Figura maior do FC Porto dos anos 90, só falhou quando decidiu deixar as Antas. Infeliz em Tenerife, regressou por amor à camisola azul-e-branca, mas já sem a glória de outros tempos.
2016-01-02

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1988

A história de Domingos está bem refletida naquele momento do Verão de 1999 em que decidiu voltar para trás na auto-estrada, invertendo o rumo a uma viagem para Lisboa que deveria culminar com a assinatura de um contrato com o Sporting. A paixão do avançado leceiro era o FC Porto, que já servira antes de emigrar para Espanha e onde tinha sido sete vezes campeão nacional, e por isso não foi capaz de dizer “não” a Pinto da Costa, que nesse momento lhe propôs um regresso a casa. Mas Domingos mostrava mais do que o amor ao clube. Mostrava a falta de espírito aventureiro que lhe tem cerceado a carreira de treinador. O regresso a casa, nesse dia de 1999, impediu-o de voltar a ser campeão nacional em nome da fidelidade às cores que o tinham visto crescer como futebolista e às quais deixou inclusive um filho: Gonçalo Paciência, já internacional sub21 e esperança dos adeptos portistas.

Ao contrário do filho, Domingos não tinha físico de ponta-de-lança: como adulto, só chegou aos 174 centímetros, possivelmente fruto de uma infância vivida com dificuldades próprias de uma família com muitas bocas para alimentar e um pai prematuramente reformado por causa de uma queda num andaime. Quando despontou como infantil, na Académica de Leça, numa equipa onde também jogava Vítor Baía, seria ainda mais franzino, mas nem isso levou os olheiros do FC Porto a menosprezar-lhe as capacidades de goleador: Jorge Vieira viu-o jogar e assegurou que ali estava material de que se fazem os craques. Domingos chegou às Antas com 13 anos e por lá ficou até que, no último ano de júnior, Tomislav Ivic viu nele o suficiente para lhe dar estreia na equipa principal. Titular em Moura, num jogo da Taça de Portugal que o FC Porto ganhou por 2-0, a 21 de Novembro de 1987, estreou-se na Liga a 13 de Abril do ano seguinte, entrando a 26’ do fim, para o lugar de Raudnei, num jogo com o Elvas. Nesse dia ainda foi a tempo de fazer um golo nos 4-0 finais. A primeira camisola de titular estava à vista: conquistou-a a 1 de Maio, nos 5-1 fora ao Salgueiros, resultado que deixou o FC Porto a dois pontos do título, quando faltavam seis jornadas para o fim do campeonato. Viveu a festa em campo, a 7 de Maio, num empate a zero em Penafiel. E, mesmo não jogando a final da Taça de Portugal, ganha ao V. Guimarães, pôde celebrar a dobradinha na primeira época de convívio com o futebol profissional.

A troca de Ivic por Quinito – “a equipa é Gomes e mais dez” – não permitiu o acelerar da entrada de Domingos na equipa titular do FC Porto. Mas o novo treinador não durou muito e já foi com Alfredo Murça no banco, na qualidade de interino até à chegada de Artur Jorge, que Domingos assinou o primeiro golo europeu. Marcou-o ao PSV Eindhoven, depois de substituir Inácio ao intervalo de um jogo que os dragões ganharam por um insuficiente 2-0 (tinham perdido por cinco na Holanda). Já com Artur Jorge, Domingos fez a 26 de Fevereiro o primeiro hat trick (nuns 5-0 ao Farense), importante na decisão de Juca lhe dar a primeira internacionalização, a 29 de Março, quando entrou a 14 minutos do final de um 6-0 a Angola, em vez de Pacheco. Campeão em 1989/90 com pouca utilização, só começou verdadeiramente a impor-se na equipa titular na época que se seguiu: suplente de Kostadinov e Paille nas duas primeiras jornadas, fez um golo nos 3-1 ao Boavista na terceira, depois de substituir Semedo, e resolveu em nome próprio a difícil visita ao Restelo, marcando o golo solitário no 1-0 ao Belenenses. A partir daí, foi um ver-se-te-avias, fruto de um entendimento perfeito com Kostadinov no ataque: Domingos assinou quatro bis (um deles ao Benfica, na Taça de Portugal, a caminho da final ganha ao Beira Mar), um hat-trick ao V. Setúbal e um póquer ao V. Guimarães a 26 de Maio. O FC Porto perdeu a Liga por dois pontos, mas ganhou a Taça de Portugal, com 3-1 após prolongamento ao Beira Mar (e um golo de Domingos).

O leceiro acabou a época com 31 golos, 24 deles na Liga, um novo máximo pessoal, que o deixou a apenas um golo de Rui Águas, numa decisão polémica, pois os responsáveis do FC Porto não concordavam com a atribuição de um golo a Semedo num jogo frente ao Beira Mar. A verdade é que foi Águas quer recebeu o troféu e, depois de mais um segundo lugar em 1994/95 (com 19 golos, contra 21 do marroquino Hassan), Domingos viria mesmo a ganhar o troféu de melhor marcador da Liga em 1995/96, após uma época notável, em que fez mesmo 25 golos no campeonato. Mas já lá vamos, que antes disso ainda apareceram os títulos nacionais de 1992 e 1993, com Carlos Alberto Silva aos comandos, mas sem grande destaque de Domingos, que no entanto renasceu com o regresso de Ivic às Antas, em 1993. O Restelo voltou a ser o marco: assumiu a titularidade na equipa à oitava jornada, com um bis frente ao Belenenses (2-0), e passou depois a somar golos decisivos, em vitórias por 1-0 frente ao Feyenoord nas Antas (garantindo a entrada na fase de grupos da Champions) e ao Sporting em Alvalade, no jogo que celebrizou a expressão “massacre de futebol defensivo” de Ivic. Coletivamente a época esteve perto do fiasco total, algo só impedido pela vitória na finalíssima da Taça de Portugal, frente ao Sporting, já com Bobby Robson aos comandos.

