Nélson foi quatro vezes campeão nacional, duas no Benfica e duas no Sporting, chegou aos 100 golos no campeonato e à seleção nacional. É a história de um grande tantas vezes esquecido.
2016-08-03

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1967

Foram cem golos na I Divisão, os marcados por Nélson, um madeirense que cresceu a ouvir chamarem-lhe Matateu e que só não vingou no Benfica porque à sua frente estava Eusébio. Disso se aproveitou o Sporting, que o foi buscar a tempo de lhe permitir ganhar dois campeonatos nacionais – a juntar aos dois que já tinha ganho na Luz, mas aí como suplente – e três Taças de Portugal. A história de sucesso deste atacante explosivo, que aliava boa técnica a um excelente jogo de cabeça, não se completou sem um regresso a casa, onde ajudou o Marítimo a obter a histórica primeira subida à I Divisão.

Foi no Funchal que o viu nascer que Nélson Fernando começou a destacar-se, a ponto de, por ser adepto do Belenenses, lhe darem como alcunha “Matateu”. O pai jogava no União da Madeira e quis encaminhá-lo para lá, mas Nélson acabou a representar o Marítimo. Não por muito tempo, de resto: em 1962, aos 15 anos, mudou-se para Lisboa, onde foi jogar na equipa de juniores do Benfica. Chegou nessa altura à seleção nacional da categoria, tendo mesmo feito quatro golos na fase final do Europeu de 1964, que Portugal concluiu na terceira posição. O rapaz prometia e, vendo que em casa não havia muito espaço para ele se afirmar, os responsáveis benfiquistas optaram por cedê-lo por empréstimo. Escolheram o Varzim e nunca se arrependeram. Artur Quaresma deu-lhe a estreia a 13 de Setembro de 1964, em jogo da Taça de Portugal, em casa frente ao Montijo, que os poveiros empataram a duas bolas. O primeiro golo, o miúdo marcou-o logo à segunda partida, precisamente o desempate no Montijo, ganho pelo Varzim por 2-1. Os ares da margem sul do Tejo pareciam fazer-lhe bem, tanto que no campeonato o jovem madeirense estreou-se logo com um golo, a 11 de Outubro, na vitória por 2-1 no terreno do Seixal.

A verdadeira proeza, porém, chegaria no mês seguinte. Ainda invicto no campeonato, o Varzim recebia o Sporting. E a vedeta da tarde foi Nélson, autor de um hat-trick na baliza guardada por Barroca e por isso mesmo providencial na vitória poveira (3-1). Ao todo, na época de estreia, feita antes de completar 19 anos, Nélson marcou 12 golos no campeonato. O suficiente para ser chamado à seleção de esperanças e lhe pedirem para regressar ao Benfica. Na Luz, porém, os golos não eram o suficiente para entrar na equipa principal. O miúdo fê-los em quantidade, mas nem assim assegurou a continuidade necessária nas escolhas de Bela Guttmann. Estreou-se de vermelho a 7 de Setembro de 1965 e demorou apenas três minutos a abrir o ativo num jogo da Taça de Portugal frente à Oliveirense, que o Benfica ganhou por 2-0. No campeonato, só teve a primeira chance em finais de Novembro, na receção ao Barreirense: chamado a ocupar o lugar de Eusébio, o rapaz marcou logo no primeiro minuto, abrindo caminho a um fantástico 8-2 (com cinco golos de Torres, a figura da tarde). Titular na ponta final da época, marcou quatro golos no campeonato e mais cinco na Taça de Portugal, motivando a vontade de o verem por mais tempo e evitando a dispensa a um clube menor.

