Uma máquina goleadora que aprendeu com os melhores e encantou adeptos de Sporting e Celtic, Cadete ainda passou no Benfica antes de encarar a decadência e as dificuldades na vida após o futebol.
2016-08-27

1 de 19
1987

Cadete era um ponta-de-lança tipicamente britânico que nasceu em Moçambique de nacionalidade portuguesa. Tinha um tempo de salto e uma coragem misturada com agressividade no ataque à bola que faziam dele um cabeceador letal, apesar de não medir mais de 1,80m. Além disso era veloz e móvel, o que lhe permitia sucessivas desmarcações pelos corredores laterais, que chegaram a confundir alguns treinadores que foi conhecendo. “Tinham-me dito que ele era extremo direito”, regozijou-se Bobby Robson, quando finalmente apostou no jovem Cadete no meio do ataque e este lhe respondeu com golos atrás de golos. Cadete era, na verdade, um dos melhores pontas-de-lança da sua geração, a quem só terá faltado mais inteligência na gestão de carreira para evitar os achaques que o deixaram em situação de miséria quando acabou o futebol.

Chegado de Moçambique com a descolonização, Jorge começou a brilhar nas categorias jovens da Académica de Santarém. Marcava golos sobre golos nos pelados do distrital de juvenis e o Sporting não o deixou escapar, contratando-o para a sua equipa de juniores. Ali jogou duas épocas até que Keith Burkinshaw, o treinador inglês que por esses tempos liderava o futebol leonino, nele reparou e o promoveu a sénior. Cadete teve a felicidade de ter treinadores ingleses na fase mais eufórica da sua carreira e, além disso, de aprender com os melhores avançados que a Liga portuguesa tinha: no primeiro ano de sénior, assimilou a técnica e o faro de golo de Cascavel e a presença na área de Houtman; no segundo, emprestado ao V. Setúbal, foi treinado por Manuel Fernandes e alinhou ao lado do sempre móvel Jordão; no terceiro, de regresso a Alvalade, treinava e jogava com Fernando Gomes, o melhor finalizador de todos. Com tanta lição prática e a sua disponibilidade física para o jogo, era impossível que não se tornasse um ponta-de-lança de eleição.

Burkinshaw acreditava em Cadete e por isso deu-lhe a estreia oficial logo na primeira jornada da Liga, fazendo-o entrar a 10 minutos do fim de uma vitória por 4-1 frente ao Rio Ave, em Alvalade, para o lugar de Marlon. Estava-se a 23 de Agosto de 1987, quatro dias antes de Cadete completar 19 anos. À terceira ronda, a 6 de Setembro, na receção ao Farense, foi pela primeira vez titular e dez dias depois alinhava nas competições europeias, saindo a 14 minutos do fim de uma vitória clara sobre o Innsbruck (4-0). A derrota em Penafiel, que em finais de Janeiro deixava o Sporting em oitavo lugar da tabela, porém, levou ao despedimento de Burkinshaw e, com António Morais, Cadete não voltou a jogar. No fim da época, foi decidido que o melhor seria emprestá-lo para rodar e a escolha não podia ter sido melhor: o jovem atacante saiu para o experiente plantel do V. Setúbal, treinado pelo ex-capitão leonino Manuel Fernandes. Foi em Setúbal que Cadete se estreou a marcar no campeonato: a 11 de Setembro de 1988, com 3-0 no marcador, substituiu Roçadas a 18 minutos do fim de uma partida com o Fafe, assinando ele mesmo o quarto golo. Fez mais sete nessa Liga, incluindo dois bis, ao Sp. Espinho e ao Ac. Viseu, em Março de 1989. O quinto lugar final do Vitória teve muito do veterano Jordão, melhor marcador da equipa, mas também do entusiasmo juvenil de Cadete, que ainda ganhou ao Sporting das unhas de Jorge Gonçalves (1-0 no Bonfim, em Fevereiro, a jogar a extremo-direito) antes de regressar à base.