O inglês deu nova vida ao futebol de Domingos, que contribuiu com 19 golos para o título de campeão nacional de 1995 (o primeiro do penta) e lhes somou mais alguns remates decisivos nas duas finalíssimas da Supertaça que jogou nessa temporada (uma delas ainda relativa à época anterior), ambas ganhas ao Benfica. E o melhor estava para vir. Com Robson doente e Inácio no banco, o leceiro assinou um arranque estrondoso de 1995/96, com dois bis ao Sporting numa semana. Começou por virar o jogo de abertura do campeonato (de 0-1 para 2-1), nas Antas, e depois fez mais dois no empate (2-2) para a Supertaça, que haveria de conduzir a equipa a mais uma finalíssima em Paris. Foi assinando bis uns atrás dos outros a caminho do bicampeonato: foram oito ao todo numa época que terminou com 31 golos, 25 dos quais na Liga. Apesar dos seis golos que fez na qualificação para o Europeu, contudo, Oliveira nunca lhe deu a titularidade na fase final, utilizando-o como suplente em três partidas – com mais um golo, à Croácia. Ainda assim, não foi a chegada de Oliveira às Antas, para treinar o FC Porto, no rescaldo do Europeu, que afetou o estatuto de Domingos. O leceiro marcou nas primeiras duas partidas da época, assegurando de caminho mais uma Supertaça (1-0 ao Benfica). Mas uma rotura de ligamentos sofrida ao serviço da seleção forçou-o a quatro meses de paragem e fê-lo perder o comboio da titularidade, no qual se montou um certo Mário Jardel.

Domingos voltou para ser tricampeão, mas percebeu que o seu espaço na equipa estava muito comprometido e acabou por aceitar um convite do Tenerife para jogar na Liga espanhola. Chorou à partida, mas alegrava-o a perspetiva do desafio e o facto de o FC Porto ter encaixado quase um milhão e meio de contos (sete milhões e meio de euros) com a sua transferência. Em Espanha, porém, nunca foi feliz. Suplente de Kodro e Makaay, só em Janeiro fez o primeiro golo, acabando a época com apenas cinco e vendo o Tenerife escapar por pouco à despromoção. A segunda temporada haveria de ser pior, com apenas um golo no ativo e a descida à II Liga espanhola. O regresso a Portugal estava decidido e Domingos esteve quase para o fazer via-Alvalade, de onde lhe acenavam com um contrato chorudo. Mas quando estava a caminho de Lisboa para conversar, recebeu uma chamada de Pinto da Costa, a dizer-lhe que seria bem-vindo ao FC Porto, escaldado por ter perdido o espanhol Toñito para os rivais de Alvalade. Indiferente a isso, Domingos inverteu a marcha, mas não voltaria a conhecer a glória de ser campeão. Fernando Santos deu-lhe a titularidade no primeiro jogo da época, a Supertaça contra o Beira Mar, e ele respondeu com um golo na vitória por 2-1. Ainda começou a segunda mão, mas saiu ao intervalo e foi mais uma vez Jardel quem assumiu o protagonismo. O leceiro fez quase toda a época como suplente utilizado, ainda conseguiu um bis, ao Rio Ave, mas o que mais se destacou foi o vermelho em Alvalade, já no banco, depois de ter sido substituído, no jogo que o Sporting ganhou por 2-0 e que ditou a cambalhota definitiva na classificação da Liga que os leões viriam a ganhar.

Domingos ainda jogou um minuto na finalíssima da Taça de Portugal ganha pelo FC Porto em 2000, mas mesmo sem Jardel – que saiu para o Galatasaray – foi o brasileiro Pena quem mais vezes alinhou no ataque portista. A época de saída foi discreta. Despediu-se da tarefa de goleador com mais um bis, desta vez ao Desp. Aves, a 22 de Abril, num jogo em que só entrou a 22’ do fim para o lugar de Secretário. Uma semana depois foi titular pela última vez, nas Antas, nos 3-2 ao Sp. Braga. Ainda fez a festa de mais uma Taça de Portugal ganha, mas não jogou a final, acabando por se retirar no final da época. Começava logo ali, como adjunto na equipa B do FC Porto, uma carreira de treinador que já o levou longe, mas que com um pouco mais do espírito de sacrifício que fez dele um avançado invulgar podia tê-lo conduzido a mais troféus: liderou a U. Leiria e a Académica, antes de levar o Sp. Braga a uma final da Liga Europa e de dirigir o Sporting. Sem espírito de emigrante, desistiu depois prematuramente das aventuras no Deportivo da Corunha, no Kayserispor e no Apoel Nicosia, intercaladas com uma experiência no V. Setúbal. Fica a ideia de que pode dar muito mais, mas quem sabe não esteja apenas à espera da oportunidade certa.