Impôs-se como fino estratega no meio-campo do primeiro FC Porto de Pedroto e viria a falecer em campo, oito anos depois, como capitão de equipa. Marcou uma geração.
2016-08-12

1 de 5
1965

A morte de Pavão marcou uma geração. Caiu de bruços no relvado das Antas, ao minuto 13 do jogo da 13ª jornada do campeonato de 1973/74, depois de fazer um passe para Oliveira que os mais místicos viram como uma passagem de testemunho. Em circunstâncias nunca verdadeiramente esclarecidas, nem pelo relatório da Polícia Judiciária que se seguiu à tragédia, Pavão tombou com o emblema do seu FC Porto ao peito e ostentando a braçadeira de capitão, lançando a comoção nos presentes naquele jogo com o V. Setúbal, que no entanto só se aperceberam da dimensão dos acontecimentos após o apito final do árbitro. Perdia-se um médio impulsivo e sobretudo intuitivo, um estratega que o FC Porto chegara a negar ao Manchester United. Ter-se-á ganho a consciência de que a medicina desportiva precisava de dar um gigantesco passo em frente. Fraco consolo para quem tanto sonhos teria.

Transportado de imediato ao Hospital de São João, onde foi submetido a tratamento através de eletro-choques, Pavão faleceu antes do final da partida nas Antas. Ao intervalo, quem sabe se para sossegar o público, pela instalação sonora do estádio foi dito que estava “a melhorar”. Não estava. A notícia foi transmitida pela rádio e propagou-se dos que tinham transístor para os restantes, que já desconfiavam do epílogo ao verem a comoção no relvado: José Maria Pedroto, adversário por um dia, saiu em lágrimas, chegou mesmo a sentir-se mal depois de consolar Bela Guttmann, o técnico húngaro que por esses tempos comandava o FC Porto. A fama de Guttmann, alimentada até por histórias antigas – a mulher de Costa Pereira, guarda-redes que o húngaro orientara no Benfica, acusara-o de dar ao marido comprimidos que lhe provocavam alucinações e insónias – levou a que muito se falasse da relevância dos estimulantes na tragédia de Pavão. A autópsia nunca foi tornada pública. E nem o relatório da Polícia Judiciária, revelado dez meses depois, lançou grande luz sobre o assunto: só veio dizer que era impossível atribuir a morte do ídolo portista a substâncias dopantes, dando a entender que ela se deveu a “doença súbita”.

Para trás ficava uma carreira que só não chegou a ser brilhante devido à falta de títulos coletivos, que por aqueles tempos o FC Porto não vivia período de grande fulgor. Nascido em Chaves, era o quinto de sete filhos de Adelaide e Amadeu, um sargento do exército que sempre quis que ele se dedicasse aos estudos. Reprovado no exame de admissão ao liceu, depois de fazer a quarta classe, porém, o rapaz não se deu bem no primeiro emprego que o pai lhe arranjou logo nessa tenra idade: o seu temperamento explosivo fez com que se intrometesse numa discussão entre um colega e uma cliente em termos que o patrão julgou serem excessivos e acabou despedido quatro dias depois de ter entrado. Pôde então dedicar-se mais tempo ao que verdadeiramente lhe interessava, que eram os jogos de futebol entre miúdos, no Campo do Rio ou no Tabolado, por aqueles tempos ainda um terreno baldio onde ganhou a alcunha de “Pavão”, ao que se diz porque fintava de braços abertos. Ali, Fernando era dos melhores. E aprimorou ainda mais as suas capacidades quando António Feliciano, antiga glória do Belenenses que naquela altura treinava o Chaves, resolveu fundar uma escola para jovens aspirantes a futebolistas.

Rapidamente Pavão se transformou numa coqueluche dos que viam os rapazes jogar. E eram muitos, pois os jogos caseiros dos seniores eram geralmente antecedidos de partidas de exibição dos miúdos de Feliciano. O FC Porto foi vê-lo e quis levá-lo. O Benfica também e chegou a chamá-lo para uma semana de provas em Lisboa. No fim, levaram a melhor os azuis e brancos e, em 1964, Pavão transferiu-se para a coletividade portuense. Passou um ano nos juniores, sendo mesmo chamado para a seleção nacional que foi jogar o Europeu da categoria na Alemanha, mas depressa Flávio Costa, o treinador brasileiro que se ocupava da equipa principal, o chamou a mais elevadas responsabilidades. A estreia, Pavão fê-la logo num jogo de perfil elevado: a 25 de Setembro de 1965, aos 19 anos, surgiu como médio-centro na equipa que recebeu e venceu o Benfica, nas Antas, por 2-0. Foi um dos melhores e manteve-se na equipa, participando na vitória sobre o Stade de France (1-0), que em inícios de Outubro valeu aos azuis e brancos a passagem à segunda eliminatória da Taça das Cidades com Feira. Em finais desse mês, porém, ao que se diz porque o jogador estava a reagir mal aos elogios que começou a ouvir e ler, deixando-se deslumbrar, Flávio Costa tirou-o do onze.

