Jogador combativo e de uma disponibilidade física extraordinária, fez com Chalana uma ala esquerda que ajudou o Benfica a ganhar muitos títulos. E foi sempre senhor do seu nariz, como se viu depois de Saltillo
2016-01-03

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1980

Não era dado a grandes primores técnicos, mas tinha aquela caraterística inata dos grandes competidores que o fazia ir até ao fim em cada bola, nunca a dar como perdida e acabar por ganhá-la. Lateral de uma disponibilidade física impressionante, Álvaro formou com Chalana uma das melhores asas esquerdas do futebol português, porque tapava bem defensivamente e criava constantes situações de dois para um no ataque. Foi sempre senhor do seu nariz, razão que o levou a furar a greve decretada pelos colegas à seleção nacional na sequência do caso-Saltillo, e ainda hoje não é bem visto por muitos em função disso, mas um mérito ninguém lhe tira: ajudou muito o Benfica na década de 80, a última em que partilhou a hegemonia do futebol nacional no século passado.

Álvaro, porém, não precisou do Benfica para ser campeão nacional. O primeiro título ganhou-o ainda nos juvenis, com a camisola vermelha dos Cracks de Lamego. Após essa vitória sobre o V. Setúbal, na final do campeonato de 1978, disputada em Tomar, o miúdo de Cambres que nessa altura jogava como extremo-direito começava a ver recompensado o esforço que teve de fazer para convencer os pais a deixá-lo jogar futebol de forma organizada. E findo o campeonato, com 17 anos, assinou pela Académica, maior potência desportiva da zona centro do país, para onde seguiu com Henrique e Martinho, dois companheiros da aventura lamecense. Dos três, foi o primeiro a ser chamado à equipa principal por Juca, que o levou para o banco na última jornada, um empate em casa (2-2) com o V. Guimarães, a 17 de Junho de 1979. A descida de divisão, de qualquer modo, já estava consumada e o que importava era preparar a época seguinte. E nesta, já com Pedro Gomes aos comandos, Álvaro arranca como titular na vitória frente ao Caldas, por 4-1, a 9 de Setembro… a médio direito. O primeiro golo marcou-o a 14 de Outubro, nos 3-2 com que os estudantes bateram o Oliveira do Bairro, mas o jogo acabou por ser anulado por protesto da equipa derrotada.

Álvaro acabou a época como futebolista mais utilizado da Académica (37 jogos, entre Taça de Portugal e campeonato, e dois golos) e festeja a subida de divisão com uma vitória frente aos Nazarenos, na última jornada. Já ninguém lhe retirava o estatuto de titular, que manteve depois, na I Divisão, com Francisco Andrade a dirigir a equipa: estreou-se no campeonato a empatar a zero no Restelo, com o Belenenses, a 23 de Agosto de 1980. Só que a Académica não descolava do fundo da tabela. À oitava jornada, com a Académica em penúltimo lugar e curiosamente após a primeira vitória da época, Andrade é despromovido a adjunto para dar lugar ao regresso de Mário Wilson. E com Wilson, tudo mudou para Álvaro, que depois de mais dois jogos a meio-campo é adaptado a lateral-esquerdo na recção ao FC Porto, a 22 de Novembro. Joga bem, a Académica empata a zero e o lamecense acaba por se fixar a lateral. A ponto de, finda a temporada, e apesar do último lugar da Académica na tabela – sentenciando nova descida de divisão – ser recrutado pelo Benfica, que acabara de ser campeão nacional.

À chegada à Luz, a entrada na equipa titular do húngaro Lajos Baroti não se afigurava fácil. Havia Veloso e Pietra, havia Bastos Lopes, que podia jogar à direita, face à presença de Humberto Coelho, Frederico e Laranjeira. Muitos internacionais, em suma. Convocado pela primeira vez em Setembro, à quarta jornada, numa vitória na Luz frente ao V. Guimarães, Álvaro não saiu do banco. Teve, ainda assim, uma estreia de fogo: a 1 de Novembro, sem Pietra e Humberto, Baroti chama o miúdo para ser titular como lateral-esquerdo no dérbi frente ao Sporting, na Luz. O jogo acaba empatado a uma bola, mas Álvaro sai-se bem e mantém a titularidade até se magoar, em Portimão, no final de Janeiro. Antes disso já tinha chegado à seleção, convocado por Juca – o mesmo que o tinha levado pela primeira vez para o banco da Académica – para um particular contra a Bulgária, a 16 de Dezembro de 1981. Portugal perdeu por 5-2 e o jovem benfiquista substituiu Lima Pereira a 15 minutos do fim, somando a primeira de 20 internacionalizações que o levariam a um Europeu e um Mundial.

Álvaro acabou a primeira época no Benfica com 12 jogos no campeonato (mais três na Taça de Portugal, dois na Supertaça contra o FC Porto e um na Taça dos Campeões, a ditar a eliminação, em Munique, frente ao Bayern) e a certeza de que tem muito para dar à equipa. O campeão, no entanto, foi o Sporting, o que levou à troca de treinador na Luz. Chegou o sueco Sven-Goran Eriksson e a mudança de paradigma permitiu a Álvaro um crescimento incrível como futebolista. Voltou a começar a época como alternativa, mas em Fevereiro assumiu-se como titular de uma forma definitiva, ainda participando em 16 jogos na conquista do título de campeão nacional, em três na vitória na Taça de Portugal (incluindo a final, ganha ao FC Porto, por 1-0) e em seis na caminhada até à final da Taça UEFA, que os encarnados perderam contra o Anderlecht. Era a primeira das suas duas finais europeias, todas perdidas.

