O sósia de Stallone tem uma carreira à Rocky Balboa: feita de trabalho e com sucesso tardio. Sempre ligado a clubes da margem sul, como o Barreirense e o V. Setúbal, viveu o período de ouro no Belenenses.
2016-08-22

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1975

Durante muitos anos, pareceu destinado a amargar na II Divisão. Cresceu num Barreirense que já não era grande e chegou aos 30 anos com apenas 75 presenças no campeonato principal. Mas ainda foi a tempo de renascer. A experiência adquirida, a capacidade de trabalho e de sofrimento, que se refletiu na evidente mudança física – mais ombros, mais presença na baliza – fizeram de Jorge Martins mais do que o sósia de Sylvester Stalone. Fizeram dele o Rocky Balboa do futebol nacional. Graças a cinco anos sem faltar a uma única jornada de campeonato, ainda foi a um Mundial com a seleção, ganhou uma Taça de Portugal, e superou os 300 jogos na I Divisão.

E no entanto Jorge Martins foi um talento precoce. Aos 18 anos, a 11 de Junho de 1973, Carlos Silva deu-lhe os primeiros minutos de I Divisão. O Barreirense jogava a última jornada do campeonato no Restelo, contra o Belenenses e, a meia-hora do fim, com o resultado em 4-0, o treinador mandou-o ocupar o lugar de Abrantes. A estreia correu-lhe pessoalmente bem, porque não sofreu mais golos e a sua equipa ainda reduziu para 4-2, mas não teve grande continuidade: nem o brasileiro Souza Arantes nem Juca, que o substituiu no início do Inverno, deram ao rapaz um único minuto de competição em 1973/74. Foi acumulando presenças no banco, a ver Abrantes defender. E a queda do clube na II Divisão significou para ele um exílio maior do que quereria, longe dos relvados mais apetecíveis. Jorge, que na altura ainda não era conhecido também pelo apelido, assumiu a baliza do Barreirense em 1975, mas só dois anos depois, já com 23, voltou à I Divisão. E fê-lo nas redes do V. Setúbal.

No Bonfim, porém, a baliza do Vitória era do veterano Vaz. Fernando Vaz, o treinador, foi mantendo a hierarquia até Fevereiro de 1978 quando, após uma derrota no terreno do Feirense, deu as redes a Jorge. E o miúdo correspondeu, mantendo as redes em branco em cinco das 13 rondas que se seguiram e dificultando muito a tarefa a Sporting e Benfica, que com ele entre os postes só ganharam ao Vitória por 1-0. Com Silvino a aparecer por esses tempos, Jorge optou por voltar ao Barreirense, que entretanto subira à I Divisão e de onde Manuel de Oliveira o chamava. No plano pessoal, fez bem, porque fez todos os minutos do campeonato a jogar. Coletivamente, as coisas não lhe correram assim tão bem: apesar da vitória sobre o Sporting no Barreiro (1-0, em finais de Outubro de 1978), o Barreirense desceu e Jorge regressou à Zona Sul da II Divisão. As coisas, depois, correram tão mal, que a equipa experimentou uma segunda despromoção consecutiva. Dessa, porém, salvou-se o guarda-redes, que teve um convite do Benfica e deu um salto em frente na carreira.

Chegado à Luz no Verão de 1980, Jorge apanhou mais concorrência do que aquela para a qual viria preparado. Havia Bento, outro barreirense, e Botelho. Dois internacionais. Por muito que tentasse, a baliza estava-lhe vedada, só a tendo ocupado na primeira época em jogos de reservas. No segundo ano, estando Bento num plano à parte, foi alternando o banco com Botelho, acabando por sair-lhe a ele o bilhete premiado: a 28 de Março de 1982, no jogo que decidia o campeonato, em Alvalade frente ao Sporting, Bento agrediu Manuel Fernandes. Penalti e expulsão. O guarda-redes que nesse dia estava no banco era Jorge, que de imediato entrou para sofrer, de penalti, o 2-1, marcado por Jordão. O jogo acabou favorável aos leões – e Jorge largou a bola que Jordão recuperou para fazer o terceiro golo – que acabaram por ser campeões, mas Lajos Baroti manteve a confiança no guarda-redes para o jogo de suspensão do titular, fazendo-o jogar na semana seguinte, na vitória em casa frente ao Belenenses (3-1). Acabava ali a careira de Jorge no Benfica. No final da época, chegou à Luz Delgado para fazer de suplente de Bento e Jorge seguiu para Faro, onde ajudou o Farense de Hristo Mladenov a subir à I Divisão.

