Começou no FC Porto, onde era filho do guarda do campo, e mudou-se para o Benfica por uma questão de honra. Foi de vermelho que ganhou tudo em Portugal e chegou a capitão da seleção.
2016-08-23

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1936

Francisco Ferreira era, acima de tudo, um homem de coragem. E de caráter. Em campo, nunca deslumbrava: só usava o pé esquerdo, não era brilhante a rematar nem a driblar e não arriscava no passe longo. Mas raramente perdia um duelo, porque punha tudo em cada bola. A genica e a alma que tinha a mais que os outros fazia com que se tornasse imprescindível, tanto no Benfica como na seleção, de que foi recordista de internacionalizações por alguns anos. Saiu como capitão de ambas, aliás, no dia em que quis pôr termo à carreira e com uma taça na mão: a Taça de Portugal de 1951/52, após uma vitória por 5-4 frente ao Sporting na que muitos dizem ter sido a final mais emocionante de todos os tempos.

E no entanto, para chegar ali, também foi preciso coragem. Porque ainda Francisco Ferreira não tinha feito 20 anos e já se incompatibilizara com os dirigentes do FC Porto, o seu primeiro clube. Natural de Guimarães, o rapaz mudou-se para o Porto com apenas onze anos, quando o pai começou a trabalhar como guarda do Campo da Constituição, a casa dos azuis e brancos. Foi por isso natural que ali começasse a jogar, depois de algumas aventuras em clubes com o Tigres do Telheiro, que fundou e onde deu os primeiros pontapés. Reza a lenda que foi ali que Joszef Szabo, o húngaro que à data treinava o FC Porto, o viu dar os primeiros pontapés, desde logo ficando impressionado com as suas qualidades competitivas. Foi o austríaco François Gutkas, no entanto, quem o estreou na equipa principal: a 11 de Outubro de 1936, indiferente aos 17 anos do petiz, fá-lo alinhar como médio esquerdo numa vitória por 2-1 sobre o Boavista, correspondente à primeira jornada do campeonato regional do Porto, que os azuis e brancos haveriam de ganhar. No decurso da competição haveria de perder o lugar para Nova, o que retardaria a sua estreia na Liga nacional, que se seguia no calendário: fá-la apenas a 11 de Abril de 1937, numa vitória por 2-0 no Ameal sobre a Académica.

Até final desse campeonato, Francisco Ferreira só jogou mais uma vez, da qual não levou boas recordações: derrota por 6-0 frente ao Benfica nas Amoreiras, confirmando que os azuis e brancos estavam longe dos três maiores cubes de Lisboa na hierarquia. Tudo mudaria, porém. E depressa. A partir de Maio jogava-se o campeonato de Portugal, prova a eliminar que é antecessora da Taça de Portugal. Francisco Ferreira foi sempre titular e o FC Porto ganhou todos os jogos, incluindo duas partidas frente ao Belenenses nas meias-finais, e a final, contra o Sporting, em Coimbra, a 4 de Julho de 1937. A conquista do troféu foi uma vitória para o clube, mas também para o filho do guarda do campo, que assim se afirmava como titular. Totalista na vitória no regional com que se iniciou a época de 1937/38 – dez vitórias em dez jogos para os portistas – Ferreira só falhou quatro jogos da Liga, e manteve a importância no Campeonato de Portugal. Finda a época, foi falar com os dirigentes para lhes pedir um aumento. A resposta que ouviu nessa altura – que não estavam para aturar malandros – fê-lo tomar uma decisão: não jogaria mais pelo FC Porto. Nada o demoveu e nesse Verão mudou-se para Lisboa, conduzido por Ilídio Nogueira, um benfiquista da cidade do Porto que sabia do sucedido.

