Lateral sólido, com quase 300 jogos na I Divisão ao serviço de Penafiel, V. Setúbal e Belenenses, deu ao país um filho campeão europeu.
2016-08-08

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1979

Nunca chegou tao longe como o seu percurso nas camadas jovens faria prever, mas Artur ainda foi um dos mais sólidos defesas laterais da sua geração, somando quase 300 jogos na I Divisão, entre o Penafiel, o V. Setúbal e o Belenenses. O futebol deu-lhe muito e ele, em contrapartida, também deu dois filhos ao futebol. Os tempos são outros e tanto José como Rui usam o nome de família – Fonte – que Artur deixou sempre nos documentos de identificação. Os rebentos partilharam com o pai a formação no Sporting e a incapacidade de chegar à equipa principal leonina, mas um deles, José, acaba mesmo assim de se sagrar campeão europeu com a seleção nacional à qual o pai nunca chegou.

E no entanto, esteve à porta. Lisboeta e leão, o jovem Artur começou a jogar pelo Sporting nos iniciados. Era um lateral fiável e por isso chegou à seleção de juniores que se qualificou para o Mundial de 1979, no Japão. Foi com a camisola 11 e tendo como parceiros jogadores como Quim, Zé Beto ou Diamantino, que jogou as últimas quatro das 20 partidas que fez pela equipa nacional naquela categoria. Por essa altura já representava o Vila Real, clube transmontano que lhe deu acolhimento à entrada nos seniores, por falta de espaço no plantel do Sporting. No fim dessa época, porém, chegou à I Divisão, contratado pelo Penafiel. Luís Miguel deu-lhe a estreia, a 23 de Agosto de 1980, numa vitória em casa frente ao Marítimo que foi também a primeira partida do clube na I Divisão, mas sacrificou-o após a derrota em Braga, à segunda ronda. E só com a entrada de António Oliveira, que assumiu as funções de treinador-jogador depois de sair do FC Porto, é que Artur se assumiu como titular. Até final da temporada falhou apenas dois jogos no 10º lugar final dos penafidelenses, tendo participado nos dois empates com o FC Porto (2-2 nas Antas e 0-0 em Penafiel) e na divisão de pontos com o Benfica (0-0 em casa). Além disso, ainda fez um golo, a 15 de Março de 1981, numa vitória por 2-0 sobre o Amora no ainda pelado Estádio 25 de Abril, tendo sido um dos poupados na derrota surpresa frente aos amadores alentejanos do Cabeça Gorda, na Taça de Portugal.

Oliveira era jogador a mais para o Penafiel e seguiu no final da época para o Sporting, mas Artur já estava firmado como titular da equipa e resistiu a todas as mudanças de treinador que culminaram com um 13º lugar e a posterior despromoção, na Liguilha. Em toda a temporada, Artur falhou apenas uma partida – a derrota com o Benfica na Luz, por 1-0 – tendo voltado a fazer um golo, desta vez a resolver uma eliminatória da Taça de Portugal com a Académica, em Coimbra: aproveitou um passe de Ferreira da Costa para marcar o 1-0 já no prolongamento, sendo esse o primeiro passo da caminhada do Penafiel até aos quartos-de-final. A descida do Penafiel levou o lateral lisboeta a regressar ao sul, mas o ano no V. Setúbal de Manuel de Oliveira não correspondeu às expectativas: uma lesão grave nas Antas, em meados de Outubro de 1982, arrumou-o a um canto para o resto da época, na qual a partir daí foi Cerdeira quem se ocupou da lateral esquerda.

O Penafiel, entretanto, regressara à I Divisão. Fernando Tomé, treinador de Setúbal, levou Artur de volta ao clube onde tinha sido mais feliz e, depois de dois jogos no banco, deu-lhe a titularidade na visita ao Bonfim, a 11 de Setembro de 1983. O Penafiel perdeu pesado – foram 5-0 – mas Artur agarrou o lugar e não voltou a perder um minuto de competição até à ultima jornada dessa Liga, quando se lesionou em Guimarães. Nessa tarde, a derrota frente ao Vitória, somada ao sucesso do Salgueiros frente ao Boavista, condenou o Penafiel a mais uma Liguilha. Desta vez, porém, a equipa duriense saiu-se bem e conquistou a permanência. Artur, esse, voltou a sair, assinando desta vez pelo Belenenses, que acabara de ganhar a Zona Sul da II Divisão e de regressar ao convívio dos grandes.

No Restelo, com um nível de exigência superior, terá feito os melhores anos da sua carreira. Jimmy Melia deu-lhe a titularidade na esquerda da defesa da equipa que acabou esse campeonato em sexto lugar, tendo na época seguinte o belga Henri Depireux mantido confiança nele. Nessa segunda época, voltou a marcar um golo – de livre, a 23 de Fevereiro de 1986, num empate caseiro com o Boavista – e esteve nos onzes que empataram as duas partidas com o Sporting. Mais importante, só faltou a um dos oito jogos que levaram os azuis a jogar a final da Taça de Portugal, tendo até feito um golo, num remate de longe, nos 4-0 ao V. Setúbal, nos 1/16 de final. No dia das decisões, a 27 de Abril de 1986, no Jamor, Artur esteve entre os escolhidos do treinador belga, mas golos de Nunes e Rui Águas deram o troféu ao Benfica (2-0). Os jogos com os grandes não eram a especialidade das equipas de Artur, que só ganhou a primeira vez a um deles em Setembro de 1986, quando o seu Belenenses se impôs ao Sporting no Restelo, por 2-0. Nessa época, o seu velho conhecido António Oliveira ainda o convocou para um particular da seleção olímpica, com a Itália, mas quem jogou na lateral esquerda foi Cerqueira, lateral emprestado pelo FC Porto ao Chaves. E a meio da época de 1987/88, Marinho Peres acabou por sacrificá-lo, remetendo-o para o banco para dar a lateral esquerda a Zé Mário, que até aí vinha jogando um pouco mais à frente. Artur ainda fez um golo nesse terceiro lugar do Belenenses, numa vitória por 4-1 sobre o Farense, a 30 de Abril de 1988, mas no final da época estava de volta a Penafiel.

Ali, com José Romão aos comandos, foi um dos mais regulares na equipa que escapou à descida no duro campeonato a 20 participantes. Em mais quatro épocas no Penafiel quase chegou aos 300 jogos na I Divisão, escalão do qual se despediu a 16 de Maio de 1992, aos 32 anos, com uma derrota por 2-1 frente ao Beira Mar, em Aveiro, que implicou a despromoção dos durienses. Artur ainda jogou no Valpaços e no Atlético da Malveira antes de pendurar as chuteiras e de se concentrar na carreira dos filhos. Quando voltou a Lisboa, José, seis anos mais velho que Rui, entrou nos iniciados do Sporting, para emular o percurso do pai. Rui havia de segui-lo.