TInha um adversário de predileção: o FC Porto, a quem roubou pontos em todos os anos que passou na I Divisão. Reserva no Benfica e na Académica, jogou no Barreirense e no Montijo antes de se impor como pilar no Estoril
2016-06-03

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1966

Guarda-redes seguro e regular, Abrantes teve de esperar uma eternidade até se afirmar. Não tivesse ele crescido numa era em que os jogos de reservas tinham mais importância do que alguns desafios de campeonato de hoje em dia e talvez a ligação que manteve com o Benfica até aos 24 anos lhe tivesse custado a carreira, por falta de rotinas. Como assim foi, ainda teve direito a um período de aclimatação à alta competição até chegar ao Estoril. Foi ali, na Amoreira, que, com 30 anos, se tornou um dos melhores guarda-redes da sua geração.

Natural de Monforte, Manuel Abrantes começou a defender nas camadas jovens do Portalegrense. Dali chegou ao Benfica, onde a visibilidade lhe permitiu ser internacional júnior. O problema era o passo seguinte. Promovido à primeira categoria por Fernando Riera em 1966, com apenas 18 anos e na sequência do Mundial em que meia-equipa benfiquista brilhou a grande altura, teve a sorte de apanhar o período de transição que se seguiu ao abandono de Costa Pereira. Mesmo assim, entre Nascimento e Melo e o aparecimento do jovem José Henrique não teve muitas oportunidades para jogar. Na primeira época no plantel sénior só esteve entre os postes da equipa principal uma vez, a 4 de Novembro de 1966, para uma vitória por 3-0 sobre a Ovarense, na Luz. Como a primeira mão tinha acabado com um robusto 6-0 para os encarnados, Riera deu repouso a todos os titulares, fazendo alinhar um onze de segundas escolhas.

Alguns não voltaram a jogar pelo Benfica; outros, como Malta da Silva ou Diamantino, afirmaram-se; Abrantes ficou no limbo. Manteve-se no clube, mas só voltou a jogar em Fevereiro de 1969, quando foi chamado por Otto Glória para outro jogo da Taça de Portugal, desta vez contra o U. Almeirim. Os encarnados ganharam por 9-0 e, mesmo não jogando mais nessa época, isso serviu-lhe para contabilizar essa Taça de Portugal na sua folha de troféus, pois o Benfica ganhou a final à Académica (2-1). E foi precisamente em Coimbra que o guardião alentejano optou por seguir com a carreira, em busca de competição. Só que nem a conturbada época de 1969/70, com quatro homens a serem sucessivamente utilizados entre os postos por Francisco Andrade e depois Juca – Cardoso, Viegas, Brassard e Maló – lhe valeu de algo. Abrantes entrou pela primeira vez em campo a 19 de Abril de 1970, substituindo Cardoso logo aos 4 minutos de jogo de uma vitória por 4-0 frente ao U. Tomar com que os estudantes encerraram o campeonato. Manteve depois a titularidade para os jogos dos oitavos-de-final da Taça de Portugal, frente ao Sporting, nos quais sofreu os primeiros golos da carreira de sénior: Marinho, que haveria de ser seu colega no Estoril uma década mais tarde, foi o primeiro a batê-lo.

O facto de ter feito os últimos três jogos da época podia fazer pensar que ia impor-se na equipa. Mas não. Juca escolheu Melo para defender as redes da Académica em 1970/71, mais um ano que o alentejano passou sem jogar e que o levou a regressar ao Benfica para mais do mesmo. José Henrique era o preferido de Jimmy Hagan e, após mais uma época passada nas reservas, Abrantes aceitou ser moeda de troca na transferência de Bento do Barreirense para o Benfica. E nessa altura começou verdadeiramente a carreira. Aos 24 anos, pôde jogar com continuidade. Abrantes falhou apenas uma partida em toda a época do Barreirense – a derrota por 3-2 em casa com o V. Setúbal – participando nomeadamente num empate a zero com o FC Porto no D. Manuel de Melo que deu início a uma tradição: a de que jogava enormidades sempre que defrontava os azuis e brancos em casa. A troca de treinador – Carlos Silva por Sousa Arantes, que em Novembro de 1973 foi substituído por Juca – não afetou a posição de Abrantes, que fez todos os minutos da época de 1973/74. Não foi capaz, porém, de assegurar a permanência da equipa na I Divisão. Mesmo tendo mantido as redes virgens na receção ao Benfica (0-0, a 23 de Dezembro de 1973) e na visita ao FC Porto (0-0, quatro dias antes da revolução de Abril de 1974). Na última jornada, o Barreirense recebia o Sporting com a obrigação de pontuar para não descer. Só que os leões precisavam de ganhar para assegurar o título nacional. A derrota por 3-0, somada ao empate do Olhanense com a Académica e às vitórias do Leixões (2-0 ao FC Porto) e do Beira Mar (3-1 ao Farense) custou a queda na II Divisão à equipa da margem sul.