A titularidade em todos os jogos oficiais que o Benfica fez em 1983/84, época da conquista do bicampeonato, e o facto de ter descoberto que podia marcar golos – nessa época fez três, o primeiro dos quais na Taça de Portugal, frente ao Chaves, no último dia do ano – levou a que Fernando Cabrita o tenha convocado para a fase final do Europeu de 1984, mesmo não tendo ele participado em nenhum dos jogos de qualificação. Titular da seleção pela primeira vez no jogo de aquecimento frente ao Luxemburgo, a 9 de Junho, não perdeu um minuto sequer da participação lusitana no Europeu de França, no qual mostrou a todo o continente que era o complemento ideal para o futebol de Chalana. Só que o brilho levou o “Pequeno Genial” a sair para Bordéus e, também sem Eriksson, que também deixara a Luz, o Benfica sofreu. Álvaro manteve o estatuto de titular com Pal Csernai, mas não demorou a ter atritos com o novo treinador, que o acusou de ser “o pai da derrota” em Belgrado, contra o Estrela Vermelha, num jogo da primeira eliminatória da Taça dos Campeões Europeus em que os encarnados deixaram o adversário recuperar de 0-2 para 3-2. Foi uma época difícil, ainda assim culminada com uma vitória por 3-1 sobre o FC Porto na final da Taça de Portugal, no tal jogo em que se diz que os jogadores se substituíram ao treinador na tarefa de fazer o onze.

Tudo voltou à normalidade depois, com o regresso de Mortimore. O Benfica falhou o título nacional, porque perdeu as últimas duas partidas – uma delas na Luz, contra o Sporting, quando já se preparava a festa – mas ganhou a Taça de Portugal, batendo de caminho os leões por 5-0, num jogo em que Álvaro fez um golo. Convocado por José Torres para o Mundial, mesmo só tendo participado num dos jogos de qualificação, Álvaro voltou a ser titular no México, mas como lateral-direito, relegando para o banco o portista João Pinto. Ali se viu envolvido nas confusões do caso-Saltillo, com ameaça de greve dos jogadores face às condições de trabalho e à falta de retribuição vinda dos contratos publicitários feitos pela FPF. Portugal foi eliminado sem honra nem glória logo na fase de grupos, houve jogadores suspensos na sequência dos incidentes e a manifestação de indisponibilidade de todos os convocados para voltarem a representar a seleção. Com Ruy Seabra no papel de selecionador e Juca como treinador de campo, Portugal enfrentou a qualificação para o Europeu de 1988 apenas com segundas escolhas, até que Álvaro furou a greve e se mostrou outra vez disponível: voltou à seleção em Fevereiro de 1987, num particular com a Bélgica, sete meses antes de todos os outros o fazerem, mas já não foi a tempo de impedir a eliminação da equipa nacional da fase final do Europeu da Alemanha.

Nessa época de 1986/87, ainda com Mortimore, o Benfica voltou a ser campeão, apesar da humilhação que foram os 7-1 encaixados em Alvalade contra o Sporting. E somou ao título nacional mais uma Taça de Portugal, ganha na final ao Sporting, sempre com Álvaro em campo. O lamecense, aliás, foi o segundo jogador mais utilizado do Benfica, falhando apenas duas partidas das 44 que os encarnados fizeram durante toda a época. E entrou, por isso, como titular na equipa de Ebbe Skovdahl, o dinamarquês em que o presidente João Santos apostou em 1987 para tentar repetir o efeito-Eriksson. As coisas, contudo, não correram bem. Skovdhal foi substituído por Toni em Dezembro, após um empate caseiro com o Farense que deixava os encarnados a cinco pontos do FC Porto. A Liga já não se recompôs para o Benfica, que ainda assim conseguiu chegar à final da Taça dos Campeões Europeus, perdida para o PSV Eindhoven no desempate por grandes penalidades – Álvaro jogou mas não foi chamado a nenhuma das conversões.

Por essa altura, já o lateral tinha feito o seu último jogo na seleção nacional – uma vitória por 1-0 frente ao Luxemburgo, a 16 de Novembro de 1988. E no Benfica começava a faltar-lhe continuidade. Ainda fez 11 jogos na equipa campeã nacional de 1988/89, com Toni, mas já não jogou a final da Taça de Portugal dessa época, perdida para o Belenenses com Fonseca na lateral esquerda. E acabou por ser com o regresso de Eriksson, em 1989/90, que se confrontou com a necessidade de mudar de ares, pois fez apenas dois jogos em toda a época: despediu-se da Luz na última jornada do campeonato, a 20 de Maio de 1990, jogando os 90 minutos de uma vitória por 1-0 frente ao Belenenses que os encarnados enfrentaram sem alguns titulares, pois faltavam apenas três dias para nova final da Taça dos Campeões. E no Verão assinou pelo Estrela da Amadora que tinha acabado de ganhar a Taça de Portugal. Ainda participou na aventura europeia da equipa dos subúrbios de Lisboa, jogou a Supertaça – perdida para o FC Porto apesar da vitória na Reboleira, na primeira mão – mas não evitou a despromoção. Despediu-se da Liga a 12 de Maio de 1991, aos 30 anos, como lateral direito, num empate a zero frente ao U. Madeira. Ainda jogou durante mais suas épocas no Leixões, na II Liga, acabando por enveredar por uma carreira de treinador que o levou ao banco de vários clubes, incluindo experiências na Roménia e em Angola, além de outra como adjunto no Benfica.