Polivalente, foi capitão do FC Porto durante seis anos, os anos em que o clube saiu das trevas que o marcaram entre as décadas de 40 e 70. E ainda se fez treinador.
2016-08-20

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1949

Um de seis irmãos, António Monteiro da Costa cresceu destinado ao seminário e a ser padre. Não aconteceria assim. O futebol era a sua verdadeira vocação, como veio a provar durante mais de uma década com as cores do FC Porto. Foi capitão de equipa durante seis anos, depois de suceder na tarefa a Barrigana, símbolo do clube e é, ainda hoje, um dos portistas que mais golos fez ao Benfica: dez. E atenção que o golo não era tudo para ele. Chegou ao FC Porto para ser goleador, mas a sua disciplina tática e o empenho que punha no labor defensivo levou a que, ao longo de uma carreira em que chegou a ser muitas vezes utilizado como defesa-central, se tivesse transformado num médio de vastos recursos.

Após dois danos no Sp. Espinho e um na Oliveirense, sempre nos escalões secundários, Monteiro da Costa – nada a ver com o presidente portista do início do século a não ser o apelido – chegou ao FC Porto no Verão de 1949, com 21 anos acabados de fazer. Estreia-se pela mão de Augusto Silva, o treinador que anos antes dera o título de campeão nacional ao Belenenses, a 9 de Outubro de 1949, na Constituição, com uma vitória por 1-0 contra O Elvas. Não seria um jogo emblemático para essa época. Primeiro, porque o FC Porto ganhou – e a temporada que serviu de estreia a Monteiro da Costa foi dura no plano dos resultados, com 12 derrotas em 26 jornadas e apenas cinco pontos de avanço sobre a linha de água. Depois, no plano pessoal, porque o jovem avançado não marcou – e ele acabou por sagrar-se melhor marcador portista, com 18 golos em 26 partidas de campeonato, entre as posições de avançado-centro ou interior. O primeiro – e o segundo, e o terceiro, que fez logo um hat-trick – fê-lo à terceira jornada, a 23 de Outubro. O FC Porto ganhou então por 8-2 a um Lusitano de Vila Real de Santo António onde nessa tarde faltou aquele que viria a ser parceiro de meio-campo predileto de Monteiro da Costa: Pedroto.

Na primeira época de azul e branco, Monteiro da Costa não fez aquilo que acabaria por se tornar uma especialidade sua: golos ao Benfica. Em contrapartida, marcou em ambos os jogos contra o Sporting, pertencendo-lhe mesmo o golo da vitória (2-1) a 6 de Novembro, na Constituição. O seu primeiro golo ao Benfica teve de esperar até Outubro de 1950, quando até bisou na goleada (5-2) que a equipa orientada pelo romeno Anton Vogel impôs ao então campeão nacional. Repetiria a proeza no jogo da segunda volta, assinando ambos os golos da vitória azul e branca (2-0) sobre o Benfica no Campo Grande, já com o húngaro Gencsi Deszo como treinador. Outra vez totalista e melhor marcador da equipa – aos 16 golos no campeonato somou mais quatro na Taça de Portugal – Monteiro da Costa era já um nome incontornável na atualidade do FC Porto. Na verdade, desde que se estreou, em Outubro de 1949, passou mais de dois anos sem faltar a um minuto de jogo oficial: a sua primeira ausência sucedeu apenas a 4 de Novembro de 1951, quando o FC Porto foi ganhar ao Estoril por 2-1 e foi Vital quem alinhou no centro do ataque.

Mesmo não sendo já o melhor marcador da equipa – essa honra pertenceu ao extremo-esquerdo Vieira – Monteiro da Costa ainda fez doze golos no campeonato e oito na Taça de Portugal à terceira época de azul e branco. A chegada de António Teixeira de Guimarães, porém, fê-lo sair do centro do ataque e aparecer entre as posições de interior e até extremo, vindo naturalmente a marcar menos golos. Ganhava a equipa, que já tinha Hernâni a carburar, Pedroto a mandar no meio-campo e as Antas onde jogar. E o próprio Monteiro da Costa chegou à seleção nacional: a 23 de Novembro de 1952, Cândido de Oliveira deu-lhe a primeira de quatro internacionalizações, na primeira vez que a equipa nacional jogou nas Antas. A ocasião foi um empate a uma bola com a Áustria e Monteiro da Costa entrou a meia-hora do fim para o lugar do benfiquista José Águas. Meses depois, como que a fazer prova do seu renascimento competitivo, a equipa portista, onde o mesmo Cândido de Oliveira substituíra Lino Taioli, qualificou-se para a final da Taça de Portugal. Monteiro da Costa obteve seis golos na caminhada – a juntar a sete no campeonato – mas na final não fez o gosto ao pé e o FC Porto baqueou por 5-0 ante um Benfica claramente mais forte.