Só no final dessa primeira época, quando Virgílio Mendes já substituíra o treinador brasileiro, é que Pavão voltou de forma consolidada a ser titular. A 1 de Maio de 1966, na jornada de encerramento do campeonato que o FC Porto terminou em terceiro lugar, fez mesmo o seu primeiro golo, abrindo com um remate de longe a contagem num 2-0 com que a sua equipa ganhou em casa ao Beira Mar. Tudo mudaria para o jovem transmontano, de qualquer modo, com a contratação de José Maria Pedroto. O novo treinador viu imediatamente que ali havia grande potencial e fez dele pedra base do FC Porto que queria construir naquela sua primeira passagem pelo comando do futebol do clube. Pavão fixou-se então como titular e só uma lesão sofrida na Luz, contra o Benfica, em finais de Novembro, lhe limitou o total de presenças nesse campeonato, o único dos que fez no qual não chegou a marcar um golo. Esse golo que lhe faltou no campeonato fê-lo em Setembro, ao Bordéus, numa vitória por 2-1 na primeira mão da primeira eliminatória da Taça das Cidades com Feira, tendo os portistas acabado por ser eliminados em França, por moeda ao ar, no seguimento de uma derrota pelo mesmo resultado.

Apesar do crescimento competitivo e das mentalidades com Pedroto aos comandos, o FC Porto continuava a ser terceiro classificado na Liga. Em 1967/68, foi graças a um golo de Pavão, na última jornada (2-1 ao V. Setúbal no Bonfim) que essa posição foi assegurada, face aos avanços da Académica de Mário Wilson, que nesse mesmo dia ganhou ao Leixões em Matosinhos. O primeiro troféu coletivo de Pavão chegou pouco depois, com a vitória na Taça de Portugal. Além de ter sido considerado o melhor em campo na final, ganha por 2-1 ao V. Setúbal, Pavão contribuíra com três golos na caminhada até ao Jamor, nas vitórias sobre o Beira Mar, o Belenenses e o Benfica (3-0 nas meias-finais nas Antas, depois de um empate a duas bolas na Luz). Daí que em finais de Junho de 1968 José Maria Antunes o tenha convocado para a seleção nacional que ia defrontar o Brasil, num jogo particular que serviu de inauguração ao então Estádio Oliveira Salazar, em Lourenço Marques (hoje o Estádio da Machava, em Maputo). Titular num meio-campo com Pedras e Coluna, apesar da derrota portuguesa (0-2), Pavão fez o suficiente para continuar na seleção, da qual se despediu, sem o saber, em Maio de 1973, meses antes de morrer.

O segundo lugar no campeonato de 1968/69 foi um passo em frente no rendimento do FC Porto, mas a forma como acabou a época, com a demissão de Pedroto por parte da direção, na sequência dos desentendimentos com alguns jogadores consagrados, significou um gigantesco passo atrás. No Verão de 1969 chegou ao Porto Elek Schwartz, ex-treinador do Benfica, para comandar o que se queria fosse o passo final no ataque ao título de campeão nacional. Pavão tornou-se o mais jovem capitão de equipa da história do clube e deu início a um longuíssimo período de utilização ininterrupta – não falhou um jogo de campeonato entre 2 de Fevereiro de 1969 e 20 de Maio de 1973 – mas a equipa entrou em falência desportiva que o nono lugar nesse primeiro ano pós-Pedroto exemplifica na perfeição. Em dois desses anos do auge de Pavão, o FC Porto conheceu quatro treinadores. O médio, mago do passe, com uma intuição e uma visão de jogo ímpares, não chegava para fazer brilhar o coletivo, mas crescia na admiração de quem o via. Por esses tempos, o Manchester United, quem sabe se por iniciativa de Tommy Docherty, treinador inglês que foi um dos muitos a ser queimado na fogueira das Antas, perguntou por ele. Queria levá-lo para OLd Trafford. Só que os dirigentes portistas não se fizeram rogados: queriam cinco mil contos pelo passe, preço proibitivo para aqueles tempos. E Pavão foi ficando.

Até ao fatídico minuto 13, da jornada 13, do campeonato de 1973/74. Pavão marcara a 21 de Outubro de 1973, de penalti, o seu último golo, nuns 3-0 ao Beira Mar. O FC Porto de Guttmann seguia em quinto lugar, a cinco pontos do V. Setúbal de Pedroto, surpreendente líder da tabela, que visitava as Antas num jogo de enorme cartaz. Os azuis e brancos ganharam por 2-0, mas Pavão não chegou a ter conhecimento disso. Faleceu nessa tarde, deitando por terra o sonho de ter o pub na Praça Velasquez, no qual investira todas as suas poupanças, e deixando a viúva com 17 bilhetes que se comprometera a comprar para o Fundo que servia para financiar a aquisição de Teofilo Cubillas. Nunca chegaram a jogar juntos e a afirmação nacional e internacional do FC Porto ainda demorou mais uns anos.