O Cadete que Manuel José acolheu em 1989 já tinha outro estatuto, uma história suficiente para pedir a titularidade. Ainda assim, só a teve em finais de Outubro, sendo que só com Raul Águas, a partir do Ano Novo, começou a ser aposta constante numa equipa que tinha Gomes e Cascavel. Fez, ainda assim, o suficiente para ser chamado por Artur Jorge ao primeiro jogo feito pela seleção em 1990/91: a 29 de Agosto de 1990, formou dupla de ataque com Rui Águas no empate caseiro com a Alemanha (1-1), que chegava à Luz no rescaldo do título de campeã mundial. Apesar de só ter feito três golos nesse campeonato, Cadete revelou-se um jogador fundamental na equipa de Marinho Peres, a tal que arrancou onze vitórias nas primeiras onze jornadas. Um dos grandes assistentes de Gomes, que fechou a temporada com 29 golos em todas as competições, Cadete foi ainda o melhor marcador dos leões na caminhada até às meias-finais da Taça UEFA, com seis golos (três dos quais nos 7-0 ao Timisoara, a 24 de Outubro, naquele que foi o seu primeiro hat-trick com a camisola leonina). Além disso, passou a ser opção constante para a seleção, marcando a 20 de Fevereiro de 1991 o primeiro golo de cinco golos pela equipa das quinas, nuns 5-0 a Malta, nas Antas.

Em 1991/92 Cadete deu início a uma série de 91 jogos seguidos sempre a alinhar pelo Sporting – a sexta mais elevada de toda a história do clube. Totalista nessa época, ainda com Marinho Peres e António Dominguez (este a partir de meados de Março, quando o brasileiro foi demitido), Cadete manteria o estatuto com Bobby Robson em toda a temporada de 1992/93, só falhando um jogo em Novembro de 1993, quando o treinador inglês não pôde contar com ele para uma receção ao FC Porto que os leões acabariam por perder por 1-0. E nesse período tudo mudou. Fechou a Liga de 1991/92 com 25 golos, a sua melhor marca de sempre no campeonato português, com destaque para um póquer nos 5-1 ao U. Madeira, a 22 de Fevereiro de 1992, e um hat-trick nos 3-0 ao Gil Vicente, exatamente um mês depois. Sempre fora de casa, que era onde Cadete mais facilmente encontrava o espaço para marcar. Chegou nessa época a ser capitão de equipa, nas ausências de Venâncio, mas assumiu de vez o cargo após a saída do defesa para o Boavista, em 1992. Nessa altura, com a chegada de Robson, Cadete ganhava cada vez mais importância na equipa: fez 23 golos em 41 jogos dessa época, valendo-lhe os 18 que marcou na Liga o título de melhor marcador do campeonato. Face à penúria desportiva em que o Sporting vivia – zero títulos desde que Cadete chegara à equipa –, era o que podia arranjar-se.

Foi ainda com Robson que Cadete brilhou pela primeira vez à frente dos adeptos do Celtic. Não em Glasgow, onde os leões perderam por 1-0, mas no jogo da segunda mão, em Alvalade, onde um bis do capitão permitiu dar a volta à eliminatória. E foi precisamente nessa Taça UEFA que se jogou o futuro do jogador. A eliminação frente ao Salzburg, em finais de Novembro – tendo Cadete marcado no jogo de Alvalade – valeu o despedimento a Robson e a chegada de Carlos Queiroz a Alvalade. Cadete até marcou o golo decisivo no primeiro jogo do novo treinador, mas os dois nunca se entenderam. A perda do título, nos famosos 3-6 contra o Benfica, teve um golo do capitão, que uma semana depois, a 20 de Maio, marcava pela última vez com a camisola leonina, atenuando uma derrota por 2-1 frente ao Marítimo, nos Barreiros. Por essa altura já Queiroz tinha abalado o estatuto de imprescindível de Cadete, deixando-o no banco em todos os jogos de Março e Abril, depois de o ponta-de-lança se ter feito expulsar num empate a zero contra o U. Madeira. Mas foi a temporada que se seguiu que originou o romper da corda.

Até finais de Outubro, Cadete só tinha jogado três vezes, duas delas saindo do banco. Nessa altura, clube e jogador chegaram a acordo para um empréstimo ao Brescia do treinador romeno Mircea Lucescu. Em Itália, contudo, Cadete não foi feliz: fez apenas um golo e a equipa do Norte de Itália acabou a Série A em último lugar. E, sobretudo, falhou o regresso do Sporting aos troféus: os leões ganharam a Taça de Portugal, batendo na final o Marítimo, mas sem que o moçambicano tivesse alinhado um minuto sequer em toda a caminhada. De regresso a Alvalade, no final da época, Cadete ainda pensou que as coisas pudessem mudar: foi titular no primeiro jogo da época, a primeira mão da Supertaça que os leões acabariam por ganhar ao FC Porto, no desempate em Paris. Foi o único título coletivo ganho por Cadete no Sporting, ainda que o tenha visto à distância. É que à data do desempate, em finais de Abril de 1996, já ele jogava pelo Celtic, na Liga escocesa. Tudo porque Queiroz continuava a não apostar nele: até meados de Novembro, Cadete tinha jogado apenas mais 66 minutos, divididos por três jogos de campeonato. A julgar pelas dificuldades que o avançado enfrentou no final de carreira, podia até pensar-se que já não estava na plenitude das suas capacidades, apesar de contar apenas 27 anos. Mas os resultados na Escócia contaram uma história bem diferente.