Na segunda época na Luz, além de melhorar a marca na Liga – fez cinco golos, dois deles decisivos em vitórias magras nos terrenos da Académica e da CUF – Nélson teve ainda a alegria de se sagrar pela primeira vez campeão nacional. E estreou-se nas competições europeias, ainda que para jogar em vez de Torres nas duas partidas frente ao Lokomotiv Leipzig, que ditaram a eliminação na Taça das Cidades com Feira. Fernando Riera, o treinador de todas estas conquistas, engraçava com ele, mas a saída do chileno, em Novembro de 1967, foi um golpe difícil de encaixar. Nélson foi tendo cada vez menos oportunidade, até se despedir do Benfica. Ainda contribuiu com quatro presenças para mais um título de campeão nacional, mas após ter sido titular num empate em casa frente ao FC Porto (2-2), a 2 de Junho, nas meias-finais da Taça de Portugal, não mais alinhou pelo Benfica. No fim do Verão de 1968, aos 22 anos, começava para ele uma nova vida, com o regresso ao Varzim, desta vez com cedência total do passe. Nélson só entrou na equipa de Monteiro da Costa à quinta jornada, já em Outubro, para uma derrota (2-0) frente ao FC Porto nas Antas, mas encaixou tão bem nela que a transfigurou e chegou à seleção nacional antes do fim da época: estreou-se a 6 de Abril de 1969, pela mão de José Maria Antunes, substituindo Laurindo ao intervalo de um empate a zero contra o México, no Estádio Nacional. Finda a temporada, com seis golos no campeonato – entre os quais um na vitória sobre o Sporting e outro na Luz contra o Benfica – e mais três na Taça de Portugal, Nélson assegurou o regresso à capital. Desta vez, porém, ia jogar no Sporting, o grande rival do clube que o viu crescer.

Em Alvalade, numa equipa de muito maior potencial ofensivo que o Varzim e com a continuidade que nunca tivera na Luz, Nélson mostrou-se um goleador terrivelmente regular. Fernando Vaz apostou nele para fazer dupla de ataque com Lourenço e o madeirense foi o melhor marcador da equipa, assinando 17 golos no campeonato e mais três na Taça de Portugal. Logo na estreia, a 7 de Setembro, em casa contra o Sp. Braga, fez dois golos nos primeiros 23 minutos, assegurando um excelente arranque de uma equipa que acabaria por se sagrar campeã nacional. A dobradinha ficou ao virar da esquina, pois o Sporting perdeu a final da Taça de Portugal frente ao Benfica: Nélson saiu a meio da primeira parte, lesionado, mas já com os leões a perderem por 1-0. Esse fantasma, da derrota no Jamor, o madeirense acabaria por afastá-lo logo na época seguinte. Nélson viu o seu total de golos ressentir-se, mas ainda marcou onze em toda a época: sete no campeonato, os primeiros dois na Taça dos Campeões Europeus (aos malteses do Floriana) e outros dois na Taça de Portugal. Destes, um apareceu na final, na qual os leões bateram o Benfica por 4-1, ajudando a esquecer o segundo lugar no campeonato.

A afirmação de Yazalde não roubou protagonismo ao avançado madeirense, ainda que o tenha levado a recuar no terreno, para segundo avançado o mesmo médio-ala, na adoção clara do 4x3x3. Aliás, a produção do argentino parecia diretamente ligada à do madeirense. A modéstia dos números do primeiro em 1971/72 (apenas nove golos no campeonato) teve correspondência numa quebra da performance do segundo (cinco tentos no campeonato e dois na Taça de Portugal, cuja final o Sporting voltou a perder para o Benfica, com Nélson a entrar em campo pouco antes de começar o prolongamento). Em 1972/73, com a chegada a Alvalade do treinador britânico Ronnie Allen, Yazalde cresceu para os 19 golos na Liga e Nélson acompanhou-o, chegando aos 18. Fez a melhor época de sempre num ano em que o rendimento coletivo dos leões foi fraco, com um quinto lugar no campeonato a ser apenas mascarado pela conquista de mais uma Taça de Portugal, ganha na final contra o V. Setúbal. Nos 3-2 que ficaram na história, Nélson assistiu o goleador argentino para o segundo golo leonino.

