Apesar dos muitos golos que marcava, jogou por menos de uma década com a camisola do Belenenses. Mas serviu o clube por toda a vida.
2016-08-13

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1936

Perfeito terá sido um bom extremo-direito. A média de golos por jogo que marcou com a camisola do Belenenses na Liga nas décadas de 30 e 40 não deixa mentir. Mas não se destacou em nenhum plano como no do amor ao clube que serviu sempre, primeiro como jogador, depois como dirigente e sócio de mérito. Apontado como exemplo de dedicação a uma causa, esteve na conquista de uma Taça de Portugal em cada uma das suas áreas de ação, mas fica na história sobretudo por uma frase: “Eu seria incapaz de jogar por outro clube, porque nesse caso não sentiria a camisola como sinto a do Belenenses”. Essa foi a história da sua vida e da sua carreira de jogador, que deixou aos 28 anos, quando deixou de ser opção no clube.

A história da ligação de Perfeito ao clube da cruz de Cristo começou muito jovem, mas à equipa principal só chegou em finais de 1934. Utilizado esporadicamente no campeonato de Lisboa que se jogou nesse ano, ainda demorou mais de um ano a jogar no Nacional: a estreia fê-la a 12 de Janeiro de 1936, lançado por Cândido de Oliveira no empate a uma bola no terreno do Boavista com que os azuis abriram a competição. Uma semana depois, a 19 de Janeiro, marcava o primeiro golo, a fechar uma vitória por 3-1 sobre o Benfica. Seriam sete nesse campeonato, com destaque para um hat-trick à Académica, na última jornada, a mostrar a boa forma com que entraria na prova a eliminar com que se encerrava a época, o Campeonato de Portugal. Aí, com mais três golos (dois ao Leixões na primeira eliminatória e um ao FC Porto na segunda) ajudou a equipa das Salésias a chegar à final, marcando presença na derrota frente ao Sporting, por 3-1.

Naqueles primeiros tempos, Perfeito foi mantendo a importância na equipa: em 1936/37 voltou a falhar apenas uma partida, a derrota frente à Académica que foi uma das duas que os azuis concederam na caminhada até ao segundo lugar final na Liga. Dos oito golos que obteve, o destaque foi para o bis nos 3-2 ao Sporting, no Campo Grande, vingando a derrota na final do Campeonato de Portugal anterior. Perfeito somou-lhes mais quatro golos no Campeonato de Portugal desse ano, incluindo um hat-trick ao V. Setúbal, mas desta vez os azuis não passaram das meias-finais, eliminados pelo FC Porto. O extremo foi então perdendo importância no coletivo, em simultâneo com a substituição de Cândido de Oliveira por Augusto Silva no comando da equipa: em 1938/39 nem marcou no campeonato, fazendo o seu único golo em competições nacionais na eliminação da Taça de Portugal, aos pés do Sporting, nos quartos-de-final (derrota por 1-3).

Tudo mudou, no entanto, com a chegada de Alejandro Scopelli. O mago argentino, que veio para jogar como interior-direito e acabou a ocupar a dupla missão de jogador e treinador, gostava de ter Perfeito ali, perto dele, e este fez nesse ano a melhor época da carreira: totalista no campeonato, acabou-o como melhor marcador da equipa, com 16 golos, aos quais somou mais quatro na caminhada até nova final da Taça de Portugal, incluindo um no desempate da meia-final, ganha ao FC Porto por 2-0, em Coimbra. Na final, porém, nova desilusão azul: o Benfica impôs-se por 3-1 no Campo do Lumiar. O regresso de Scopelli à América do Sul, para jogar no Universidad de Chile, implicou nova perda de protagonismo para Perfeito: em 1941, os azuis voltaram à final da Taça de Portugal – e voltaram a perder o jogo com o Sporting – mas nessa caminhada Perfeito nem chegou a jogar. O mesmo lhe sucedeu em 1942, quando a equipa então comandada por Rodolfo Faroleiro ganhou pela primeira vez a taça, à terceira final consecutiva. Perfeito festejou o sucesso frente ao V. Guimarães, mas apenas como adepto sofredor dos azuis, porque na verdade não chegou a jogar na campanha que ali conduziu. Despedira-se, sem o saber, a 1 de Março de 1942, numa derrota por 2-1 frente ao Benfica, no campeonato, uma semana depois de ter marcado, nos 5-2 ao Carcavelinhos, o seu último golo na competição.

Viria a ganhar a Taça de Portugal como diretor do departamento de futebol, tarefa na qual acompanhou a equipa dirigida por Otto Glória na final ganha ao Atlético, em 1960. E notabilizou-se ainda como poeta, tendo publicado vários poemas consagrados ao seu amor pelo Belenenses no livro “Uma Outra Face”, editado em meados da década de 80.