No Celtic e num campeonato onde a mentalidade convinha muito mais ao seu futebol, Cadete foi um herói. Marcou logo na estreia, uma goleada por 5-0 ao Aberdeen, e os cinco golos que fez em seis jogos nesse final de época chegaram para convencer António Oliveira a levá-lo ao Europeu de 1996 com a seleção nacional. Não foram suficientes, porém, para o levar a dar-lhe mais minutos em campo: Cadete fez apenas 20 minutos contra a Turquia e 8 contra a Rep. Checa, no jogo que custou a eliminação a Portugal (0-1). Na Escócia, porém, tudo lhe correria às mil maravilhas. Em 1996/97 tornou-se o primeiro português a sagrar-se melhor marcador de uma Liga no estrangeiro, fazendo 25 golos pelo Celtic. Juntou-lhe mas 13 noutras competições, o suficiente para ser venerado e ter direito a um cântico nas bancadas do Celtic Park: “There’s only one Jorge Cadete/He puts the ball in the net/He´s Portuguese/And he scores with ease/ Walking in Cadete wonderland”, cantavam os fieis adeptos do clube católico de Glasgow. Ainda assim, Cadete não estava bem. Queixava-se do frio, queixava-se da comida e não descansou enquanto o clube não o transferiu. Passou então um ano e pouco no Celta de Vigo, onde até fez uma primeira temporada razoável, mas se viu relegado para o banco por Victor Fernández na segunda. Pelo meio, em Abril de 1998, jogou pela última vez na seleção nacional, numa derrota por 3-0 com a Inglaterra, em Wembley.

Com 30 anos, pensou no regresso a Portugal. O Sporting não se mostrou interessado e Cadete foi uma espécie de lança em Alvalade, cravada pelo então presidente do Benfica, João Vale e Azevedo. Estreou-se a 3 de Janeiro de 1999, precisamente em Alvalade e contra o Sporting, num jogo que os encarnados ganharam por 2-1. E vinha tão motivado que até reclamou a autoria do segundo golo do Benfica, que na verdade foi um autogolo do defesa leonino Beto. Cadete ainda marcou três golos nesse campeonato, o último dos quais a 14 de Maio de 1999, num 4-1 caseiro ao Chaves. Ele não o sabia, mas aquele seria o seu último golo na Liga portuguesa. Longe de ser aposta para Jupp Heynckes, saiu para o Bradford, onde passou a segunda metade da época de 1999/00, sem conseguir um único golo na Premier League. Restava-lhe baixar o nível de exigência: a época de 2000/01 viu-o jogar pelo Estrela da Amadora. Mas aquele, sim, já era um Cadete muito longe do goleador que maravilhara Alvalade e o Celtic Park. Voltou a deixar a conta pessoal a zeros, despedindo-se da Liga a 22 de Abril de 2001, jogando em vez de Paulo Ferreira nos últimos 20 minutos de uma derrota caseira com o Alverca. Por essa altura, mesmo a cinco jornadas do fim do campeonato, já o Estrela estava condenado à despromoção.

Cadete agravou então a espiral de insucesso. Jogou pouco pelo Estrela na II Liga e abandonou o futebol para se dedicar a outros projetos. Em 2003 entrou, por exemplo, no Big Brother Famosos, um “reality show” televisivo. Investiu depois de forma pouco avisada as economias que tinha, vendo-se obrigado a encarar o regresso. Convidado pelo Partick Thistle, da Escócia, estreou-se pelo clube em Fevereiro de 2004, em Celtic Park, onde foi brindado com uma ovação que podia tê-lo transportado para os tempos de glória. Não haveria de acontecer. Cadete ainda jogou um ano no Pinhalnovense, na II Divisão B, e outro no São Marcos da Ataboeira, no distrital de Beja. Teve uma Academia de futebol, foi treinador do Algueirão, diretor desportivo do U. Almeirim e provedor do adepto da Liga, mas sempre sem sucesso, tendo chegado a passar dificuldades de subsistência. Uma reportagem da SIC, em Janeiro de 2014, revelou que, depois de dois divórcios, o ex-capitão do Sporting vivia em casa dos pais, tendo visto ser-lhe cortado o rendimento social de inserção – no valor de 189 euros mensais – por ter um imóvel registado em seu nome, mas na verdade penhorado por dívidas à banca.