Extremo-esquerdo convertido em defesa-central, foi o último capitão do U. Tomar na I Divisão e uma figura incontornável da história do futebol na cidade nabantina.
2016-08-01

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1963

A rapidez e o domínio de bola com o pé esquerdo chegaram a valer a este alentejano a alcunha de “Pequeno Seminário”, em alusão ao mágico atacante peruano do Sporting. Era então extremo-esquerdo e chegara de Beja para reforçar o Barreirense de Mario Imbelloni. O futuro de Faustino, no entanto, estava noutro estilo e noutra posição. Transformado por Óscar Tellechea num defesa-central de antes quebrar que torcer, tornou-se a figura mais consistente do último União de Tomar que andou pela I Divisão nacional, em meados da década de 70. É pelas exibições a jogar atrás que ainda é recordado na cidade nabantina que acabou por escolher para viver e estabelecer a família até aos dias de hoje, depois de passar 13 épocas de vermelho e negro.

A história futebolística de Faustino começou em 1961/62, tinha o jovem alentejano 17 anos. O seu talento não chegou para impedir que o Desportivo de Beja caísse nessa época da segunda para a terceira divisão, mas não escapou aos olhares dos responsáveis do Barreirense, a equipa que ganhou a Zona Sul e a promoção ao escalão principal mas que sofreu em Beja a mais pesada derrota da época: 4-2. No outono de 1962, Faustino integrava assim o plantel de uma das 14 equipas que iam jogar a I Divisão. E a 2 de Dezembro, o argentino Mario Imbelonni deu-lhe mesmo a estreia no principal campeonato nacional, logo em Alvalade e para defrontar o Sporting, que era o clube do seu coração. O Barreirense perdeu por 2-0, mas Faustino tomou-lhe o gosto: logo naquela primeira época, fez 14 jogos a titular, tanto com Imbelloni como depois, com o espanhol Miguel Vinueza, que acabou por levar a equipa a um 11º lugar que assegurava a manutenção.

A afirmação do pequeno extremo, porém, teve um atraso: o Barreirense foi buscar à CUF o mais experiente Costa e Faustino já jogou menos na segunda época. Fez apenas sete jogos, mas entre eles conta-se a vitória sobre o Sporting (1-0), no D. Manuel de Melo, a 5 de Abril de 1964. Ao ganhar aos leões, a equipa do Barreiro estava a um ponto da posição que asseguraria uma segunda oportunidade na Liguilha, mas acabou por baquear nas duas últimas rondas, perdendo em Évora com o Lusitano (sem Faustino) e em casa com a CUF (0-1), no jogo que sentenciou a despromoção. O interregno na II Divisão, no entanto, foi curto: sob os comandos de Angel Oñoro, o Barreirense ganhou a Zona Sul e, mesmo perdendo a final da II Divisão com o Beira Mar, voltou ao escalão principal. E Faustino, já com 21 anos mas muita experiência para a idade, tornou-se uma das figuras da equipa comandada pelo húngaro Joszef Fabian. Fez o primeiro golo no campeonato logo na jornada inaugural – e que golo! Foi graças a ele que o Barreirense entrou a ganhar na prova, surpreendendo o FC Porto nas Antas (1-0), a 11 de Setembro de 1965. Faustino haveria de marcar mais três durante a época, nas vitórias sobre o Varzim (3-1) e o Leixões (4-0) e no empate com o Beira Mar (2-2) – somou-lhes outro na Taça de Portugal, ao Sp. Covilhã – mas tal não foi suficiente para evitar nova despromoção. Consumada, ainda por cima, em novo dérbi do Barreiro: derrota no terreno da CUF por 7-3.