Mário Lino, que já comandou os leões nessa tarde, haveria de colocar a parceria a funcionar às mil-maravilhas, integrando bem os extremos, Marinho e Dinis. Em 1973/74, o Sporting voltou a ser a melhor equipa do país, ganhando o campeonato e a Taça de Portugal e chegando à meia-final da Taça das Taças. Nélson, que foi totalista na Liga pela segunda época seguida, marcando onze golos – entre os quais um hat-trick ao V. Guimarães – voltou a ganhar uma Taça de Portugal, alinhando os 120 minutos na vitória frente ao Benfica na final. Na campanha da Taça das Taças, viu o primeiro cartão vermelho da sua carreira leonina, sendo expulso a oito minutos do fim de um empate em Zurique (1-1) que chegou e sobrou para atingir as meias-finais e falhando por isso a primeira mão frente ao Magdeburgo. O empate a um golo em Alvalade, sem ele na equipa, revelou-se impossível de segurar na RDA, onde os leões perderam por 2-1. A época, ainda assim, foi globalmente muito positiva para Nélson, que a fechou com 13 golos em 41 jogos. Nada mau, para uma equipa em que Yazalde marcou 50.

Na confusão que foi a época de 1974/75 em Alvalade, ainda assim, Nélson foi dos que escapou à mediocridade. Em Dezembro, a entrada no clube de Fernando Riera, o treinador chileno que já o conhecia dos tempos do Benfica, ajudou-o a manter o nível: nove dos dez golos que assinou na Liga aconteceram depois da chegada de Riera. Nem assim, porém, o rendimento da equipa escapou, tendo acabado o campeonato em terceiro lugar e sido eliminado da Taça de Portugal nas meias-finais pelo Boavista e da Taça dos Campeões Europeus logo na primeira ronda, pelo St. Etiènne. Nada que o Sporting, naquele período de convulsões sociais, não conseguisse piorar: em 1975/76, a equipa leonina ficou-se pelo quinto posto e falhou a qualificação para as competições europeias. Nélson, que nem teve férias, porque em Julho e Agosto foi fazer uma perninha aos Estados Unidos, marcando cinco golos em dez jogos pelos Boston Minutemen de Eusébio, Manaca e Simões, foi sempre sendo titular para Juca, o treinador, mas fez o último golo em inícios de Novembro, à Académica. Finda a época, com 30 anos, não renovou contrato e acedeu aos apelos de Pedro Gomes, seu ex-colega de balneário no Sporting, que abraçara a tarefa de fazer ascender o Marítimo à I Divisão.

Diretamente do Sporting para a II Divisão, o atacante madeirense foi importantíssimo no sucesso verde-rubro, sobretudo pela experiência competitiva que aportava à equipa. Não só o Marítimo ganhou a Zona Sul da II Divisão, após longa a árdua batalha com a CUF, que ali vivia o seu último estertor, como ainda foi depois capaz de se sagrar campeão nacional do escalão, impondo-se a Riopele e Feirense na fase final. Nélson regressava, assim, à I Divisão, mas agora com a camisola do Marítimo. Faltavam-lhe dois golos para chegar à centena, mas em toda a época fez apenas um, numa vitória frente à Académica nos Barreiros, a 7 de Maio de 1978. Finda a época, apesar da salvação do Marítimo, Nélson voltou à II Divisão, agora para jogar no Portimonense. E no Algarve voltou a conseguir a mesma proeza: venceu a Zona Sul à frente do Juventude de Évora e impôs-se na fase final para atribuição do título de campeão a Sp.Espinho e U. Leiria. Aos 33 anos, voltou assim para a última temporada na I Divisão. Fez o 100º golo a 20 de Janeiro de 1980, saindo do banco para assegurar a vitória da equipa então liderada por Manuel de Oliveira frente ao Rio Ave em Vila do Conde, e despediu-se da prova a 1 de Junho, rendendo Rogério na última meia-hora de novo sucesso, dessa vez frente ao V. Setúbal, em Portimão.

Até final da carreira, Nélson ainda representou o Salgueiros, na II Divisão, confirmando a ideia de que não há duas sem três. A equipa de Paranhos só viria a subir de escalão à segunda época do goleador madeirense, e através da Liguilha. Com 36 anos, porém, Nélson já não fez a viagem. Passou ainda pelo Tirsense e pelo Vianense antes de pendurar as chuteiras e de fixar na residência na Póvoa de Varzim. Que, afinal, foi onde tudo verdadeiramente começou.