Fez carreira na Académica, passou por Chaves, mas foi no regresso ao FC Porto, como estabilizador de balneário, que se sagrou campeão nacional. Uma alegria que voltaria a conhecer como adjunto de Jaime Pacheco no Boavista.
2016-08-17

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1983

Nunca foi homem de causar ondas e isso criou-lhe reputação dentro dos balneários, primeiro como guarda-redes sólido ou como bom suplente, depois como treinador-adjunto, homem de mão do treinador. Conseguiu ser campeão nacional nas duas vertentes: duas vezes como alternativa a Vítor Baía, no FC Porto de Bobby Robson; uma como treinador-adjunto do Boavista de Jaime Pacheco, o chefe de equipa que seguiu durante dez anos por todo o Mundo até sucumbir a um cancro, ainda muito jovem.

A escola das balizas, Nóvoa fê-la no FC Porto, alinhando ao lado de algumas futuras glórias azuis e brancas nos juniores, no final da década de 70. Chegou mesmo a ser internacional da categoria e a motivar o interesse de Herman Stessl, o treinador que sucedeu a Pedroto após o Verão Quente de 1980. Stessl tinha Fonseca, Tibi e Zé Beto, mais velho três anos que Vítor Nóvoa, mas mesmo assim chamou o miúdo de Esposende para ser suplente de Tibi em três jogos dessa temporada. O primeiro foi uma deslocação ao Funchal, onde o FC Porto ganhou por 1-0 ao Marítimo, a 21 de Dezembro de 1980. Foi uma espécie de prenda de Natal antecipada, mas que acabou por não ter correspondência na temporada seguinte: Stessl achou que o melhor para o jovem guardião era rodar e ele seguiu para o Salgueiros, da II Divisão. Vítor Nóvoa participou pouco na campanha que levou a equipa de Vidal Pinheiro ao segundo lugar da Zona Norte – o titular era Barradas – e já não estava sequer na Liguilha, que se jogou no início da temporada seguinte, já ele tinha baixado mais um patamar, para jogar no Vila Real, do terceiro escalão.

Foi em Trás-os-Montes que a Académica foi buscá-lo. Vasco Gervásio, o treinador que acabaria por devolver os estudantes à I Divisão, faz dele alternativa a Marrafa, só o estreando na Taça de Portugal, em Novembro. A eliminação aos pés do Barreirense, em dois jogos (1-1 no Barreiro e 1-2 em Coimbra, no desempate) significou o regresso de Nóvoa ao banco até finais de Abril. Com a subida garantida, foi ele quem defendeu em duas das três últimas jornadas. Da mesma forma que foi ele quem esteve no torneio de definição do campeão, com Belenenses e Vizela, vencedores das zonas sul e norte, respetivamente. E foi ele quem começou a temporada seguinte na baliza da equipa já orientada por Jesualdo Ferreira: a 25 de Agosto de 1984, aos 22 anos, estreou-se na I Divisão com uma retumbante vitória em Penafiel, por 3-0. A questão é que os estudantes perderam os três jogos seguintes e, em finais de Setembro, Jesualdo voltou a chamar Marrafa. Ele próprio viria a ser demitido, mas à parte os jogos da Taça de Portugal – na qual a Académica chegou aos oitavos-de-final – Vítor Manuel, que assumiu o banco, só voltou a chamar Nóvoa à titularidade nas últimas três jornadas do campeonato. Com três vitórias para a Académica, que contribuíram bastante para o excelente sétimo lugar final.

Nóvoa tornou-se então, por pleno direito, o guarda-redes de Vítor Manuel. Foi opção principal no décimo lugar de 1985/86 e no nono de 1986/87, manteve-se entre os postes após o afastamento do treinador, em Março de 1988, após um empate em casa com O Elvas que deixava a equipa em 14º lugar. Era ele quem estava na baliza no momento do golo do brasileiro Raudinei, que deu ao FC Porto a vitória por 1-0 em Coimbra, a 11 minutos do fim do penúltimo jogo. Minutos depois, o Sp. Braga (de Vítor Manuel…) marcava em Guimarães o golo do empate (1-1) e atirava a Académica para a II Divisão. Uma descida que nem o atribulado caso N’Dinga, jogador que os de Coimbra alegavam que o V. Guimarães tinha inscrito mal, conseguiu reverter. Nóvoa passou, assim, os dois anos que se seguiram na II Divisão. Como a subida demorava, em 1990 seguiu precisamente para Guimarães. Ali, porém, não foi feliz: após meio ano na sombra de Jesus, assinou pelo Chaves de José Romão. De regresso a Trás-os-Montes, entrou na equipa à 25ª jornada e já não saiu até final, sendo parte muito ativa na recuperação do 19º para o oitavo lugar final. Passaria, ainda assim, a época seguinte no banco, a ver Rui Correia defender. E quando voltou a assumir a titularidade, em 1992, foi para uma época complicada, na qual nem duas chicotadas psicológicas evitaram a despromoção dos flavienses.

Aos 31 anos, com o regresso à II Divisão no horizonte, Vítor Nóvoa viu abrirem-se-lhe as portas da casa que o vira nascer: o FC Porto. Nas Antas estava Baía, titular da seleção nacional, pelo que não lhe deve ter passado muitas vezes pela cabeça lutar pela titularidade. Cabia-lhe o ainda assim importante papel de manter o titular ligado à corrente, de lhe dar luta para o forçar a aplicar-se. Na primeira época, com Ivic e depois Robson, não chegou a jogar sequer na Taça de Portugal, que os azuis e brancos ganharam, salvando a temporada. Na segunda, já com o campeonato ganho, o técnico inglês deu-lhe finalmente a hipótese de jogar com a camisola portista: foi a 21 de Maio de 1995, na penúltima jornada, uma vitória do FC Porto frente ao Salgueiros em Vidal Pinheiro (2-1). Entrou nos últimos dez minutos para o lugar de Baía, mas foi o suficiente para se sagrar também campeão. Jogou mais um pouco na terceira época, a do bicampeonato. Robson tinha cinco guarda-redes à disposição – além dele, havia Baía, Silvino, Jorge Silva e o sueco Eriksson – mas ainda encontrou forma de o colocar duas vezes em campo: substituiu Silvino logo aos cinco minutos de uma derrota por 2-1 com o Benfica na Luz e foi titular em novo desaire, desta vez em casa, contra o V. Guimarães (2-3).

Esse jogo, a 28 de Abril de 1996, numa altura em que a equipa portista já era matematicamente campeã, foi mesmo a sua despedida oficial dos relvados. Nóvoa ainda passou um ano como suplente de Neno no V. Guimarães de Jaime Pacheco, mas o que mais tirou da experiência foi a amizade com o treinador, que depois o convidou para integrar a equipa técnica que formou no Boavista. Ali, voltaria a ser campeão nacional, em 2000/01, desta vez como treinador adjunto, ganhando lastro para seguir o chefe por vários clubes, como o Mallorca, o V. Guimarães, o Belenenses ou o Al-Shabab, da Arábia Saudita. Não foi para o Guoan, de Pequim, porque nessa altura, em 2011, lutava já contra o cancro que acabaria por matá-lo, em Coimbra, aos 48 anos.