Guarda-redes mítico dos anos 60 e 70, brilhou mais nas balizas de Varzim e Farense, mesmo tendo sido campeão no Benfica. Jogou até aos 40 anos nos escalões inferiores.
2016-08-21

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1964

A melhor história de Benje não se passou com Benje. Foi entre Joaquim Meirim, mítico treinador de futebol nas décadas de 60 e 70, e José Luís, um espanhol que tinha chegado do Celta de Vigo para jogar no Varzim. Incomodado por não ver baliza a não ser nos treinos, o guardião galego foi pedir explicações ao treinador, ao mesmo tempo tido como um mestre da motivação. Meirim confortou-o, dizendo-lhe que a hora dele havia de chegar, porque ele era “o melhor guarda-redes da Europa”. O problema é que isso só aumentou a indignação em José Luís, que de imediato retorquiu: “se sou o melhor da Europa, por que razão não jogo?” “Porque o Benje é o melhor guarda-redes do Mundo”, disparou Meirim, que certamente já teria a resposta preparada.

Pedro Benje não foi nunca o melhor guarda-redes do Mundo, mas impunha-se pelos reflexos felinos, pela elasticidade e coragem com que se lançava aos pés dos avançados. Era um guarda-redes de engate, insuperável em tardes de fulgor, mas nem sempre foi titular indiscutível nas equipas pelas quais construiu uma longa carreira – sobretudo o Varzim e o Farense, que o acolheram depois de uma passagem de três anos pelo Benfica, onde no entanto quase só alinhou pela equipa de reservas. Benje vinha de Angola – e não era habitual verem-se guarda-redes negros no futebol português, por essa altura – onde o destaque pelo FC Luanda o encaminhou para equipa mais forte do campeonato metropolitano. À chegada, porém, Fernando Riera quase nem olhou para ele: tinha Costa Pereira no auge e ainda Rita e Barroca para qualquer eventualidade. O destino do miúdo angolano foi a equipa de reservas. As coisas não mudaram com Lajos Czeiler e só quase três anos depois de ter chegado a Lisboa é que o jovem guardião se estreou na equipa principal. Já com o título de campeão matematicamente assegurado, a 2 de Maio de 1965, Elek Schwartz confiou-lhe a camisola número 1 na receção ao Seixal. O Benfica ganhou por claríssimos 11-3 e Benje voltou a começar a partida da última jornada, em Guimarães, onde cedeu a baliza a Melo ao intervalo, com o resultado ainda em branco.

Não foi o suficiente para ficar, no entanto. Após o Verão, Benje rumou a Norte, à Póvoa de Varzim, onde integrou o plantel às ordens de José Maria Pedroto. Começou como suplente do espanhol Morales, mas a meio da época teve oportunidade de ganhar o lugar, brilhando, por exemplo, no empate (1-1) arrancado ao Benfica, em casa. Faria melhor na época seguinte, já como titular de pleno direito: a 2 de Novembro de 1966, meses depois de o ataque benfiquista ter deslumbrado no Mundial de 1966, Benje manteve-o a zero, assegurando à equipa agora liderada por José Valle um saboroso empate. Finda a temporada, com o Varzim tranquilamente a meio da tabela, Benje saiu para a Sanjoanense de Monteiro da Costa. Ali passou apenas uma época, premiada com o décimo lugar, a manutenção e a eliminação à justa na Taça de Portugal em dois jogos renhidos com o Benfica (1-2 em ambos). No final da época, Monteiro da Costa trocou a Sanjoanense pelo Varzim e levou o guarda-redes com ele. De volta à Póvoa, Benje dividiu as redes com José Luís, mas esteve nos jogos mais emblemáticos da época: os empates caseiros com FC Porto e Benfica (ambos 1-1) e a vitória frente ao Sporting (2-1).