Em Setembro de 1938 já estava a estrear-se pelo Benfica, num jogo contra o Belenenses que contava para a Taça Preparação. A estreia oficial só chegaria a 20 de Novembro, numa vitória por 3-2 frente ao Sporting que não chegou para recuperar todo o atraso que a equipa levava no regional de Lisboa. A partir daí, Lipo Herzcka confiou sempre no minhoto para compor o meio-campo, tendo-o mesmo visto marcar o primeiro golo a 4 de Junho de 1939, em jogo da Taça de Portugal em que os encarnados venceram fora (ainda que no Lumiar, porque os tempos não davam para grandes viagens pelo Atlântico) o Nacional por 4-0. Francisco Ferreira, que na última jornada do campeonato fora pela primeira vez jogar à Constituição como adversário e vira in-loco o FC Porto sagrar-se campeão, fruto de um empate a três golos, ia agora voltar ao Porto para defrontar os azuis e brancos em jogo da Taça de Portugal. Jogou-se no Lima e o resultado foi catastrófico: 6-1 para o FC Porto. Uma semana depois, participaria numa das reviravoltas mais memoráveis da história do futebol nacional: nas Amoreiras, o Benfica ganhava por 6-0 a um quarto-de-hora do fim, quando os portistas abandonaram o campo. Era o Benfica quem jogava a final, contra a Académica. Só que as Salésias viram a vitória dos estudantes e Francisco Ferreira teve de esperar para conquistar o primeiro troféu com a camisola benfiquista.

Não teve de esperar muito. Foi totalista – com um golo – na vitória encarnada no campeonato de Lisboa de 1939/40. E no campeonato nacional estreou-se finalmente a marcar: aconteceu a 25 de Fevereiro de 1940, quando fechou, de penalti, uma vitória do Benfica sobre o Carcavelinhos. A equipa de Janos Biri acabou a competição num modesto quarto lugar, mas desforrou-se logo a seguir, na Taça de Portugal. Com mais um golo de Ferreira – outra vez de penalti e outra vez ao Carcavelinhos – o Benfica chegou à final e ganhou por 3-1 ao Belenenses, no Lumiar. Por essa altura já o médio minhoto era internacional. A honra da internacionalização foi-lhe dada por Cândido de Oliveira a 28 de Janeiro de 1940, em Paris, num jogo em que Portugal perdeu com a França por 3-2. A guerra na Europa ter-lhe-á roubado a possibilidade de fazer mais desafios com as cinco quinas ao peito, mas ainda assim Fernando Ferreira somou pela seleção 25 jogos em onze anos, recorde que só foi suplantado por Travaços em 1954.

O primeiro título de campeão nacional, Francisco Ferreira só o conheceria em 1942. Com ele a mandar a meio-campo, a equipa de Janos Biri assumiu a liderança em meados de Março e não a largou mais até final da prova. Francisco Ferreira fez apenas um golo nessa campanha, mas foi um golo fundamental, pois surgiu numa renhida vitória por 4-3 sobre o Sporting. Ao campeonato seguiu-se o bicampeonato, em 1942/43. E pelo meio um jogo que ainda hoje é recorde de goleada no que respeita a jogos entre Benfica e FC Porto: a 7 de Fevereiro de 1943, o Benfica ganhou ao FC Porto por 12-2 no Campo Grande e Francisco Ferreira contribuiu com um golo. A vitória na ronda seguinte, frente ao Belenenses, valeu a subida ao primeiro lugar e mais um título, porque não mais os encarnados foram alcançados. E, sendo verdade que o tricampeonato ficou a uma distância de cinco pontos, com vantagem para o Sporting, o Benfica não fechou a temporada de mãos a abanar: a 28 de Maio de 1944, Francisco Albino ergueu nas Salésias mais uma Taça de Portugal, após a vitória por 8-0 frente ao Estoril na final. Francisco Ferreira observou, talvez sabendo que em breve aquela missão lhe pertenceria: na época seguinte seria ele a substituir o veterano médio-centro como capitão de equipa.

