Depois de um começo de sonho no Barcelona de Cruijff, Paco Fortes acabou por se transformar na imagem do Farense. Primeiro como jogador e depois como treinador de uma década.
2016-01-04

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1978

O catalão mais algarvio do Mundo não conseguiu escrever e assinar em nome próprio páginas de ouro na história do FC Barcelona, mas fica inegavelmente ligado à do Sp. Farense, clube que serviu como jogador e treinador. Nas duas tarefas mostrou as mesmas caraterísticas. Acima de todas uma garra inquebrantável, que exibia junto à linha lateral como forma de compensar a sua baixa estatura e soube depois transmitir aos seus jogadores, numa altura em que o Farense já era a única equipa do futebol português a utilizar as marcações homem-a-homem que lhe vinham dos tempos em que começou como futebolista.

O início de Paco Fortes foi retumbante. Formado no FC Barcelona, passou um ano na equipa B até que, tendo perdido a primeira mão de um jogo da Taça UEFA, em Salónica, frente ao PAOK, por 1-0, a 1 de Outubro de 1975, o alemão Hannes Weissweiler se lembrou do miúdo para compor o ataque com Rexach, Cruijff e Sotil. O resultado foi um retumbante 6-1 que permitiu a passagem da eliminatória e a continuidade do jovem extremo esquerdo no onze. Antes do final do mês fez o primeiro golo, numa vitória por 2-1 frente ao Racing Santander, e em Novembro Kubala levou-o à seleção que jogava as eliminatórias do Europeu de 1976. Estreou-se em Bucareste, frente à Roménia, entrando a 15 minutos do fim para o lugar de Rojo, porque a Espanha precisava de ganhar para se apurar. O jogo acabou empatado a dois golos, a Espanha não se qualificou e Fortes não voltou à seleção.

Apesar dos 34 jogos (e cinco golos) divididos por todas as competições, Fortes não fez parte dos planos de Rinus Michels para a época de 1976/77, tendo sido emprestado ao Málaga. A época não lhe correu bem – só um golo – mas, apesar da descida de divisão, voltou ao Barcelona. Ali ganhou o primeiro troféu, uma Copa do Rei em cuja caminhada contribuiu com um bis ao Getafe (numa vitória por 8-0), tendo alinhado os 90 minutos na final, ganha por 3-1 ao Las Palmas no Santiago Bernabéu. A mudança de paradigma no Barcelona, porém, acabou por redundar no sacrifício de Fortes, que foi muito menos utilizado pelo treinador francês Lucien Muller e não jogou um único minuto na Taça das Taças, que os catalães acabaram por ganhar, na final de Basileia. O caminho era evidente: Fortes tinha de descer um nível para ter continuidade. No Verão de 1979 transferiu-se para o Espanyol, segundo clube da cidade. Um ano a escapar à justa à despromoção e outro a meio da tabela não o satisfizeram, pois não marcou um único golo. Também ali foi perdendo espaço, até que em 1982 voltou a mudar de camisola, assinando desta vez pelo Valladolid. Ali ganhou importância, bem expressa nos seis golos que fez na Liga – um deles ao Barcelona – mas, ao acabar a segunda época como suplente utilizado, mesmo tendo estado na final da Taça da Liga, ganha em duas mãos ao Atlético de Madrid, decidiu aceitar o convite do Farense.

A 26 de Agosto de 1984, aos 29 anos, estreava-se na Liga portuguesa, envergando a camisola do Farense, num empate a zero frente ao Varzim, na Póvoa. O primeiro golo marcou-o a 18 de Novembro, na baliza do Benfica, valendo uma vitória por 1-0 à equipa então orientada por Fernando Mendes. Fortes acabou essa época com quatro golos, mas o Farense desceu de divisão. Ele, ainda assim, ficou, condenado a jogar várias vezes nos pelados que por essa altura proliferavam pelo futebol português dos escalões inferiores. O Farense voltou a subir de divisão e, em 1986, Fortes estava de volta ao campeonato principal. Marcou ao FC Porto, em mais uma vitória por 1-0, na penúltima jornada, três dias antes da final da Taça dos Campeões que consagrou os dragões, mas nem assim o Farense teria escapado a nova despromoção… não fosse o alargamento do campeonato de 16 para 20 equipas. Os algarvios aproveitaram e acabaram o campeonato de 1987/88 num meritório 12º lugar, com mais quatro golos do catalão. O último, fê-lo a 2 de Junho de 1988, numa vitória por 7-0 sobre o Sp. Covilhã. Em 1988/89 foi jogando menos – despediu-se dos relvados a 29 de Outubro, numa derrota por 4-2 em Braga. Não jogou mais com José Augusto, nem depois com Malcolm Allison. E após uma derrota em casa com o mesmo Sp. Braga, em Março de 1989, foi convidado a substituir o inglês numa tentativa que se revelou infrutífera de salvar o Farense de nova descida. Com quatro vitórias nas últimas oito jornadas, os algarvios subiram uma posição, mas acabaram a dois pontos da salvação, porque no último dia da prova perderam em casa com o Sp. Espinho por 3-1, num resultado que condenou ambas as equipas.

Paco Fortes, porém, começava ali um novo percurso: o de treinador. Na primeira época completa, não só subiu de divisão como conduziu o Farense à final da Taça de Portugal, perdida em dois jogos contra o Estrela da Amadora. Levou os algarvios a dois sextos lugares (em 1992 e 1993) e a um quinto (em 1995), permanecendo à frente da equipa até Fevereiro de 1999. Uma derrota por 5-0 na Luz, frente ao Benfica, motivou a sua substituição por João Alves. Fortes ainda trabalhou no Imortal, no U. Lamas, no Pinhalnovense e no Raja de Casablanca, mas não se identificou com nenhum clube como com o Farense que moldou à sua imagem. Atualmente, depois de ter passado dificuldades financeiras, vive e trabalha em Barcelona, afastado do futebol.