Passou dois anos no FC Porto, mas sempre sem grandes oportunidades. Foi um goleador frequente na II Divisão, tendo brilhado na primeira ao serviço de Salgueiros, Leixões e Beira Mar.
2016-06-04

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1979

O nome transportava-nos para uma realidade diferente. Penteado era apelido de goleador, ainda por cima especialista no jogo de cabeça. Os golos que fez em duas épocas seguidas na Zona Norte da II Divisão levaram-no ao FC Porto, onde a concorrência, no entanto, se revelou demasiado forte e o impeliu a baixar para equipas cuja vida se esgotava na luta pela manutenção. Ao longo de uma carreira comprida, ainda fez golos na I Divisão com as camisolas do Salgueiros, do Leixões – onde é visto como um dos grandes da história do clube – e do Beira Mar. Deixou o futebol jogado perto dos 40 anos e, depois de algumas experiências como treinador, tornou-se vigilante do Museu de Serralves, no Porto.

Nascido em Seles, no Kuanza Sul, em Angola, Manuel Penteado era três anos mais novo que o irmão José, o primeiro talento futebolístico da família, que chegou a ser júnior do FC Porto antes de a vida o forçar a regressar ao Huambo. Depois da independência de Angola, ambos se fixaram em Portugal: José a jogar no Académico de Viseu, Manuel em Monção, onde dava os primeiros pontapés na equipa de juniores. O seu talento para o golo levou a que cedo fosse chamado à equipa principal, que ajudou a consolidar na Série A da III Divisão, depois da promoção do distrital de Viana do Castelo, obtida em 1976. Contam-se histórias de um hat-trick ao Tirsense, a forçar a recuperação do Desportivo de Monção de 0-3 para 3-3. E o relato das proezas chegou para que em 1979 Manuel fosse chamado para se juntar ao irmão José no plantel profissional com que o Académico de Viseu ia tentar a subida à I Divisão. Objetivo conseguido, depois do segundo lugar na Zona Centro e da vitória na Liguilha, contra o Fafe e o Lusitano de Évora.

Tendo contribuído para a subida com oito golos – ainda que lhe chamassem Nelito, provavelmente para não ser confundido com o irmão – o mais novo dos Pentado, contudo, não seguiu no plantel orientado por José Moniz para a I Divisão. Assinou pelo Leixões, outra vez com a ideia na subida. E com 19 golos de Penteado nas 30 jornadas da Zona Norte, tudo parecia encaminhar-se para uma repetição da história, com o segundo lugar do Leixões na Zona Norte, atrás do Rio Ave e apuramento para a Liguilha, com Nazarenos, Juventude de Évora e Académico de Viseu (que tinha sido o 13º da I Divisão e lutava pela manutenção). A goleada encaixada no Fontelo (0-5), porém, ditou um destino diferente: os viseenses ganharam o torneio e o Leixões ficou na II Divisão. Penteado, contudo, teve um destino diferente e assinou pelo FC Porto, que viu na sua eficácia goleadora sinais de promessa que depois ele não pôde cumprir.

A concorrência no grupo às ordens de Hermann Stessl era grande. Para uma equipa que jogava com apenas um ponta-de-lança, havia Walsh, Jacques e Júlio, pelo que Penteado demorou a ter uma oportunidade. Os golos que ia marcando nas reservas, contudo, forçavam o caminho. A 10 de Janeiro, finalmente, num jogo da Taça de Portugal contra o Lusitânia de Lourosa, o treinador austríaco deu-lhe uma camisola de titular. Penteado respondeu com dois golos, o primeiro logo aos 4’, no seguimento de um cruzamento de Jaime Magalhães, o outro a fechar, após passe de Bobó. Havia ali algo a explorar. Uma semana depois, na deslocação a Alvalade, Stessl voltou a tentar: levou Penteado para o banco e, a 20 minutos do fim, com o Sporting a ganhar por 1-0, colocou-o em vez de Jacques. Na estreia na I Divisão, o jovem angolano não resolveu, mas o treinador deu-lhe mais uma oportunidade. O adversário era difícil: o FC Porto visitava o Benfica, a 24 de Janeiro. Titular ao lado de Jacques na frente, Penteado ainda fez a assistência para o algarvio estabelecer o empate a um golo que depois Humberto Coelho e Nené desfizeram para um 3-1 final. Até ao fim da época, o ponta-de-lança angolano só jogou mais uma vez, e outra vez contra o Benfica: entrou a 20’ do fim do prolongamento do jogo que ditou a eliminação do FC Porto da Taça de Portugal.