Aos 29 anos, a carreira do guarda-redes de Alhos Vedros parecia não arrancar. Quando voltou ao V. Setúbal, no Verão de 1983, outra vez chamado por Manuel de Oliveira, que conhecia como ninguém o talento existente na margem sul do Tejo, tinha 29 anos e não chegara aos 50 jogos na I Divisão. Mas foi aí que tudo mudou. Apesar de ter começado o campeonato como suplente de Padrão, agarrou a titularidade à segunda jornada e só a largou numa partida, um empate a três golos face ao Salgueiros, em Vidal Pinheiro. Importante no quinto lugar final dos sadinos, deixou de ser sequer discutível quem se ocuparia das redes na época seguinte. A época foi mais complicada, mas só nas últimas duas rondas, quando já não havia risco real de descida, é que Manuel de Oliveira alternou na baliza. Jorge estava agora um guarda-redes regular, daqueles que jogava sempre. A derrota frente ao Sporting, em Alvalade, a 31 de Maio de 1985 marcou a última jornada de campeonato sem ele entre os titulares da sua equipa até 2 de Dezembro de 1990, mais de cinco anos depois, quando José Romão o deixou no banco, preferindo fazer jogar Rui Correia numa deslocação a Penafiel, que o Vitória perdeu por 2-1.

Pelo meio, Jorge Martins deixou o Vitória e assinou pelo Belenenses, onde passou quatro anos e conheceu o período áureo da sua carreira. Não só porque jogou sempre, com todos os treinadores, de Melia a Marinho Peres, com passagem por Depireux e Mortimore, mas também porque chegou à seleção A. Jorge já tinha sido internacional de esperanças, em 1979, mas em 1986 pôde sonhar mais alto, quando José Torres o levou ao Mundial do México, como alternativa a Bento e Damas. Não chegou a jogar, mas soube o que era estar num Mundial. Foi ainda na baliza do Belenenses que se estreou nas competições europeias: a 16 de Setembro de 1987 perdeu em Camp Nou com o Barcelona por 2-0, voltando depois a estar no jogo da segunda mão, que os portugueses ganharam por 1-0 no Restelo. Não chegou para eliminar o colosso espanhol, mas não envergonhou ninguém. O terceiro lugar conseguido nesse campeonato permitiu aos azuis regressar em 1988/89, para uma edição da Taça UEFA da qual o Belenenses foi eliminado sem sofrer um único golo: 1-0 e 1-0 ao Leverkusen, 0-0 e 0-0 (com afastamento nos penaltis) ante o Velez Mostar.

Jorge esteve sempre na baliza, como esteve, aliás, na vitoriosa campanha azul na Taça de Portugal. Uma campanha na qual o Belenenses eliminou o FC Porto (1-0 após prolongamento, em Fevereiro de 1989) e o Sporting (3-1 em Abril), antes de ganhar ao Benfica na final (2-1 a 28 de Maio). Finda a temporada, Jorge Martins voltaria ao V. Setúbal, onde acabaria por suplantar a marca dos 300 jogos na I Divisão, graças a mais dois campeonatos nos quais falhou apenas uma jornada – a tal saída a Penafiel. Despediu-se do campeonato a 26 de Maio de 1991, um dia triste, porque ao empatar em casa (1-1) com o Estrela da Amadora, a equipa sadina viu confirmada a queda na II Divisão de Honra. Jorge Martins ainda jogou mais uma época, na tentativa frustrada de regressar ao convívio dos grandes. Aos 38 anos, retirou-se. É verdade que já acima dos 40 aceitou jogar um distrital pela Quimigal, mas ante um passado tão rico, esse episódio acaba por não ser relevante.