Só duas épocas depois, com a disciplina de Yustrich a mandar no balneário e Monteiro da Costa ao lado de Pedroto a meio-campo, é que o FC Porto voltaria às grandes decisões. E dessa vez para as ganhar. Ele fez apenas um golo no campeonato – nuns 5-1 ao Sp. Covilhã, em Janeiro – mas os azuis e brancos voltaram a ganhar o campeonato nacional, impondo-se ao Benfica por diferença de golos. A Taça de Portugal trouxe a dobradinha, com vitória na final ante o Torreense (2-0) e Monteiro da Costa a alinhar em todos os jogos. A sua inteligência tática era agora celebrada, bem como a sua capacidade para impedir os adversários de chegar à baliza portista. Estava um jogador diferente, mais maduro. E fazia valer o estatuto. A 6 de Janeiro de 1957 foi pela primeira vez expulso. O juiz scalabitano Paulo Oliveira mandou-o para o duche antes de acabar a primeira parte de um clássico contra o Benfica, nas Antas, por causa de um soco em Coluna. “Não admito que me insultem. Não sou nenhum catraio para o admitir”, disse depois, com o peito cheio pela vitória clara dos portistas (3-0) e pela liderança, agora isolada, no campeonato. Só que Monteiro da Costa apanhou três jogos de castigo, período durante o qual o FC Porto do brasileiro Flávio Costa perdeu com o Sporting em Alvalade e permitiu que o Benfica recolasse. No final, os encarnados foram campeões e nem a Taça de Portugal salvou a honra portista: foram eliminados pelo Sp. Covilhã, equipa que acabara de descer de divisão.

Para trás ficava a estreia portista na Taça dos Campeões Europeus. A 20 de Setembro de 1956, foi Monteiro da Costa o primeiro capitão do FC Porto na competição, na ocasião para uma derrota em casa com os espanhóis do Athletic Bilbau (1-2). Este era, já, no entanto, um FC Porto muito diferente do que o agora médio de São Paio de Oleiros tinha encontrado à chegada. Em 1957/58, os azuis e brancos acabaram o campeonato com os mesmos pontos do Sporting, sendo batidos na corrida ao título apenas pela diferença de golos. Ou porque na primeira vez que Monteiro da Costa faltou ao regressado Yustrich, a quatro jornadas do fim, a equipa portista perdeu por 3-2 em Braga. Pontos fatais, esses… O capitão andava a contas com um abcesso, que fistulou e o impediu até de estar presente na final da Taça de Portugal. Aí, contudo, mesmo sem a sua dupla de médios – Pedroto também estava magoado – os azuis e brancos impuseram-se por 1-0 ao Benfica, graças a um golo de Hernâni. Era já Otto Bumbel quem estava no banco portista nessa tarde de 15 de Junho de 1958. E o FC Porto arrancava ali para mais um título de campeão, o famoso campeonato de Calabote, ganho por um golo ao Benfica graças a uma vitória por 3-0 em Torres Vedras. Monteiro da Costa, que nesse campeonato só não esteve na primeira jornada – empate a três bolas com o V. Setúbal nas Antas – viria a perder a hipótese de nova dobradinha com a derrota por 1-0 na final da Taça de Portugal, contra o Benfica.

Remetido a papéis cada vez mais defensivos, o capitão fez no ano desse segundo título de campeão o seu último golo no campeonato. Foi a 1 de Fevereiro de 1959, quando bisou nos retumbantes 10-0 ao Caldas. Ainda marcaria nessa edição da Taça de Portugal, nos 9-0 aos moçambicanos do Ferroviário. Entre 1959 e 1961 ainda foi indiscutível para a resma de treinadores que passou pelas Antas após a deserção de Bela Guttmann, que alegou que se dava mal com a humidade no Norte para se comprometer com o Benfica, logo após a final da Taça de Portugal perdida. No campeonato de 1961/62, porém, perdeu o lugar a meio-campo para António Paula, jogador mais defensivo. O FC Porto voltava a entrar num período de trevas do qual só sairia com Pedroto, em finais da década de 70. Antes disso, Monteiro da Costa – que foi dispensado pelo treinador húngaro Janos Kalmar no Verão de 1962 – vestiu pela última vez a camisola portista a 15 de Outubro de 1961, num empate a zero frente ao Leixões.

Fez-se treinador, não só no FC Porto, que comandou na qualidade de interino na ponta final das épocas de 1974/75 e 1975/76, como também na Sanjoanense, no Salgueiros ou no Paços de Ferreira. Morreu jovem, antes de fazer 60 anos, com a noção de que era um nome incontornável na história do seu clube do coração mas já sem o ver tornar-se vencedor na Europa e no Mundo.