Com os regressos de Pedroto e de Fernando Gomes, podia pensar-se que Penteado fosse um dos dispensados. Mas não. O angolano ficou no plantel e até jogou mais. Não chegou foi a ser titular numa única ocasião, entre as quatro partidas que fez na Liga e a estreia europeia, substituindo João Pinto antes do final da primeira parte de uma receção ao Anderlecht. Mesmo tendo estado em campo na reviravolta (de 0-2 para um 3-2, face aos 0-4 da primeira mão), desta vez Penteado acabou mesmo na lista de dispensas. E foi acolhido por Octávio Machado no Salgueiros. No Vidal Pinheiro, com mais continuidade, voltou a ver-se o jogador que tantos golos marcara em Viseu e Matosinhos. Foram ao todo oito no campeonato (mais um na Taça de Portugal), suficientes para se sagrar melhor marcador da equipa de Paranhos. E na memória do jogador ficará certamente a tarde em que se estreou a marcar no campeonato. Aconteceu a 8 de Dezembro de 1983 e a ocasião foi um jogo em atraso contra o Estoril no qual Penteado não se limitou a fazer um golo: fez quatro, na goleada salgueirista por 6-2.

Apesar dos empates caseiros contra Sporting e FC Porto, o Salgueiros só conseguiu a manutenção na última jornada e graças a um golo de Penteado, que valeu uma vitória por 1-0 sobre o Boavista. Na nova época, porém, Armando e Tonanha foram as escolhas principais de Henrique Calisto para o ataque do Salgueiros, o que remeteu o avançado angolano a um papel de suplente utilizado com alguma frequência. O total de golos ressentiu-se: fez apenas três no campeonato (um deles ao Sporting) e mais um na Taça de Portugal, acabando por regressar ao Leixões no fim da temporada. E em Matosinhos foi fazendo golos em três anos na II Divisão, até que à terceira época ajudou a garantir o regresso da equipa ao escalão principal, ao terminar a Zona Norte em segundo lugar, com os mesmos pontos do Famalicão. Penteado pôde finalmente vestir a camisola do Leixões, o clube mais importante da sua carreira, na I Divisão, tendo feito o melhor campeonato de sempre. Foram dez golos, incluindo um hat-trick ao Sp. Espinho (4-0, a 29 de Janeiro de 1989), mas nem assim a equipa de Matosinhos conseguiu a manutenção. António Morais saiu após a derrota em casa com o Belenenses, em Março, e nem Nicolau Vaqueiro nem António Jesus, que o substituíram, foram capazes de obter melhor que o 19º lugar final.

Penteado ainda fez mais duas épocas na I Divisão, ao serviço do Beira Mar. Na primeira ainda foi o melhor marcador da equipa, com sete golos. Bisou frente ao FC Porto no último dia de campeonato, a conseguir um empate a duas bolas nas Antas que atenuou o clima de festa para os azuis-e-brancos, que naquela tarde celebravam a conquista do título nacional. Menos utilizado em 1990/91, optou por regressar à II Divisão. Tinha 32 anos quando assinou pela Ovarense, tendo feito o último do seus 31 golos no escalão principal a 5 de Maio de 1991. Assegurou aos 89 minutos uma vitória por 3-2 sobre o Tirsense depois de sair do banco para jogar o derradeiro quarto-de-hora. Penteado ainda entrou em mais duas partidas de campeonato, tendo-se despedido em Aveiro, contra o Sporting (derrota por 1-0), a 19 de Maio, como suplente utilizado. Antes do final da época ainda teve a oportunidade de entrar mais uma vez, para jogar 20 minutos da final da Taça de Portugal, contra o FC Porto: foi a 2 de Junho, dois dias antes de fazer 33 anos, que depois do 3-1 favorável aos portistas que Vítor Urbano o chamou para substituir Sousa, outro ex-portista. O resultado, porém, já não se modificou.

Depois de uma época na Ovarense, Penteado ainda marcou presença no começo da caminhada que levou o Leça da II Divisão B à I Divisão e jogou ainda no Lusitânia de Lourosa e no Esposende, antes de se retirar com a camisola do Souselo, no distrital de Viseu. Penteado tirou o curso de treinador e ainda liderou algumas equipas dos escalões secundários, mas desistiu do futebol em 2004, quando conseguiu um emprego como vigilante do Museu de Serralves, no Porto.