E logo nessa primeira temporada com o minhoto aos comandos, o Benfica de Biri ficou a dois jogos de uma tripla histórica. Perdeu o campeonato de Lisboa na última jornada, uma derrota por 2-1 frente ao Sporting, no Campo Grande; ganhou o campeonato nacional com a clareza que se nota no facto de ter liderado desde a terceira ronda até ao fim; e só baqueou na Taça de Portugal ao terceiro jogo, um desempate frente ao Sporting no Lumiar. Assumindo a responsabilidade de um líder, Francisco Ferreira só falhou uma partida em toda a temporada, um 9-2 à CUF no regional. Já não fi tão constante em 1945/46 e disso se ressentiu a equipa: Francisco Ferreira magoou-se após uma vitória por 1-0 sobre o Belenenses, para o campeonato de Lisboa, em Novembro de 1945, só voltando a estar às ordens de Biri em Janeiro, à quinta jornada do campeonato nacional. Nas quatro primeiras rondas, o Benfica cedeu três empates, deixando pelo caminho pontos que viriam a fazer-lhe falta no final, quando acabou a Liga a um de distância do Belenenses. Desforrou-se no primeiro jogo após a prova, uma vitória por 3-0 precisamente sobre o Belenenses, na Taça de Portugal, no qual até marcou o primeiro golo, mas isso serviu de pouco, pois o Benfica baquearia logo a seguir, contra o Atlético.

O alto rendimento dos cinco violinos sportinguistas tornou então as coisas mais difíceis para o Benfica. Apesar da regularidade de Francisco Ferreira, os encarnados só voltaram a ganhar alguma coisa em 1949. A 12 de Junho, com o inglês Ted Smith aos comandos, o Benfica venceu a Taça de Portugal, batendo na final o Atlético por 2-1 e beneficiando da histórica derrota do Sporting logo à primeira ronda face ao Tirsense, da II Divisão. Ao erguer a taça, Francisco Ferreira não terá deixado de pensar na tragédia que ocorrera cerca de um mês antes, vitimando toda a equipa do Torino, que tinha vindo a Lisboa participar numa homenagem ao jogador português. A história começara anos antes, num jogo da seleção nacional frente à Itália, em Génova. O dono do Torino, Ferrucio Novo, encantou-se com o médio português e no final do jogo pediu para falar com ele, com a ideia de o contratar. Os dois trocaram cartões de visita e, quando em Lisboa se falou em organizar uma festa de homenagem a Francisco Ferreira, este lembrou-se de convidar o Torino, que era, por estes tempos, a melhor equipa da Europa. Convite aceite, o jogo fez-se a 3 de Maio de 1949, em Lisboa. O Benfica ganhou por 4-3 e, no final, Novo insistiu com Francisco Ferreira. Convidou-o mesmo a seguir com a equipa até Itália, para se discutir o contrato. O médio português declinou o convite e ficou depois a saber que o avião que transportava os italianos embatera com a torre da Basílica de Superga, nos arredores de Turim, matando todos os que seguiam a bordo. Francisco Ferreira doou a receita da festa de homenagem às famílias dos jogadores falecidos, um gesto que aproximou o Benfica e o Torino até aos dias de hoje.

Francisco Ferreira estava a chegar ao fim de uma carreira de muitas vitórias, ao mesmo tempo que ao Benfica estava a chegar muito sangue novo, nele encontrando a equipa o alento para voltar aos sucessos. O capitão falhou apenas três jogos na vitória no campeonato de 1949/50 – e desses o Benfica só ganhou um –, mas infelizmente magoou-se e não pôde estar presente na Taça Latina, que a equipa portuguesa ganhou na final frente ao Bordéus. Era o primeiro sucesso internacional do futebol português. Até final da carreira, ainda ergueu as Taças de Portugal de 1950/51, com 5-1 à Académica na final, e de 1951/52, os épicos 5-4 ao Sporting. Este jogo, Francisco Ferreira esteve para não o jogar. A 28 de Maio de 1952, depois de participar, com o Benfica, na inauguração do Estádio das Antas – vitória retumbante por 8-2 sobre o FC Porto – anunciou aos colegas que se retirava. Tinha feito o último jogo no campeonato frente ao FC Porto, uma vitória por 2-0 no Estádio Nacional, e acabava precisamente num jogo emblemático entre as duas equipas que tinha representado. Os colegas, no entanto, convenceram-no a acabar a época. Faltavam pelo menos dois jogos, eventualmente três. Francisco Ferreira aceitou o repto, liderando a equipa na meia-final da Taça de Portugal contra o Barreirense (1-2 no Barreiro e 5-0 no Campo Grande) e depois na final contra o Sporting. A vitória por 5-4 significou que se foi embora como a sua carreira justificava: com uma taça na mão.