Foi recuando no terreno à medida que ia ganhando experiência. Piscas chegou para jogar a interior direito no Lusitano de Évora e, depois de passar por Académica e Beira Mar, saiu da I Divisão como defesa-central do Varzim.
2016-06-09

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1962

A polivalência era o atributo principal de Piscas, um angolano que chegou à metrópole para jogar como interior direito no Lusitano de Évora e ainda marcou uma era como defesa-central na Académica de José Maria Pedroto, antes de acabar uma carreira com mais de cem jogos na I Divisão a jogar a meio-campo pelo Varzim. Piscas era sobretudo um utilitário que jogava onde o treinador precisava e se isso pode tê-lo prejudicado na aquisição de rotinas garantiu-lhe um lugar em vários plantéis durante a década de 60.

A primeira vez que se ouviu falar dele em Portugal continental foi quando chegou do Atlético de Luanda para jogar no Lusitano de Évora, em 1959. Lorenzo Ausina estreou-o a 22 de Novembro de 1959, numa deslocação a Alvalade para jogar com o Sporting, na qual ocupou o lugar do brasileiro Ivson. O resultado foi mau – derrota por 6-0 – mas Piscas até manteve a posição, como interior direito, para a partida seguinte, um 9-3 ao Arroios para a Taça de Portugal no qual até fez um golo (o terceiro, num remate de fora da área). A utilização do angolano cresceu na segunda época, com a contratação de Dante Bianchi para treinador, mas a sua falta de golo levou a que à terceira Humberto Buchelli o desviasse para missões mais defensivas: alinhou como médio na equipa do Lusitano que precisou de recorrer à Liguilha para se manter entre os grandes, depois do modesto 12º lugar na tabela, mas que chegou a ameaçar afastar o Sporting da Taça de Portugal, ganhando por 4-1 aos leões no Campo Estrela, a 25 de Março de 1962, antes de perder a segunda mão e o jogo de desempate.

A ida para a universidade levou-o também para a equipa da Académica, onde se converteu num indispensável para Pedroto, que chegara a Coimbra no mesmo ano de 1962. Ali, Piscas jogou como médio, mas partidas houve em que recuou ainda mais no campo, passando a ser, à vez, defesa-direito ou defesa-esquerdo. A estreia pela Académica fê-la à direita da defesa, a 11 de Novembro de 1962, a ganhar por 4-1 à CUF no Municipal de Coimbra. E pegou de estaca: até final da época fez todas as partidas da equipa conimbricense, marcando inclusive o primeiro golo no campeonato, a 20 de Janeiro de 1963, numa derrota ante o Belenenses no Restelo (1-3). Dessa primeira época restam-lhe memórias da vitória por 4-3 contra o Sporting, em Coimbra, no último dia de 1962. AS atuações contra os leões, de resto, eram as melhores deste utilitário angolano: ainda há quem se lembre da marcação implacável que fez a Osvaldo Silva, em Março de 1964, num jogo que os leões acabaram por ganhar por 1-0, mas que ficou na história por ter sido o primeiro depois dos épicos 5-0 ao Manchester United. A vocação defensiva de Piscas ficou bem à vista nessa época de 1963/64, na qual foi muitas vezes defesa-central ao lado de Mário Torres, acabando-a sem falhar um único minuto nos 30 jogos feitos pela Académica.

Só que em 1964, após o nono lugar dos estudantes, Pedroto deixou a equipa. Sucedeu-lhe Mário Wilson, que recuou Rui Rodrigues do meio-campo para a defesa e devolveu a esquerda a Marques. Piscas passou, num ápice, de totalista a reservista. Em 1964/65 jogou apenas uma vez, na última jornada, numa partida que a Briosa perdeu por 5-1 frente ao Leixões, caindo do terceiro para o quarto lugar da tabela. E como em 1965/66 não foi muito mais requisitado – titular nas duas primeiras jornadas como defesa-central e depois um deserto atenuado apenas por uma presença frente ao Sp. Braga em Janeiro – o angolano acabou por deixar o clube. Assinou então pelo Beira Mar, juntamento com outros dois ex-academistas (Morais e Gaio), voltando a saber o que é ser imprescindível. Em Aveiro voltou a ser totalista, tanto nas 26 jornadas do campeonato como na caminhada da equipa já dirigida por António Lemos até aos quartos-de-final da Taça de Portugal. Não acabou o ano a sorrir, porém, pois o Beira Mar foi último da tabela e desceu de divisão. Aos 30 anos, Piscas ainda encontrou colocação no Varzim, mas ali voltou a ser pouco utilizado por Ricardo Perez: apenas cinco partidas, a última das quais a 7 de Janeiro de 1968, saldada com uma derrota por 4-1 no terreno do Barreirense. Finda a época, baixou um patamar, tornando-se importante na luta do Ac. Viseu pela manutenção na Zona Norte da II Divisão. Como colega tinha, aí, um certo Osvaldo Silva, para poder lembrar a tarde em que secou o herói dos 5-0 ao Manchester United.