Dono de um passe seguro e de um remate fulminante, Barroso dividiu a carreira entre Sp. Braga e FC Porto. Campeão nas Antas, esteve no renascimento da equipa minhota, onde entrou a lutar pela permanência e de onde saiu a festejar a UEFA.
2016-08-26

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1991

Pensava o futebol num estirador, preocupando-se em desenhar ângulos que lhe permitissem sempre o passe e a continuação das jogadas. Barroso ficou conhecido pelo reate fortíssimo e em última análise foi isso que o levou ao FC Porto e à seleção nacional, mas a certeza no passe, a forma como tornava o jogo simples e o empenho físico que punha em cada tentativa de desarme não escaparam à fotografia geral. Marcou mais de 50 golos na I Divisão, números elevados se tivermos em conta que se tratava de um médio-defensivo. E apesar de ter sido nas duas épocas em que vestiu o azul e branco do FC Porto que ganhou todos os seus troféus, não esconde hoje que o seu coração é vermelho e branco, as cores do Sp. Braga que o formou e que ele defendeu em onze dos 15 anos da sua carreira de profissional.

Saído dos juniores do Sp. Braga, Barroso ainda passou uma época emprestado ao Maximinense, no distrital. Raúl Águas chamou-o depois para o plantel que ia atacar a época de 1990/91, mas não lhe deu oportunidades. E mesmo Carlos Garcia, o treinador da casa que substituiu Águas a meio da época, só olhou para ele nas últimas rondas. A 5 de Maio de 1991, a quatro jornadas do fim, o Sp. Braga era 15º e tinha os mesmos pontos que a primeira equipa abaixo da linha de água, que era o E. Amadora. O jogo seguinte era o escaldante dérbi do Minho, em Guimarães, onde era importante pelo menos pontuar. A 15 minutos do fim, com 0-0 no marcador, Garcia reforçou o meio-campo, fazendo entrar Barroso para o lugar de Santos, um avançado brasileiro. O Sp. Braga aguentou o 0-0 e Barroso entrou no panorama para o treinador. Até final da época, entrou em mais duas partidas: as vitórias caseiras contra o Penafiel (2-0) e o Boavista (5-2), ajudando os bracarenses numa grande subida na tabela, até ao sétimo lugar final.

Não espantou, por isso, que o jovem médio começasse a temporada seguinte como titular: fez pela primeira vez os 90 minutos num jogo de campeonato dois dias antes de completar 21 anos, a 24 de Agosto de 1991, e mais uma vez em Guimarães. A derrota (1-2), compensou-a uma semana depois, voltando a alinhar a tempo inteiro num empate na receção ao Sporting (1-1). No entanto, do início de Novembro até final da época, Barroso só foi titular mais três vezes e em todas os bracarenses perderam. Era a prova de que precisava de sair para ganhar rodagem e experiência. Seguiu assim por empréstimo para o Rio Ave, onde apesar de duas expulsões alinhou em todas as partidas na caminhada da equipa de Vieira Nunes até ao quinto lugar da II Divisão de Honra. O Rio Ave falhou a subida, mas Barroso voltava a Braga mais jogador. No regresso, António Oliveira não teve dúvidas e fez dele titular absoluto. Competitivamente, porém, as coisas não correram bem. Apesar dos três golos de Barroso – dois deles de penalti, entre os quais o primeiro, num 2-0 ao Famalicão, a 10 de Abril de 1994 – o Sp. Braga sofreu mais uma vez até à última jornada para evitar a despromoção. Só a derrota do Paços de Ferreira em Alvalade, a 2 de Junho, deu segurança aos minhotos, que assim acabaram em 15º lugar, dois pontos acima da linha de água.

