Avançado de baixa estatura e muito rápido, Coelho chegou à seleção nacional em tempo de vacas magras, tendo de caminho dado muitas alegrias a Boavista, Penafiel ou Desp. Chaves.
2016-08-05

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1980

É bem possível que sem a confusão de Saltillo José Coelho nunca tivesse chegado onde chegou com as cores de Portugal: foi no seguimento da deserção dos convocados por José Torres para o Mundial de 1986 que o pequeno avançado do Boavista se transformou na coqueluche da equipa nacional que disputou o acesso ao Europeu de 1988. A verdade é que, entre os que ficaram na história como os “Seabrinhas”, Coelho foi dos que melhor conta de si deu com as cinco quinas ao peito. E a meio caminho entre os 20 e os 30 anos começava verdadeiramente a carreira de um avançado que era uma espécie de Rui Barros por antecipação e até tinha sido internacional júnior, muito à conta de uma velocidade que muito prometia.

A verdade é que depois de ter sido campeão nacional de juniores em 1980 pelo FC Porto, ao lado de futuros craques como João Pinto, Bandeirinha, Quinito ou Jaime Magalhães, e de ter até estado no Europeu da categoria, convocado por Jesualdo Ferreira, Coelho ainda justificou a integração no plantel principal que Herman Stessl ia conduzir na sequência da saída de Pedroto, mas lá chegado nunca justificou a honra. O treinador austríaco deu-lhe a primeira oportunidade logo a 13 de Setembro de 1980, oferecendo-lhe o centro do ataque numa partida em casa frente ao Sp. Espinho, que os dragões ganharam por 2-1. Quatro dias depois, fê-lo entrar para a vaga do brasileiro Niromar, numa partida da Taça UEFA contra os irlandeses do Dundalk, mas nos 27 minutos que Coelho passou em campo o 1-0 que o placar registava não se alterou. A chegada de Mick Walsh alterou tudo na equipa e Coelho pouco mais vezes jogou. No final da época, apesar de ter sido convocado para jogar com a seleção de esperanças no prestigiado Torneio de Toulon, acabou por ser dispensado para o Boavista.

No Bessa, Mário Lino começou por ver nele uma “arma secreta”, à qual podia recorrer, fazendo-o sair do banco, sempre que os jogos corriam pior. Foi assim que fez a primeira dezena de partidas pelos axadrezados. Mas os golos que ia marcando levaram o treinador a mudar de ideias. A estreia a marcar fê-la a 17 de Outubro de 1981, e logo num palco especial: em Alvalade, frente ao Sporting. Coelho entrou para o lugar do mais consagrado Jorge Silva a 17 minutos do fim, com o Boavista a perder por 3-1, tendo marcado o segundo golo da sua equipa e dado início a um despertar que acabou com um empate a três bolas. Na ronda seguinte, em casa com o Belenenses, repetiu-se a história: Coelho substituiu Jorge Silva a 25 minutos do fim e acabou por marcar o golo da vitória (2-1), aos 88’, após passe de Diamantino. Lino foi sensível aos efeitos que o jovem atacante tinha no onze e passou a dar-lhe a titularidade, mas quando este parecia já estar a habituar-se a jogar de início – bis nos 2-1 ao Sporting em Março e um golo nos 6-1 ao Ac. Viseu, em inícios de Abril – lesionou-se com gravidade em Braga e viu a época terminar logo ali.