A carreira de Benje deu depois um salto, quando ao Varzim chegou Joaquim Meirim. O treinador que punha os guarda-redes e os avançados a treinar com remates imaginários – e conta-se que num deles Benje não se mexeu, argumentando depois que a “bola imaginária” tinha passado ao lado – apostou tudo no guardião angolano. Benje só falhou um jogo em toda a época – a derrota por 3-0 frente ao Boavista, na Taça de Portugal – mas não fez todos os minutos do campeonato. A 14 de Dezembro de 1969, saiu lesionado a 15 minutos do fim de uma vitória por 1-0 frente ao FC Porto, nas Antas, um jogo no qual o treinador não incluíra o seu nome na ficha de jogo. Sabendo que a utilização do seu guarda-redes estava posta em dúvida, por causa de um problema num joelho, fez a ficha de jogo com apenas dez nomes. Quando Elek Schwartz – ainda por cima o treinador que tinha lançado Benje no Benfica – quis saber quem era o décimo-primeiro, teve como resposta que ia jogar um guarda-redes dos juniores, chamado Neto. Ora Neto era o apelido de Benje, que fez uma enorme exibição enquanto teve condições para tal. Esse Varzim, que falhou o acesso às competições europeias apenas na última jornada (derrota por 1-0 frente ao Benfica, na Luz), mas que ainda assim acabou o campeonato à frente de grandes como o FC Porto ou Belenenses, conseguiu ainda empatar os dois jogos com o Sporting, que viria a ganhar o campeonato.

A história da conversa de Meirim com José Luís viria a ter um fundo de verdade. O treinador saiu da Póvoa para o Belenenses e ao Varzim chegou Rodrigues Dias, que começou a época com José Luís na baliza. A hora do galego chegara mesmo. Pouco utilizado nesse campeonato – que acabou com a descida do Varzim à II Divisão – Benje seguiu para o Farense, onde no entanto Manuel de Oliveira também não optou por ele como primeira escolha. Tapado, primeiro por Rodrigues Pereira e depois por Rui Paulino, só assumiu a titularidade à terceira época, em 1973/74, com Carlos Silva. A chave do sucesso foi, mais uma vez, um jogo com o Benfica, que os algarvios empataram a zero, a 7 de Outubro de 1973. Os grandes jogos com os grandes repetiam-se, de resto. Em Setembro de 1975, com Pedro Gomes aos comandos e Benje na baliza, o Farense ganhou no São Luís ao FC Porto (1-0). Só que a inconstância do angolano nessa época de 1975/76 acabou com a perda da baliza e com a despromoção do Farense. Foi aí que soou o apelo de Meirim: o treinador que mais o marcara estava agora no Leixões e resgatou o guarda-redes. O epílogo da temporada – com demissão de Meirim e substituição por João Mota em inícios de Dezembro – não foi o melhor, porque o Leixões acabou por descer de divisão, mas de caminho Benje assinou mais duas balizas virgens contra os grandes: 0-0 com o FC Porto, no Estádio do Mar, em Setembro de 1976, e com o Sporting em Alvalade, em Fevereiro de 1977.

Benje despediu-se das balizas de I Divisão a 8 de Maio de 1977, já com 34 anos, numa derrota em Guimarães (0-2) que deixava o Leixões em penúltimo lugar da tabela, a três jornadas do fim. Já foi Lúcio a defender nas últimas semanas, mas sem que a equipa melhorasse a posição. Benje não ficou em Matosinhos, mas o seu caminho também foi o da II Divisão. Passou duas épocas no Estrela de Portalegre, onde chegou a ser treinador-jogador, sempre a lutar pela subida, seguindo depois para Lamego, onde jogou no terceiro escalão. Em 1980, com 38 anos, regressou ao Algarve, para fazer parte do plantel que Manuel de Oliveira formou no Portimonense. Não jogou um minuto, mas entre campeonato e Taça de Portugal ainda foi 20 vezes para o banco, sendo que ao longo da época se encarregou ainda de dirigir a equipa de juniores. O futebol ativo estava a acabar para ele. Benje ainda passou um ano como treinador-jogador no Silves, na III Divisão, antes de se dedicar apenas a treinar. Foi duas vezes campeão distrital como treinador do Imortal e do Ginásio de Tavira, nunca deixando o emprego de fiscal na Câmara Municipal de Faro. Os filhos, Marco e Túlio, chegaram a conseguir algum destaque no futebol distrital algarvio, mas como avançados.