Capitão do Belenenses na melhor fase da sua história, culminando com o título de campeão nacional de 1946, Amaro terá sido o primeiro médio português com autênticas noções de espaço. Isso fazia dele um médio de exceção.
2016-08-07

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1935

Dele se diz que foi o primeiro futebolista português moderno, pela forma como compreendeu o jogo. Os seus passes diagonais, do lado direito do meio-campo para as costas do defesa-direito adversário, a solicitar a corrida do extremo-esquerdo, ficaram célebres e marcaram uma nova forma de atacar, que se tornou imagem de marca do Belenenses dos anos 40. A acrescer a isso, Mariano Amaro era um médio talentoso e intuitivo, mas também solidário, em todas as vertentes do termo. Primeiro, porque apesar de ser um bom-vivant, para quem a diversão era tão ou mais importante do que o treino, era dos que com mais afinco desempenhava as funções defensivas em campo. Depois porque, iluminado por um caráter à prova de bala, mantinha bem alto a noção de amizade e fraternidade.

Talvez por isso mesmo, este lisboeta gingão de Alfama não tenha sido para a seleção nacional o que podia ter vindo a ser. Ainda alinhou 19 vezes de quinas ao peito, mas nunca usou ali a braçadeira de capitão que com tanto orgulho ostentava no Belenenses. Resquícios, possivelmente, do incidente que teve com a PIDE, em 1938, quando ele e os seus colegas belenenses José Gomes e Artur Quaresma se recusaram a fazer a saudação fascista antes do início de uma partida com a Espanha, nas Salésias. Quaresma ficou estranhamente hirto, em sentido, ao passo que Gomes e Amaro ainda esticaram o braço, mas de punho cerrado. A foto, publicada dias depois na revista Stadium, tinha um retoque grosseiro, para manter as aparências, mas bem pode dizer-se que foi pior a emenda que o soneto. De tão mal feita, porém, a emenda chamou ainda mais a atenção para o facto e os dois chegaram a ser detidos pela polícia política para interrogatório. Não ficaram nos calabouços, mas terão ficado marcados para uma FPF que na altura respondia aos ditames de um regime totalitário.

Mariano Amaro era por esses dias ainda um jovem internacional. A carreira de futebolista, que começara por divertimento no Adicense, clube do bairro da Graça, perto da sua Alfama natal, já o levara ao Belenenses, onde entrou por mera curiosidade. Vinha credenciado como extremo-esquerdo, mas no Restelo até a guarda-redes o experimentaram, até que Artur José Pereira o fixou no meio-campo. Levou o seu tempo a chegar à equipa principal, onde não chegou a alinhar no quarto lugar que os azuis obtiveram na Liga de 1934/35, mas a 26 de Maio de 1935, ainda com 20 anos, estreou-se no Barreiro, em partida do campeonato de Portugal, o antecessor da atual Taça de Portugal. O Belenenses ganhou por 1-0 e Amaro terá agradado, pelo que repetiu a presença na partida seguinte, uma derrota por 1-0 com o Benfica, a 2 de Junho. Já foi sem ele em campo que os azuis foram eliminados, com nova derrota, mas o jovem recruta ganhava importância no grupo e voltaria depois das férias como titular consolidado.

Em 1935/36, depois de um campeonato de Lisboa modesto, Mariano Amaro foi um dos totalistas da equipa do Belenenses que acabou a Liga em quarto lugar e chegou depois à final do Campeonato de Portugal. A estreia na prova da Liga aconteceu a 12 de Janeiro de 1936, no empate a uma bola que os azuis conseguiram no terreno do Boavista, à primeira jornada. A 3 de Maio, fez o primeiro golo, o sexto numa goleada frente à Académica (8-0) com que a equipa de Artur José Pereira acabou a competição. Voltaria a marcar no Campeonato de Portugal, decidindo, a 17 de Julho, o terceiro jogo dos quartos-de-final, contra o FC Porto. O Belenenses ganhou por 1-0 em Coimbra, depois de empates no Ameal e nas Salésias, quando começou a ganhar fama a rivalidade que o jovem Amaro tinha com Pinga, a estrela maior do FC Porto. “Está ali um grande jogador”, assegurava o atacante portista, que Amaro nunca deixava brilhar, fruto das suas noções defensivas do que devia ser o futebol. Eliminado o Benfica nas meias-finais, esse Belenenses chegou à final do Campeonato de Portugal, mas aí cedeu ao Sporting, por 3-1.

Os títulos, para Amaro, ainda demorariam a chegar, mas a sua importância na equipa do Belenenses era já inquestionável. Em 1936/37 voltou a fazer todos os jogos no segundo lugar dos azuis na Liga e na caminhada até às meias-finais no Campeonato de Portugal, de onde foram desta vez eliminados pelo FC Porto. E em Novembro de 1937, Cândido de Oliveira chamou Amaro à seleção nacional. A ocasião era um jogo contra a Espanha, em Vigo. Além de Amaro, estrearam-se Azevedo, Quaresma e Espírito Santo e Portugal ganhou por 2-1. Aquela que teria sido a primeira vitória sobre a Espanha, porém, nunca foi reconhecida pela FIFA, porque o país vizinho estava por estes tempos cortado ao meio pela guerra civil. A mesma razão pela qual não está homologada a vitória seguinte, o 1-0 das Salésias em Janeiro de 1938 que motivou o tal incidente com a PIDE. Mariano Amaro viria, mesmo assim, a estar na primeira vitória “a sério” sobre os espanhóis, mas ainda teve de esperar dez anos: foi a 26 de Janeiro de 1947 que, com ele a meio-campo, os portugueses se impuseram aos espanhóis por 4-1, no Estádio Nacional. Muitas aventuras teve Amaro de viver até lá, porém. Quando chegou à seleção, aos seus 22 anos, abandonou o ofício de torneiro mecânico para se dedicar mais ao futebol: treinava de manhã, passava a tarde nos cafés a escolher companhia para a jogatina que o levava pela noite dentro. Nunca foi, na verdade, um atleta exemplar.

