Lateral veloz e bom na marcação, Teixeirinha tanto jogava à direita como à esquerda. Começou no Estoril, tentou a sorte no Benfica e esteve na estreia europeia do Portimonense.
2016-08-02

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1977

Muito antes do tempo em que os defesas laterais tinham de ser altos e espadaúdos, Teixeirinha foi um dos mais fiáveis representantes da posição no futebol português. Jogador de baixa estatura, tinha a velocidade como maior arma, não só para correr atrás dos extremos adversários como para fazer todo o corredor. Que no caso tanto podia sero direito, onde começou, no Estoril, como o esquerdo, onde fez carreira no Portimonense europeu. Não terá chegado tão longe como prometia quando andou nas cogitações da seleção nacional de juniores e motivou o interesse do Benfica, mas ainda fez quase uma década ao mais alto nível na I Divisão.

Fernando Teixeira chegou de Angola, como tantos outros, exilado no fim da guerra colonial. Era adolescente e não veio sequer com a família, mas sim com amigos dos pais, à procura dos avós, que viviam em Portugal. Por cá, começou por viver na zona de Gouveia, antes de encontrar os avós e se mudar para Tomar. Dali, dadas as enormes dificuldades de alojamento dos muitos que retornavam de África, acabou por se mudar para o Estoril, onde começou a destacar-se como futebolista. De caminho, rejuvenesceu dois meses: na verdade, nascera a 2 de Junho de 1959, mas foi registado com data de 2 de Agosto, de forma a superar a data de mudança de época – 31 de Julho – e poder jogar mais um ano nos juniores. Ele nem precisava disso, que tinha capacidade para se impor sem esses esquemas, como veio a provar mais tarde, na chegada aos seniores do Estoril, mas aquele era um tempo em que a “esperteza-saloia” falava mais alto.

Teixeirinha era ainda júnior – de facto e de direito – quando José Torres o lançou na equipa principal do Estoril. Já tinha estado no banco duas vezes – uma delas uma vitória por 2-0 frente ao FC Porto, no António Coimbra da Mota, a 10 de Setembro de 1977 – quando, a 25 do mesmo mês, viu Vieirinha lesionar-se a meia-hora do final de um jogo em casa com o Riopele. Torres colocou-o em campo e o empate a zero não se desfez. Nessa primeira época acumulou presenças no banco, mas só foi titular uma vez: a 26 de Novembro, no Bessa, quando o Estoril foi goleado pelo Boavista, por 5-1. Mesmo assim, o que foi fazendo nos juniores chegou para que do Benfica – o clube do coração do jovem Fernando – o chamassem. Em 1978, aos 19 anos, assinou pelos encarnados, mas nunca passou dos treinos e dos jogos de reservas e acabou por regressar à base. Viria a representar o Benfica com mais assiduidade depois de terminada a carreira profissional: mantém ainda hoje uma boa forma física e é presença habitual na equipa de veteranos que faz jogos de exibição, sobretudo para alegrar a diáspora lusitana por esse Mundo fora.

De regresso ao Estoril em 1979, Teixeirinha teve dificuldades em agarrar um lugar como titular. Pedroso jogava pela direita, Franque pela esquerda e só em Março de 1980 Torres lhe deu uma oportunidade: jogou como lateral direito na receção ao Benfica, que escolheu o outro lado para criar os lances da vitória por 2-0. Já não saiu do onze até final da época, acabando por participar, muitas vezes à esquerda, em três das cinco vitórias dos canarinhos nesse campeonato – em nove jornadas – mas nem assim impedindo a despromoção. O regresso à I Divisão foi rápido, graças ao primeiro lugar obtido pelo Estoril na Zona Sul da II Divisão, e a chegada de Jimmy Hagan ao clube favoreceu o lateral nascido em Angola. Titular durante grande parte da época, perdeu a vaga quando o inglês saiu, em meados de Fevereiro, após um empate em casa com o Sp. Espinho. Com Celestino Ruas, jogou apenas mais um minuto, entrando aos 89’ para o lugar de Vieirinha com o intuito de passar tempo e segurar a dramática vitória por 1-0 frente ao Ac. Viseu que garantia a manutenção do Estoril na I Divisão.

Na verdade, Teixeirinha só deixou de ser uma promessa adiada depois disso. Mário Nunes, o treinador que assumiu o clube após o defeso, deu-lhe estabilidade como lateral-esquerdo e não se arrependeu: Teixeirinha só falhou um jogo nesse campeonato, uma derrota estrondosa por 6-0 no terreno do Portimonense. E 1983/84, a última temporada que passou no Estoril, teve para ele uma série de estreias. Foi pela primeira vez titular em todos os jogos do clube, 30 no campeonato e seis na Taça de Portugal, mantendo-se à esquerda da defesa tanto com António Medeiros como depois com Mário Wilson, que o substituiu em Dezembro. Marcou o seu primeiro – e único – golo no campeonato, fechando a contagem numa vitória por 4-2 sobre o Varzim, a 9 de Março de 1984. E foi pela primeira vez expulso: aconteceu a 12 de Maio e o cartão vermelho mostrado por Mário Luís deveu-se a uma agressão a Frasco, nas Antas, num jogo em que o FC Porto goleou o Estoril por 8-0. Era a última jornada e também a última vez que Teixeirinha vestia a camisola do Estoril: apesar de terem conseguido arrancar pontos aos três grandes, os canarinhos desceram e o lateral seguiu para sul, onde assinou pelo Portimonense.

Em Portimão, teve a sorte e a capacidade para fazer parte da surpreendente equipa que Manuel José levou ao quinto lugar e a uma inesperada qualificação europeia. A 18 de Setembro de 1985, já com o ex-colega Vítor Oliveira aos comandos, no seu ano de estreia como treinador, Teixeirinha pôde jogar a Taça UEFA, fazendo parte do onze do Portimonense que ganhou em casa ao Partizan, por 1-0. A eliminação, nascida dos 0-4 com que os algarvios baquearam em Belgrado, acabou por ser natural, dada a diferença de potencial e experiência internacional das duas equipas, mas não pode negar-se a importância de Teixeirinha nas duas excelentes épocas do Portimonense em 1984/85 e 1985/86, com um quinto e um sétimo lugar. O lateral manteve a preponderância à esquerda durante mais duas temporadas, mas o Portimonense passou a navegar em águas mais conturbadas, com chicotadas psicológicas e problemas financeiros a deixarem adivinhar a queda que aí vinha. O último jogo de Teixeirinha na I Divisão serviu para adiar essa mesma queda: a 5 de Junho de 1988 participou no empate caseiro (1-1) com o Sp. Espinho que permitiu a manutenção na I Divisão. Finda a época, seguiu para o escalão secundário, assinando pelo Louletano de Manuel de Oliveira.

Na II Divisão, Teixeirinha ainda tentou repetir a promoção que obtivera com o Estoril em 1981, mas a pontuação foi sempre curta. Em 1988/89 o Louletano ficou em segundo lugar, a dois pontos do U. Madeira. Em 1989/90, já no Sp. Espinho, ficou outra vez em segundo lugar, a um ponto do Salgueiros. Ainda representou os espinhenses no ano de estreia da II Divisão de Honra antes de baixar mais um patamar para jogar no Alba e no Machico. Na Madeira, já como adjunto do brasileiro Dário Filho, encetou uma carreira de treinador na qual nunca investiu verdadeiramente. Trabalha atualmente no ramo automóvel, tendo recentemente sido destacado pela Auto-Europa para uma unidade de produção na Alemanha. O futebol ainda lhe alegra os dias, mas apenas como aficionado.