outras competições disputadas pelo clube. Em Fevereiro, com uma onda de lesões, o treinador húngaro tentou chamar Jacinto de emergência para a deslocação a Manchester, onde o Benfica ia jogar os quartos-de-final da Taça dos Campeões com o United. Tal acabou por se revelar impossível, pois a contar que não seria convocado o jogador tinha-se ausentado para o Porto, sem autorização do clube. O Benfica acabou por ser eliminado, perdendo ambos os jogos: 2-3 em Inglaterra, 1-5 na Luz no show de George Best. Em Abril, na Taça de Portugal, depois de ter perdido por 4-1 em Braga, o Benfica tinha pela frente uma tarefa difícil mas não impossível (o Sp. Braga baqueara na Luz pelo mesmo resultado no campeonato). O problema é que, aos 25 minutos, com 0-0 no marcador, Jacinto perdeu a cabeça e agrediu Perrichon, recebendo ordem de expulsão. Mesmo com dez, o Benfica chegou aos 3-1, mas acabou por ser eliminado.

A afirmação plena de Jacinto na equipa do Benfica deu-se em 1966/67. Germano deixou de contar e o regressado Fernando Riera passou a olhar para o leixonense como defesa-central. A lesão e o posterior falecimento – eletrocutado no jacuzzi – de Luciano veio ainda aligeirar mais a concorrência para o lugar, acabando Jacinto por se tornar titular a tempo inteiro ao lado do seu companheiro leixonense Raul. Titular no campeonato da quarta jornada (um 3-0 ao Sporting, em inícios de Outubro) até ao fim, Jacinto não só voltou a ser campeão como chegou à seleção nacional: fez a estreia a 13 de Novembro de 1966, como central, na derrota por 2-1 com a Suécia que assinalou a primeira partida da equipa nacional após o terceiro lugar no Mundial. Viria a jogar mais quatro vezes, todas na qualificação para o Mundial de 1970, marcando inclusive dois golos a partir da posição de defesa-direito, num 3-0 à Roménia. Não serviriam de muito, pois Portugal acabou por falhar o apuramento para estar no México

No Benfica, as coisas corriam melhor. Central com Riera (e depois com Cabrita e Otto Glória, que sucederam a meio da temporada ao chileno) no título de 1967/68, pôde finalmente jogar uma final da Taça dos Campeões Europeus: a 29 de Maio de 1968, o Benfica sairia de Wembley derrotado pelo Manchester United, por 4-1, após prolongamento. A ascensão de Humberto Coelho levou então Otto Glória a desviar Jacinto para a direita da defesa na dobradinha nacional de 1968/69. Fez 22 dos 26 jogos de campeonato, mas falhou a fase decisiva da Taça de Portugal, por se ter lesionado na primeira mão dos quartos-de-final, uma vitória frente ao Belenenses no Restelo. Essa final, ganha à Académica, por 2-1, após prolongamento, jogou-a Malta da Silva em vez dele. Jacinto não estaria, também, na final da Taça de Portugal de 1969/70: mesmo tendo feito as primeiras três eliminatórias como defesa-esquerdo, em vez do lesionado Adolfo, viu este recuperar e acabou por perder a vaga na decisão que foi uma espécie de desforra do título perdido para o Sporting: 3-1 numa final em que Malta da Silva foi expulso.

Foi o castigo federativo a Malta da Silva que permitiu a Jacinto somar mais um título de campeão. Sem o lateral direito titular, Jimmy Hagan recorreu ao matosinhense na partida com a CUF (1-0 no Jamor) com que o Benfica abriu a temporada de 1970/71. Era a última vez que Jacinto jogava, de forma oficial, pelos encarnados. No final da época deixou o clube e regressou ao Leixões. No Estádio do Mar, porém, não teve mais sorte: somou apenas quatro presenças em toda a temporada, despedindo-se do campeonato a 21 de Maio de 1972, aos 30 anos, substituindo Adriano bem cedo numa derrota por 4-0 frente ao Barreirense no D. Manuel de Melo.