As épocas que se seguiram não foram de grande fulgor. Em 1937/38, o Belenenses de Augusto Silva foi apenas terceiro no campeonato de Lisboa, quinto na Liga, com duas derrotas nos três jogos de ausência de Amaro, e saiu do Campeonato de Portugal nos quartos-de-final, afastado pelo Sporting. Em Maio de 1938, Amaro fez parte do onze de Portugal que, em Milão, perdeu para a Suíça o direito a jogar o Campeonato do Mundo. Vinha aí um período negro para o futebol de seleções, com a eclosão da II Guerra Mundial, e disso se ressentiu o total de internacionalizações do médio lisboeta. Amaro mantinha, ainda assi, a regularidade no Belenenses: em 1938/39 foi mais uma vez totalista, mas o Belenenses não foi além do segundo lugar no regional, quarto na estreia do campeonato nacional e afastado mais uma vez pelo Sporting nos quartos-de-final da Taça de Portugal. A equipa azul voltaria a discutir um troféu a 7 de Maio de 1940, quando jogou a final da Taça de Portugal no Lumiar, com o Benfica. Ao intervalo, porém, já os azuis de Scopelli perdiam por 3-0, de nada valendo a reação no segundo tempo, a fixar o resultado final em 3-1 para os encarnados. Encantado com Amaro, Scopelli quis mais tarde levá-lo para a Argentina, mas o lisboeta nunca quis deixar a sua zona de conforto, refugiando-se num amor ao Belenenses que o clube veio a ter oportunidade de retribuir mais tarde, com uma pensão, quando Mariano Amaro dela precisou.

De novo sob o comando de Artur José Pereira, os azuis voltaram à final da Taça de Portugal em 1941, mas mais uma vez para perder, desta vez com o Sporting, por 4-1. E nas Salésias, o que ainda terá doído mais. Amaro voltou a ser totalista nessa época, marcando um golo na caminhada até à final da Taça de Portugal (ao Boavista, logo na primeira eliminatória). Com tantas ocasiões a rondar a taça, não admira que o Belenenses tenha acabado por ganhá-la também. Aconteceu a 12 de Julho de 1942. Depois mais dois terceiros lugares, no regional e no nacional, a equipa agora comandada por Rodolfo Faroleiro ganhou ao V. Guimarães por 2-0, numa final jogada no Lumiar. Amaro jogou como médio-direito, a posição que alternava com a de médio-centro e de onde desenhava todo o futebol da equipa. Totalista em 1942/43, só voltou a falhar um jogo em Janeiro de 1944 – derrota por 6-1 com o Sporting – numa época em que se sagrou pela primeira vez campeão de Lisboa (com mais dois pontos que o Benfica, que foi segundo) e na qual fez, de livre, a 23 de Janeiro de 1944, o seu segundo e último golo no campeonato nacional. O adversário foi o mesmo do golo anterior, a Académica, mas desta vez o Belenenses ganhou apenas por 3-1.

Em Setembro de 1944, porém, apareceu-lhe o primeiro susto. Reprovado por uma junta médica, devido a alegadas insuficiências cardíacas, esteve fora da equipa até Março de 1945. Regressou numa vitória caseira frente ao Estoril (2-1) e ainda marcou presença nas duas retumbantes goleadas com que a equipa azul carimbou o terceiro lugar no campeonato (15-2 à Académica e 14-1 ao Salgueiros). Em Maio, Tavares da Silva voltou a chamá-lo à seleção nacional, para um particular contra a Espanha. Viria a somar, entre Maio de 1945 e Novembro de 1947, data da sua última internacionalização, dez das 19 partidas que fez na equipa nacional. Esse terá sido, aliás, o período de maior fulgor da sua carreira, com a conquista do título lisboeta e do campeonato nacional de 1945/46. Amaro foi mais uma vez totalista e capitão de equipa nesse campeonato ainda único em todo o historial do Belenenses. O rendimento que foi mantendo em 1946/47 e 1947/48 não fazia prever o desfecho dramático que a sua carreira acabou por ter. A 30 de Maio de 1948, aos 33 anos, despediu-se sem saber do campeonato nacional, ajudando o Belenenses a ganhar ao Sp. Braga por 4-0 e a superar o Estoril na luta pelo terceiro lugar na prova. Seguia-se a Taça de Portugal, que Amaro foi fazendo a tempo inteiro até ao apuramento para a final, marcada para 4 de Julho no Jamor. Na véspera da partida, um grave acidente pulmonar, seguido de diagnóstico de tuberculose, acabou-lhe com a carreira. Amaro já não jogou e o Belenenses perdeu por 3-1.

Ainda lutou e chegou a anunciar o regresso aos relvados, mas a ligação de Amaro ao futebol só foi mantida, daí para a frente, na condição de treinador. E nesta nunca teve sucesso, tendo mesmo assim chegado a dirigir O Elvas, Oriental, Ac. Viseu, Sp. Covilhã, Torreense ou V. Guimarães. Só bem para lá dos 50 anos começou a trabalhar na companhia dos telefones, o que implicou que a reforma que teve direito a receber mais tarde não tenha sido suficiente para se manter. Valeu-lhe, aí, o auxílio do Belenenses, que ajudou a que os últimos dias de uma das maiores glórias da sua história não tenham sido marcados pela miséria. Mariano Amaro veio a falecer em 1987, vítima de ataque cardíaco. Foi traído pelo coração que tanto mostrara enquanto futebolista.