Fruto da colocação na zona de Tomar para cumprir o serviço militar, Faustino foi jogar a II Divisão, mas na Zona Norte, onde passou a representar o União local. Ali fez uma primeira época de adaptação e uma segunda premiada com subida de divisão – ainda que, depois de ganhar a Zona Norte, com nova derrota na final que atribuía o título de campeão nacional do escalão, desta vez frente ao Atlético, por 3-2. Foi durante essa época que Oscar Tellechea, treinador argentino, o adaptou a defesa-central: Faustino começou o campeonato a jogar a meio-campo, mas uma lesão de Maçarico levou ao seu recuo no terreno, num jogo em casa frente ao Ac. Viseu, em Fevereiro de 1968. Agradou e daí para a frente só raramente regressava a missões de ataque – de resto, era um marcador implacável, sempre a apostar na rapidez da antecipação como forma de contrariar a sua baixa estatura (mede apenas 1,65m). Ainda iniciou o campeonato de 1968/69 a jogar no ataque, curiosamente frente ao Atlético (empate a uma bola em Tomar), mas à segunda jornada, um empate frente ao Belenenses no Restelo, já estava a formar dupla de centrais com Caló, jogador emprestado pelo Sporting. E à terceira os dois chegaram para ajudar o União a ganhar por 2-1 aos leões em Tomar. Faustino foi titular em todos os jogos desse campeonato, no qual perdeu apenas sete minutos – substituído por Totoi, numa derrota frente à Sanjoanense – e fez um golo, na vitória por 3-1 frente ao V. Guimarães, a 6 de Outubro de 1968. Ele não podia sabê-lo, mas seria o último que ia marcar na I Divisão.

O décimo lugar final do U. Tomar (com empates nas Antas e em Alvalade como pontos mais altos) valeu a manutenção à equipa de Tellechea, que no entanto acabaria por ceder o lugar a meio da época seguinte, fruto dos maus resultados. Uma derrota em casa com o V. Setúbal, a 28 de Fevereiro de 1970, provocou a substituição do argentino por Fernando Cabrita, que no entanto só conseguiu duas vitórias nas últimas oito jornadas (mesmo tendo uma delas sido um 3-0 ao FC Porto) e não evitou nova descida de divisão. Faustino voltou a ser totalista no campeonato e na caminhada até aos quartos-de-final da Taça de Portugal, assumindo-se como capitão de equipa aos 26 anos, mas pela frente tinha mais uma temporada no segundo escalão. Cumpriu-a ajudando os nabantinos a acabar a Zona Sul em segundo lugar e festejando a subida através da Liguilha, na qual conseguiram superiorizar-se a Leixões, Varzim e Marinhense. E no final do Verão de 1971 lá estava Faustino outra vez na I Divisão. A primeira época valeu uma manutenção suada, mas a segunda, que começou com António Medeiros a prometer um super-União de Tomar, acabou mesmo com a descida de divisão. O que valeu, porém, o único título de campeão nacional a Faustino: a 23 de Junho de 1974, em Coimbra, depois de ajudar o U. Tomar a vencer a Zona Sul da II Divisão e festejar mais uma subida de divisão, alinhou como defesa-central na equipa que venceu o Sp. Espinho por 4-3 na final do campeonato secundário. Faustino saiu aos 62 minutos de jogo, com o resultado em 4-1, e ainda tremeu ao ver a recuperação espinhense.

Artur Santos, o treinador da subida, manteve a confiança nele na nova época, mas após mais um 12º lugar – a tal manutenção sofrida – a equipa nabantina voltou a cair para o segundo escalão em 1976. Outra vez totalista no ano da derradeira presença do U. Tomar na I Divisão, Faustino teve a honra de ser o capitão da última equipa do clube a jogar o escalão principal: aconteceu a 30 de Maio de 1976 e o empate a dois golos frente ao V. Setúbal, no Bonfim, ainda permitiu à equipa treinada por Francisco Andrade jogar a Liguilha. Aí, porém, a derrota na última ronda frente ao Montijo teve como epílogo uma descida da qual o União nunca chegou a recuperar. Faustino ainda jogou mais três épocas no clube, na II Divisão, uma das quais marcada pelas presenças de Eusébio e Simões na equipa. Aos 35 anos, deixou o clube, alinhando ainda duas temporadas como treinador-jogador do Alvaiázere, no distrital de Leiria. Nem isso levou, porém, a que deixasse de ser figura de referência do U. Tomar, voz sempre ouvida pelos adeptos do clube da cidade onde se fixou até hoje.