Médio peitudo e forte nas bolas paradas, chegou para o Portimonense, onde fez seis épocas, mas durou muito mais nos escalões secundários, até se tornar treinador em Oliveira de Azeméis.
2016-08-24

1 de 9
1977

Tião já tinha no nome aquilo que era como futebolista. Apesar de ser uma abreviatura de Sebastião, a alcunha pelo qual ficou conhecido nos campos de futebol sugere potência, força. E Tião era isso mesmo: um médio peitudo, que levava tudo à frente e batia forte na bola de pé esquerdo, a contrastar com um temperamento brincalhão e afável. Chegou a Portugal já com uma carreira atrás, em clubes menores do Brasil, em busca de uma segunda vida e a verdade é que a encontrou. O Portimonense foi o seu porto de abrigo durante seis épocas, mas Tião jogou até aos 40 anos, pendurando as chuteiras na Oliveirense, onde abraçou a carreira de treinador, tanto nas camadas jovens como à frente da equipa principal.

O chute forte e os golos que fazia de bola parada nunca levaram Tião a clubes mais fortes que o Campo Grande, no campeonato carioca, e o Guarani, no paulista. No Brasil respondia ao nome de guerra Tião Thomé, porque havia outro Sebastião na equipa. Em Portugal, onde chegou em 1977, já com 27 anos e, supunha-se, pouco para dar, ficou só Tião. O Portimonense vivia dias agitados, tinha trocado de treinador após cinco derrotas nas cinco primeiras jornadas e o novo recruta via ser-lhe exigido muito. Mário Lino, que substituíra José Augusto à frente da equipa, chamou-o assim que pôde. A 13 de Novembro, em partida da Taça de Portugal, em Elvas, fê-lo entrar à meia hora para o lugar de Manuel Fernandes e o brasileiro esteve ligado ao segundo golo de uma vitória por 2-0: foi na recarga a um forte remate dele que Sapinho sentenciou a eliminatória. Era suficiente para o treinador, que uma semana depois, a 20 de Novembro, deu a Tião um lugar de titular na equipa que perdeu por 3-1 em Coimbra com a Académica. Não saiu mais do onze, ainda fez dois golos – o primeiro ao Feirense, a 15 de Janeiro, o segundo duas semanas depois em vitória caseira, por 3-2, sobre o Sporting – mas o Portimonense acabou por descer de divisão. De nada serviram os empates na Luz com o Benfica (1-1) e em casa com o FC Porto (0-0). A derrota em Alvalade na última jornada (0-1, com golo perto do fim), conjugada com a vitória do Marítimo frente ao Varzim, atirou com os algarvios para o segundo escalão.

O rendimento de Tião levou os responsáveis do clube algarvio a querer mantê-lo na tentativa de regresso à I Divisão. E em boa hora o fizeram, porque o canhoto brasileiro contribuiu para o lugar de topo na Zona Sul e, depois, para o título de campeão nacional da categoria. Em 1979, estava de volta à divisão principal. E apesar de alguns problemas físicos, fez uma época como titular na equipa de Manuel de Oliveira, o treinador que chegou perto da passagem de ano para ocupar o lugar que António Medeiros deixara. Os dois oitavos lugares conseguidos pela equipa de Manuel de Oliveira (em 1979/80 e 1980/81) e sobretudo o sexto de 1981/82 (com Artur Jorge a substituir o técnico do Barreiro a meio da época) corresponderam ao melhor período de Tião no futebol português. Nesta última época, aquela em que teve mais produção goleadora, com quatro golos, conseguiu mesmo roubar pontos a FC Porto e Sporting com golos assinados em nome próprio: a 7 de Fevereiro de 1982 marcou de penalti o golo do empate (1-1) com os portistas, em Portimão; e a 4 de Abril repetiu a graça numa vitória (2-0) frente ao Sporting que mantinha em suspenso a corrida ao título, depois de os leões terem ganho ao Benfica uma semana antes.

À medida que os anos iam passando por ele, porém, Tião ia perdendo fulgor. A sexta época em Portimão, já com 32 anos e um treinador moderno, que privilegiava a intensidade de jogo, como era Artur Jorge, viu-o passar muito pelo banco. Finda a época, por isso, seguiu para o Estoril, onde voltava a ser comandado por António Medeiros. E tal como na experiência anterior, começou mal a época: Medeiros só lhe deu a titularidade uma vez antes de ser despedido, precisamente no jogo que lhe sentenciou a saída, uma derrota por 2-0 em Guimarães. Chegou Mário Wilson e tudo mudou para o médio brasileiro, que fez todos os minutos de Janeiro para a frente. Esteve nos empates com o FC Porto (0-0 em casa) e Benfica (1-1 na Luz) e ainda marcou um golo – outra vez de penalti, a valer o empate caseiro com o V. Guimarães (1-1), a 8 de Abril de 1984. A 12 de Maio despedia-se da I Divisão a perder por 8-0 com o FC Porto nas Antas. E, pior, a saber que a vitória do Salgueiros frente ao Boavista condenava o Estoril à descida de divisão.

TIão ainda durou muito mais nos relvados e nos pelados da II Divisão. Lutou pela subida com o Estrela da Amadora em 1985 e com o Recreio de Águeda em 1986, estando mesmo, neste caso, na Liguilha, com Varzim, Ave e U. Madeira. Depois andou ainda pela III Divisão, com o Pessegueirense, clube do distrito de Aveiro, e a Oliveirense, que ajudou a subir ao segundo escalão. Em Oliveira de Azeméis fixou residência, ficando a trabalhar para o clube depois de pendurar as chuteiras. Foi treinador de miúdos e até da equipa principal, vindo a falecer relativamente jovem e com muita experiência para partilhar.