Roçadas podia ter sido o primeiro português a brilhar na Liga inglesa, se tivesse correspondido ao que Malcolm Allison viu nele quando o recomendou ao Sheffield Wednesday. Ainda assim, fez uma carreira muito interessante em vários clubes de Portugal.
2015-12-31

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1981

Roçadas é um daqueles jogadores que foi deixando o acaso fixar-lhe o rumo e disso nunca se arrependeu disso. Começou a jogar futebol porque se destacava no futebol de salão, em Torres Vedras; entrou na equipa do Vasco da Gama porque o padrasto lhe arranjou emprego na construção da refinaria de Sines; andou por vários clubes até dar de caras com Malcolm Allison, o treinador que o conheceu em Setúbal e lhe mudou a carreira. “O inglês”, como lhe chama ainda hoje, gostou dele e mexeu os cordelinhos para o colocar a jogar na Liga Inglesa. Podia ter sido o primeiro português a brilhar em Inglaterra, mas a experiência no Sheffield Wednesday não deu certo e dela não trouxe mais do que uns minutos na equipa de reservas dos “Owls”. Além de umas “pints” bebidas com monstros sagrados como George Best e Bobby Charlton.

Jorge Roçadas foi-se habituando à vida como uma caixinha de surpresas. Natural de Leiria, conheceu tarde o pai, que vivia em Torres Vedras. Foi ali que se destacou no futebol de salão, porque era veloz, chutava bem e nunca virava a cara à luta. E, mesmo sendo ainda júnior, acabou por se estrear na equipa de futebol de onze do Torreense que tentava a todo o custo evitar a queda para a III Divisão, em 1977. Não o conseguiu e, com 18 anos, foi à procura de trabalho com o padrasto, em Sines. A construção da refinaria gerava muito emprego, mas o futebol era uma paixão que o jovem Jorge não conseguia abandonar. Além de que “era mais fácil que vergar o aço”, recorda, todos estes anos passados. Entrou na equipa do Vasco da Gama, que jogava a Zona Sul da II Divisão, mas também ali não foi capaz de ajudar a evitar a descida. Campeão nacional da III Divisão em 1980, levando a melhor na final com a Sanjoanense, Roçadas destacou-se na equipa do Vasco da Gama que batalhou depois pela segunda subida consecutiva, da II para a I Divisão, em 1981, a ponto de chamar a atenção de várias equipas maiores. Acabou por assinar pelo Portimonense, porque achava que ia ter vida facilitada na luta pela titularidade, mas viu depois chegar uma série de jogadores de nome feito.

Mesmo assim, Manuel de Oliveira levou-o para o banco logo na primeira jornada do campeonato, um jogo em casa com o Boavista, a 23 de Agosto. O consagrado Manoel, antigo campeão pelo Sporting, lesionou-se ainda na primeira parte e o treinador teve de chamar o estreante para formar dupla de ataque com Norton de Matos. Os algarvios ganharam por 1-0 e, na segunda jornada, ainda sem Manoel, Roçadas teve a primeira experiência como titular – na Luz, contra o Benfica, em jogo marcado por uma derrota por 1-0. A primeira época, na qual ainda teve como treinadores Elísio Gouveia e Artur Jorge, ainda o viu marcar um golo, mas na Taça de Portugal, numa vitória por 2-0 sobre o Silves, em recarga a um remate do médio Tião. O primeiro golo no campeonato só o fez na segunda temporada, quando Artur Jorge lhe deu a titularidade pela segunda vez nesse campeonato: foi a 5 de Dezembro de 1982, num 6-0 com que o Portimonense goleou o Estoril. A exibição que fez no fim-de-semana seguinte, na Póvoa de Varzim, com um golo e uma assistência decisivos para que o Portimonense ganhasse por 2-0 e continuasse na Taça de Portugal – e a equipa só caiu na meia-final, contra o Benfica – fizeram com que o treinador passasse a olhar para o rapaz de outra forma. E até final da época Roçadas só falhou um jogo, a deslocação a Alvalade para defrontar o Sporting, tendo mesmo chegado a ser chamado à seleção olímpica.

Manuel de Oliveira, o treinador que o levara para Portimão, quis então tê-lo em Setúbal e Roçadas mudou de cores. Era já um jogador firmado na I Divisão: nessa época só falhou um jogo, somando sete golos – mais um na Taça de Portugal – e subindo um degrau em relação ao sexto lugar que obtivera com o Portimonense no ano de estreia. Faltava-lhe um golo a um grande, o que conseguiu a 20 de Outubro de 1984, quando bateu Bento de livre e contribuiu para a animação de um jogo com o Benfica, na Luz, que o Vitória perdeu por 4-3. A época, contudo, já não lhe correu tão bem, nem a nível individual nem coletivo, o que motivou nova troca de clube: em 1985 partiu para a Madeira, onde o esperava a camisola do Marítimo. Foi aposta de Mário Nunes e, depois, de António Oliveira, fez três golos (mais dois na Taça de Portugal), entre os quais um a Bento, a 12 de Janeiro de 1986, que foi muito falado por ter sido o primeiro que o Benfica sofria no campeonato desde o fim de Setembro. Finda a época, no entanto, Roçadas voltou a Setúbal para fazer parte da equipa que Malcolm Allison tentava fazer regressar à I Divisão, depois da despromoção de 1986. A tarefa foi conseguida à primeira tentativa e, com o sucesso, o leiriense chegou a viajar para Inglaterra, onde Allison queria colocá-lo. Chegou a ser hipótese para o Tottenham de Terry Venables – velho amigo do Big Mal – mas acabou no Sheffield Wednesday e não atingiu sequer a equipa principal, acabando por voltar a Setúbal, ainda a tempo de se tornar capitão de equipa e de, já jogar a meio-campo, ajudar em mais uma época tranquila, na qual Allison acabou por deixar o lugar no banco a Manuel Fernandes, como treinador-jogador.

Roçadas despediu-se do Vitória a 7 de Maio de 1989, jogando a última meia-hora de um sucesso por 1-0 sobre o FC Porto de Artur Jorge nas Antas em vez de Carlos Freitas. Tinha apenas 30 anos, mas estranhamente seguiu do quinto classificado do campeonato português para a Sanjoanense, que jogava a III Divisão. Até final da carreira ainda vestiu a camisola do U. Santiago Cacém, equipa que o vira treinar e o rejeitara no primeiro ano de sénior, antes de assinar pelo Vasco da Gama. Foi uma espécie de vingança bem-humorada que ainda hoje faz questão de lembrar aos amigos que fez naquela zona do Alentejo. Afinal, quem sabe o que teria sido a carreira de Roçadas se tivesse começado por ali.