Foi nesse Verão de 1994 que chegou ao Minho Manuel Cajuda, o treinador com o qual Barroso deu o salto qualitativo. E com ele o Sp. Braga começou a crescer também, transformando-se de aflito em candidato a lugares europeus. Fez sete golos nesse campeonato, entre os quais um ao FC Porto e um ao Sporting. E a 26 de Janeiro de 1995 mereceu a honra de ser chamado à seleção A por António Oliveira. Estreou-se substituindo Sá Pinto no último minuto de um particular com o Canadá, no Sky Dome de Toronto, que os portugueses empataram a uma bola. Não voltaria a jogar pela seleção nacional, apesar de Artur Jorge o ter convocado para uma partida na Arménia e outra contra a Alemanha, ambas a contar para a qualificação do Mundial’98, numa altura em que até já era jogador do FC Porto. Mais sete golos em 1995/96 (com a particularidade de ter marcado por mais duas vezes ao FC Porto e de nem assim a sua equipa ter pontuado) levaram-no até às Antas, onde era esperado por António Oliveira, o treinador que primeiro nele apostara de forma consistente em Braga e que lhe dera a única internacionalização. Foi com Oliveira aos comandos que se estreou também nas competições europeias, e logo com um resultado histórico: a vitória frente ao Milan em pleno Giuseppe Meazza, ainda que tenha sido ele o sacrificado para que entrasse Jardel, o homem que operou a reviravolta de 1-2 para 3-2. E a 17 de Maio, mais uma vez em Guimarães, teve a alegria de se sagrar campeão nacional: jogou os 90 minutos de uma vitória do FC Porto por 4-0 que deixavam a equipa azul e branca matematicamente ao abrigo de qualquer percalço, a três jogos do fim da competição.

As 27 presenças em jogos da Liga valeram a Barroso a continuidade no plantel azul e branco, mas a nova época já não seria tão recheada de alegrias. Passou a jogar com menos regularidade. Viu de fora a vitória sobre o Boavista (3-2), a 26 de Abril, que voltou a dar a certeza do título nacional ao FC Porto, com três partidas por disputar, o mesmo sucedendo na final da Taça de Portugal, ganha pelo FC Porto ao Sp. Braga, no Jamor, a 24 de Maio. É verdade que jogara em ambas as campanhas e que por isso mesmo pode considerar a dobradinha como sua, mas no final da temporada o FC Porto cedeu-o à Académica. Não foi feliz em Coimbra, num ano em que viveu a única despromoção da sua carreira, mas em 1999 pôde voltar a Braga, onde o igualmente regressado Manuel Cajuda esfregou as mãos de contentamento com o reforço. Barroso assumiu a liderança da equipa em campo, voltou aos números habituais, com seis golos na Liga e mais um na Taça de Portugal -ao FC Porto, em dia de eliminação – e no final da época ainda fez uma perninha no Sp. Braga B: jogou as últimas cinco partidas, com cinco vitórias, que levaram a equipa secundária dos arsenalistas do 18º e último ao 11º lugar na Zona Norte da II Divisão B, escapando assim a uma descida que parecia certa.

Não voltaria a repetir essa comissão de serviço forçado, mas outras proezas ainda o esperavam. Em 2000/01 ajudou a levar a equipa de Cajuda ao quarto lugar e em 2001/02 esteve à beira de chegar à final da Taça de Portugal: ele até marcou na meia-final, mas os bracarenses perderam de forma surpreendente com o Leixões do seu antigo colega Carlos Carvalhal, que foi a primeira equipa da II Divisão B a apurar-se para uma final. E em 2002/03, época atribulada que viu passarem três técnicos pelo comando da equipa, contribuiu com 12 golos (cinco de penalti) para a salvação bracarense. O seu total mais elevado de sempre permitiu-lhe ser o melhor marcador da equipa, tendo bisado por três vezes. Uma delas foi frente ao Sporting, numa vitória por 4-2 que começava a fazer desabar o mundo sobre a equipa de Laszlo Bölöni, logo em Setembro. Aos 33 anos, Barroso começava a pensar na retirada. Ainda fez mais duas épocas pelo Sp. Braga, ainda que não tenha conseguido, por exemplo, jogar com a camisola arsenalista na Taça UEFA: Jesualdo Ferreira deixou-o no banco nos dois jogos com o Hearts, em Setembro de 2004. Marcou pela última vez no campeonato a 7 de Março de 2005, numa vitória por 4-1 sobre o V. Setúbal no Bonfim, despedindo-se da prova a 22 de Maio do mesmo ano, substituindo Filipe Gonçalves na última meia-hora de uma derrota por 2-1 em Moreira de Cónegos. O Sp. Braga repetia o quarto lugar final e consolidava-se como equipa capaz de fazer sombra aos três grandes.

Barroso enveredou pela carreira de treinador, tendo chegado a trabalhar nas camadas jovens do Sp. Braga antes de orientar várias equipas da região, como o Vieira, o Porto d’Ave ou o Maria da Fonte.