O curso de direito levou-o à Académica, onde já entrou com 24 anos. Ainda foi a tempo de jogar duas finais da Taça de Portugal e de acabar uma Liga em segundo lugar.
2016-08-19

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1964

Fez parte da grande Académica da década de 60 um jogador que ali viveu uma espécie de segunda vida no futebol. Natural de Alcobaça, Marques andou quatro épocas pelo Ginásio local, na III Divisão, até se deixar de futebóis e rumar a Angola. Ali foi matar o bichinho no Benfica de Benguela e, no regresso ao continente, fez-se estudante de direito e jogador da Académica. Começava verdadeiramente aos 24 anos uma carreira de futebolista que até final só conheceu a camisola da Briosa e que o próprio eternizou em livro fotobiográfico: “Marquês: Histórias de um Percurso” fazia alusão à alcunha pela qual era conhecido e foi lançado em 2010.

Marques estreou-se pela mão de José Maria Pedroto, a 1 de Março de 1964, por indisponibilidade de Rui Rodrigues. A ocasião era a receção ao FC Porto e mais do que a derrota por 1-2, a qualidade do titular da posição levou a que ele não voltasse a alinhar nessa primeira temporada. Mas Marques soube esperar a sua vez e no início da temporada seguinte, com Mário Wilson aos comandos da equipa, já estava entre os titulares. Totalista até finais de Fevereiro de 1965, quando falhou o primeiro jogo – curiosamente nova receção ao FC Porto, desta vez saldada com derrota por 4-1 – teve o seu contributo no excelente quatro lugar dos estudantes. Participou ativamente, por exemplo, no empate em casa frente ao Benfica (2-2, em Novembro), na vitória frente ao FC Porto nas Antas (2-1, no mesmo mês) e nos dois sucessos frente ao Sporting (4-2 em Alvalade em Janeiro e 3-0 em Coimbra, em Maio). E o destaque que assumiu na equipa valeu-lhe a convocatória para a seleção de “promessas”, uma espécie de antecessora da equipa de sub-21, mas ainda sem limites de idade.

Uma lesão grave, no início de Janeiro de 1966, impediu-o de continuar dar o seu contributo à equipa até final de uma temporada que acaba com a Académica em quarto lugar. Só regressa em Novembro, ainda muito a tempo de ajudar ao fantástico segundo lugar de 1966/67 e de ser fulcral na chegada à final da Taça de Portugal. Nessa campanha fez mesmo o único golo da carreira: a 2 de Julho de 1967, foi nele que começou a recuperação da Académica nas meias-finais da Taça de Portugal, frente ao Sp. Braga. Marques fez o 1-1, num jogo que os estudantes ganharam por 4-1, o que motivou brincadeiras entre os colegas: “Já mandaste um postal à tua mãe a dizer que marcaste um golo?”, diziam-lhe. É que a mãe estava sempre à espera do autocarro da Académica sempre que este passava em Alcobaça. Marques esteve depois entre os escolhidos de Mário Wilson para jogar a final da Taça de Potugal contra o V. Setúbal. A derrota num épico prolongamento que levou o tempo de jogo aos 144 minutos (3-2) não permitiu que o troféu seguisse para Coimbra.

Marques estava na plenitude dos seus recursos e beneficiava da confiança total de Mário Wilson: em 1967/68 fez a totalidade dos minutos nos 32 jogos oficiais da Académica, alcançando um meritório quarto lugar na tabela da Liga e caindo da Taça de Portugal nos oitavos-de-final, outra vez contra o V. Setúbal. O comportamento na Liga valeu a estreia europeia. E Marques lá estava também, a 2 de Outubro de 1968, na derrota por 1-0 em Lyon. Já não esteve na segunda mão, que os estudantes ganharam pelo mesmo resultado, acabando por ser eliminados por moeda ao ar, como não estaria em boa parte da temporada, fruto de nova lesão graves, contraída em Tomar, em Novembro. Mário Wilson seria substituído uma semana depois pelo guarda-redes Maló e Marques só voltou a estar apto em Maio, na Taça de Portugal. Aí voltou a ir até à final, ganhando de caminho duas vezes ao Sporting nas meias-finais: 2-1 em Lisboa e 1-0 em Coimbra. Na decisão, porém, a taça voltou a não sorrir aos de Coimbra, batidos pelo Benfica (1-2), após prolongamento que só um golo de Simões, a cinco minutos do fim, pôde forçar.

Aos 30 anos, Marques entrou nessa altura na curva descendente da carreira. O total de presenças na equipa principal disso se ressentiu. Em 1969/70, além de seis jogos no campeonato, alinhou mais duas vezes na Taça de Portugal e outras duas na Taça das Taças, na eliminação à justa frente ao Manchester City (0-0 em Coimbra e 1-0, após prolongamento, em Inglaterra). Em 1970/71 só fez um jogo, na Taça de Portugal, ainda por cima com eliminação à primeira, frente ao mais modesto GD Sesimbra. E em 1971/72, após mais oito jogos – seis na Liga e dois na ronda europeia frente ao Wolverhampton – pôs termo à carreira. Despediu-se a 19 de Dezembro de 1971, com uma derrota por 3-0 na Luz, contra o Benfica, num jogo em que Ismael Baltazar lhe mostrou o único cartão amarelo de toda a sua carreira na Académica. A Briosa seguia em penúltimo lugar, mas ainda com tempo para evitar a despromoção. Não viria a consegui-lo, acabando por cair na II Divisão. Marques, porém, acabava ali para o futebol e já não esteve no regresso ao escalão principal. Já em inícios do século XXI, chegou a ser presidente do Núcleo de Veteranos da Académica.