Apesar da modéstia dos seus números (apenas seis golos) e de nem sempre ter sido titular, ainda foi o segundo melhor marcador da equipa, apenas atrás de Diamantino. Não tinha, por isso, razão para não acolher de braços abertos Herman Stessl, o treinador que o Boavista escolheu para atacar a época seguinte. Afinal, tinha sido o homem que o lançara nas Antas. Só que o início de época foi muito infeliz para o avançado de Penafiel, que só desbloqueou a conta goleadora em finais de Janeiro, quando fez o primeiro dos dois golos que valeram aos axadrezados um empate com o Benfica em casa. Encontrou aí a confiança para mais seis golos, que o deixaram apenas atrás de Reinaldo na lista dos marcadores do Boavista, mas começava a parecer-se com uma promessa adiada. Em 1983/84, Henrique Calisto deu-lhe mais continuidade, apostando nele com frequência, mas os golos não saíam com regularidade e nova lesão, desta vez em Guimarães, em Janeiro, tirou-lhe quase dois meses da temporada. A cadência goleadora de Coelho estava em queda: quatro golos em 1983/84, três em 1984/85 (ainda que com mais três na Taça de Portugal) e apenas um em 1985/86. Quando viu o Mundial do México, nesse verão, Coelho não sonharia já em chegar à seleção principal. E no entanto, tardou pouco.

João Alves manteve a confiança nele para a época seguinte e, mesmo tendo feito apenas dois golos até à convocatória – um bis ao Belenenses, em finais de Setembro – Coelho esteve na lista dos escolhidos por Ruy Seabra para o primeiro encontro da seleção após a deserção dos mundialistas. A 12 de Outubro de 1986, no Jamor, começou a partida frente à Suécia no banco, fazendo-o lembrar o tempo em que era a “arma secreta” de Mário Lino. A meia-hora do fim, com Portugal a perder, entrou para o lugar de Shéu, acabando por marcar ele mesmo o golo do empate. Celebrado como herói nacional, manteve o lugar, tanto na seleção como no Boavista, onde na passagem de ano Alves deu o lugar de treinador a José Torres. Acabou a época com sete golos pelo Boavista, que chegaram para ser o melhor marcador da equipa, e fez ainda dois pela seleção, na qual se manteve por uns meses após o regresso dos consagrados – viu do banco a vitória na Suécia, em Setembro de 1987, com um golo de Gomes (1-0), e depois disso ainda alinhou contra a Itália e Malta, no encerramento da frustrada tentativa nacional de chegar ao Europeu de 1988.

Por essa altura, Coelho aceitou o desafio de João Alves e mudou-se do Bessa para a Amadora, que por esses tempos gastava o que tinha e o que não tinha para formar equipas competitivas. O treinador sabia o que queria tirar dele, mas Coelho não se deu bem com a mudança para o sul: em toda a temporada nos subúrbios de Lisboa fez apenas um golo, ao Penafiel, o clube da sua cidade-natal. E foi precisamente em Penafiel que foi encontrar refúgio. Coelho assinou então as duas temporadas mais produtivas da carreira: os dez golos pelo Penafiel no campeonato de 1989/90, somados às recordações que dele tinha Manuel Barbosa, que o treinara no Bessa há uns anos, levaram-no ao Chaves em 1990/91, onde o atacante voltou a atingir os dois algarismos, com mais dez tentos. Dois bis em jornadas seguidas, ao Marítimo e ao Beira Mar, em Abril de 1991, fizeram disparar os alarmes no Boavista, que o recuperou nessa altura. Já com 30 anos, Coelho voltava ao Bessa, mas a verdade é que nunca foi titular na equipa que Manuel José conduziu ao terceiro lugar da tabela e à vitória na Taça de Portugal. Coelho jogou duas vezes na caminhada até ao Jamor – e até fez um golo na vitória sobre o Lusitânia de Lourosa, na entrada boavisteira na competição – mas o facto de não ter sequer sido chamado ao banco na final, ganha ao FC Porto, por 2-1, tê-lo-á ajudado a encarar o futuro fora do Bessa.

Assumiu-se então como jogador de II Divisão. Passou um ano no Penafiel e dois no Felgueiras de Jorge Jesus, para cuja subida de escalão contribuiu com onze golos. O regressou de Coelho à divisão principal durou pouco tempo, porém: a 20 de Agosto de 1995 alinhou os últimos dois minutos do empate do Felgueiras com o Chaves (2-2), sendo depois dispensado. Acabou essa temporada no Lixa e ainda jogou mais uma na Sanjoanense, sempre na II Divisão B, antes de se retirar de vez do futebol.