O eterno segundo de José Maria Pedroto no banco ainda teve reconhecimento como treinador principal antes de falecer num acidente automóvel. Mas antes de treinar, também foi jogador. Campeão nacional e tudo.
2015-12-30

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1956

Para a esmagadora maioria, era o eterno segundo de José Maria Pedroto, o fiel adjunto que seguiu o mestre por vários clubes, lhe sucedeu quando este adoeceu e depois teve humildade para regressar a um papel secundário quando já merecia mais. Apesar de ter permanecido tanto tempo na sombra, António Morais foi muito mais conhecido como treinador do que como jogador. O que nem todos sabem é que a cumplicidade com Pedroto foi forjada no campo, quando os dois jogavam numa equipa do FC Porto menos habituada aos títulos que atualmente. Morais podia até ter sido melhor jogador, não tivesse desistido das chuteiras com a precocidade com que deixou este Mundo, com 54 anos, vítima de um brutal acidente automóvel. A carreira de jogador abandonara-a aos 31 anos, para seguir com o amigo José Maria para a equipa técnica portista.

Formado no Candal, Morais foi ainda júnior do FC Porto, ajudando a conquistar para o clube o seu primeiro título nacional desta categoria etária, em 1953. Chegou ao plantel sénior no Verão seguinte, um ano depois de Pedroto se ter transferido por verba recorde do Belenenses. Mas se este era titular, o jovem António teve de ficar de parte, à espera de vez. Só três anos depois, a 14 de Outubro de 1956, o treinador Flávio Costa se lembrou do rapaz para jogar no lugar de Perdigão. A ocasião foi um jogo em casa contra um Sporting em crise, que os dragões venceram por 2-0. Morais manteve o lugar por mais quatro jornadas e, de caminho, até marcou um golo, a abrir o ativo numa vitória por 4-0 sobre a CUF, a 4 de Novembro. Era uma altura – antes da chegada ao Porto do treinador Dorival Yustrich – em que Morais acumulava o futebol com o hóquei em patins. Em 1957, porém, isso acabou e o médio optou em definitivo pela bola de couro. Não jogou muito mais nessa época, mas pelo menos começou a ver frutos, pois teve participação decisiva na caminhada do FC Porto até à conquista da Taça de Portugal, marcando o golo que impediu a eliminação dos dragões logo na primeira ronda: o FC Porto tinha ganho em casa ao Sp. Braga por 3-0 e foi um golo de Morais que fixou o resultado da segunda mão em 3-1, apurando a equipa portista para a segunda eliminatória. Morais não jogou na final, ganha por 1-0 ao Benfica, mas deixou a marca pelo caminho.

Na época seguinte, mais uma vez sem jogar muito na equipa de Guttman, Morais foi também campeão nacional. Só com a chegada ao Porto de Ettore Puricelli, porém, o médio gaiense se tornou escolha habitual para o onze. O ano foi atribulado, com três treinadores a levarem a um quarto lugar final na Liga, mas Morais obteve o seu primeiro bis (nos 4-0 ao Atlético, a 15 de Maio de 1960) e até um hat-trick (nos 9-1 ao Beira Mar, na primeira eliminatória da Taça de Portugal). Entrada a década de 60, com Otto Vieira aos comandos da equipa, Morais ganhou mesmo o lugar de extremo-esquerdo na equipa titular. Teve a época mais produtiva em 1960/61, com quatro golos no campeonato e mais cinco na Taça de Portugal. Nesta competição, o FC Porto voltou a jogar uma final – ainda por cima nas Antas – mas Morais ficou de fora e a equipa azul-e-branca perdeu o jogo com o Leixões, privando-o de mais um troféu. Acabaria popr se despedir como jogador do FC Porto precisamente contra o Leixões, num 0-0 fora de casa a 15 de Outubro de 1961. Mais uns meses a ver os outros jogar levaram-no a dar um novo rumo à sua carreira: em 1962 assinou pelo Sp. Braga, que ajudou a sagrar-se campeão nacional da II Divisão em 1964. Ainda fez mais uma época na I Divisão, pelos arsenalistas, mas já como interior esquerdo.

Fez todos os jogos no campeonato e falhou apenas um na caminhada do Sp. Braga até à meia-final da Taça de Portugal, marcando por oito vezes na Liga (incluindo mais um hat-trick, desta vez ao Seixal) e por sete na Taça (com um póquer num 4-1 à Sanjoanense). Ainda assim, no fim da época, deixou o clube: despediu-se da Liga com um golo na derrota por 3-1 frente ao Sporting (o mesmo adversário que lhe assinalara a estreia), a 9 de Maio de 1965, e assinou pelo Tirsense, que ajudou a subir da terceira para a segunda Divisão, em 1966. Já não esteve na segunda subida consecutiva da equipa de Santo Tirso, em 1967/68, porque respondeu ao chamamento de Pedroto para fazer parte da equipa técnica do FC Porto. Na época seguinte, perto do final, teve de substituir o mestre, declarado “persona-non-grata” pelo clube na sequência da perda do campeonato nas últimas jornadas e dos incidentes com alguns dos jogadores que se recusaram a ficar em estágio. Os dois jogos em que orientou a equipa nessa Primavera de 1968 não puseram em causa uma parceria que levou Morais a seguir na sombra de Pedroto para o V. Setúbal ou Boavista, antes de ambos voltarem para, em 1978, devolver aos dragões o título de campeão nacional que a equipa não ganhava desde 1959, quando ambos estavam no relvado. Morais ainda saiu e voltou ao FC Porto com Pedroto, tendo-o substituído de forma definitiva quando o cancro o impediu de estar no banco, em 1984. Levou a equipa à final da Taça das Taças, fez parte da comissão técnica da seleção nacional do Europeu desse ano, mas sem Pedroto já não teve lugar no FC Porto. Treinou ainda V. Guimarães, Rio Ave, Sporting e Leixões antes de falecer num brutal acidente automóvel, na auto-estrada que havia de conduzi-lo ao gozo de férias no Algarve. Tinha 54 anos.