Entrou na Europa destinado aos clubes mais poderosos do continente, mas acabou a deliciar adeptos de Atlético e Sp. Braga com o seu futebol perfumado. Ligado ao futebol português como jogador e treinador.
2016-08-25

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1945

Mario Imbelloni jogou futebol numa altura em que os argentinos tinham fama de feiticeiros. Era um extremo direito rápido e técnico, que mais tarde se moveu para posições mais interiores de forma a mascarar a perda de velocidade e aproveitar o acréscimo de experiência frente ao golo. Fez parte de uma super-equipa do San Lorenzo, que maravilhou a Península Ibérica no Inverno de 1946/47, chegou a jogar no Real Madrid, mas não atingiu aquilo que se esperava de um mago e acabou como treinador-jogador em equipas de meio da tabela da Liga portuguesa.

Membro da famosa linha avançada do San Lorenzo que tinha Pantoni, Martino e Farro, Imbelloni estreou-se na equipa principal em Maio de 1945, numa vitória por 2-1 frente ao Rosario Central. A equipa azul-grená foi campeã da argentina no ano seguinte e, em virtude do sucesso, foi convidada para uma digressão a Espanha e Portugal. Na Península Ibérica, o sucesso foi retumbante, com vitórias claras sobre várias formações espanholas e, a fechar, goleadas sobre o FC Porto (9-4) e uma seleção de jogadores portugueses (10-4). De regresso a casa, Imbelloni continuou mais dois anos no San Lorenzo, antes de baixar um degrau e assinar pelo Banfield. Foi então que optou pela Europa, onde o simples facto de ter feito parte da digressão de 1947 já lhe assegurava algum cartel: optou pelo Nice, onde jogou durante um ano antes de assinar pelo poderoso Real Madrid.

Em Madrid, porém, as dificuldades para se impor foram grandes. Havia limitação de estrangeiros e tudo o que Imbelloni conseguiu foi alinhar nas últimas cinco jornadas, antes de ser cedido ao Córdoba. De caminho marcou o seu único golo de branco, ao Atlético Madrid, num jogo da Taça do Rei. Em Córdoba jogava mais, mas a II Divisão espanhola não era bem aquilo que o argentino procurava, pelo que no início de 1952 estava em Lisboa para assinar pelo Atlético. Estreou-se a 23 de Março, num 6-1 ao Boavista, tendo participado nos últimos três jogos do campeonato. E em nenhum o Atlético perdeu, tendo empatado fora com o FC Porto (1-1) e goleado o Sp. Covilhã (5-0), acabando por fugir à despromoção que à data parecia perfeitamente possível. A 4 de Maio, em jogo da Taça de Portugal com o Juventude de Évora, fez o seu primeiro golo pelo Atlético. Mas o empate (2-2) e a ausência de Bem David, Licker e Imbelloni no jogo da segunda mão deixou os alcantarenses à mercê de uma tarde inspirada dos alentejanos, que ganharam por 5-1 e seguiram em frente na prova.

Não é claro o que se passou de seguida com o argentino. Em 1952/53 não jogou por nenhuma equipa portuguesa. Lesão? Regresso à Argentina? Impossível esclarecer. Certo é que em Outubro de 1953 estava de regresso à formação do Atlético que abriu o campeonato com um empate (1-1) no terreno do Boavista. O argentino era agora treinador-jogador e, num arranque fulminante, que viu os alcantarenses na frente da tabela à terceira jornada, fez mesmo o seu primeiro golo na Liga portuguesa a 18 de Outubro de 1953, num 6-2 ao Oriental. O sexto lugar final do Atlético deu que falar e Imbelloni capitalizou em cima disso, trocando a equipa lisboeta pelo Sp. Braga, onde assumiu a mesma dupla função de treinador e jogador. No Minho fez a melhor época em Portugal, com 10 golos no campeonato, que os arsenalistas acabaram em quinto lugar. A jogar em posições mais centrais, como interior esquerdo ou até avançado-centro, marcou aos quatro grandes: no 2-2 com o Sporting em casa, logo à primeira jornada, e no 2-5 em Lisboa, a abrir a segunda volta; na histórica vitória no terreno do Benfica (1-0) em Novembro; e ainda nas derrota por 2-1 com o FC Porto em casa e por 3-2 com o Belenenses na capital.

Finda a época, Imbelloni era um herói no Minho. A segunda época, porém, não correria bem. O argentino ainda bisou na ronda de abertura, uma derrota por 3-2 com o Benfica em casa, mas não voltaria a marcar. E a equipa ressentiu-se. Em finais de Fevereiro, com a equipa na última posição, foi afastado após um processo disciplinar que tinha como objetivo sobretudo abanar o grupo, de forma a evitar a despromoção. O Sp. Braga, contudo, acabou por ser último e descer. Imbelloni, esse, não voltaria a jogar no campeonato: despediu-se com uma derrota por 4-0 frente ao FC Porto nas Antas, a 26 de Fevereiro de 1956. Tinha apenas 31 anos e muito para dar como futebolista, pelo que de imediato houve quem se interessasse. Falou-se do Sporting, a quem o argentino terá pedido 50 contos só para assinar. Acabou por fazer três jogos amigáveis com a camisola do Sporting nesse Verão de 1956, um deles a inauguração do Estádio José Alvalade, mas oficialmente nunca foi mais do que treinador no clube. Nos juniores e em dois períodos como interino na equipa principal, em ambos conseguindo bons resultados: em Março de 1959, assumindo a equipa a duas jornadas do fim, venceu o Benfica por 2-1, dando ao FC Porto a hipótese de se sagrar campeão; em Janeiro de 1960, outra vez como interino, ganhou aos portistas por 6-1, ainda a maior goleada sportinguista no confronto com o rival das Antas.

A carreira de treinador de Imbelloni fez-se, aliás, quase sempre em Portugal. Ocupou-se da Académica em 1960/61; cedeu e voltou a calçar as chuteiras para ser treinador-jogador do Marinhense, em 1961/62, na II Divisão; e dividiu a época de 1962/63 entre o Barreirense e o Atlético, nos dois casos com fracos resultados. A polémica gerada pelo facto de não ter diploma de treinador fê-lo então voltar à Argentina, onde se sagrou campeão sul-americano de juniores à frente da primeira seleção alvi-celeste a conquistar este troféu. Foi ainda campeão da segunda divisão no Ferro Carril Oeste, antes de regressar a Portugal e a Braga em 1977. Sempre no Minho, ainda se ocupou, na I Divisão, dos bracarenses em 1977/78, do Famalicão em 1978/79 (despromovido) e do V. Guimarães em 1979/80 (demitido a seis jornadas do fim, em sexto lugar, no momento em que Pimenta Machado foi eleito presidente pela primeira vez). Sabe-se que Imbelloni ainda trabalhou na Naval e no Sporting de Luanda, na década de 80, mas pouco mais. Não há notícias da sua morte, pelo que viverá algures na Argentina, onde faz hoje 92 anos.