Abrantes passou então dois anos no escalão secundário. No primeiro andou perto da subida – o Barreirense foi segundo na Zona Sul, mas perdeu a hipótese de promoção para o Beira Mar na Liguilha. No segundo, a sua única experiência a Norte, fez uma temporada tranquila a meio da tabela com o Sp. Espinho. Ele tinha, no entanto, valor para mais, pelo que foi chamado para o plantel que José Moniz formou no Montijo. Com a concorrência de Delgado, ex-júnior do Sporting que mais tarde viria a experimentar também longos períodos de inatividade no Benfica, só perdeu a baliza na sequência de uma lesão, no Bessa, frente ao Boavista, a 19 de Dezembro, recuperando-a depois quando o jovem substituto se lesionou também, nas Antas, frente ao FC Porto, em finais de Fevereiro. Nem os dois, contudo, conseguiram manter o Montijo na I Divisão, apesar dos empates em casa com FC Porto e Sporting, ambos com Abrantes nos postes. A última jornada voltou a ser aziaga: o Montijo precisava de ganhar ao Portimonense para assegurar a Liguilha, mas não foi além de um empate a duas bolas e desceu diretamente para não mais voltar ao convívio dos grandes. Abrantes voltou então ao Barreiro, onde fez parte da equipa que ganhou a Zona Sul da II Divisão em 1977/78, mas finda a temporada, já com 30 anos, assinou pelo Estoril, equipa que todos os anos lutava pela manutenção.

Começava aqui a melhor fase da carreira do guarda-redes alentejano. Sempre titular durante seis anos, transformou-se num dos pilares da equipa canarinha. Começou a primeira época no Estoril como suplente de Ruas mas ganhou o lugar para não mais o perder logo à terceira jornada, contribuindo com tardes de glória para a 11ª posição que a equipa alcançou na tabela. Foi o caso dos empates com o Sporting e o FC Porto em casa, para o campeonato, e dos 3-0 com que o Estoril eliminou o FC Porto (que haveria de se sagrar bicampeão nacional meses depois) da Taça de Portugal, a 14 de Janeiro de 1979. O FC Porto, aliás, sentia sempre dificuldades com ele, como voltou a ver-se no 0-0 de Novembro de 1979, porventura decisivo para que Abrantes tenha voltado a usar a camisola de uma seleção nacional, dias depois. Aconteceu na entretanto extinta seleção B, frente à Áustria, em Évora (derrota por 2-1). No final da época, porém, apesar de ter a quinta defesa menos batida do campeonato – e Abrantes jogou todos os minutos – o Estoril ficou em 14º lugar da tabela, acabando por descer de divisão.

O regresso foi conseguido logo à primeira tentativa, através da vitória na Zona Sul, valendo a Abrantes mais três épocas como titular no escalão principal. Em 1981/82 voltou a empatar com o FC Porto na Amoreira e falhou apenas um jogo, falhando apenas uma partida em toda a época, que os canarinhos concluíram no 12º lugar. A equipa melhorou uma posição em 1982/83, época na qual Abrantes voltou a estar entre os postes em novo empate caseiro com o FC Porto. Aliás, regressou à competição precisamente para esse jogo, depois de cinco semanas de ausência devido a uma lesão contraída frente ao Varzim, logo no início de um jogo na Póvoa. E esse jogo com o FC Porto teve história, pois Abrantes defendeu um penalti de Gomes, mas com Vítor Madeira – que marcara o golo do empate estorilista e tinha sido expulso por protestos na sequência do penalti – ainda em campo. Os portistas protestaram, pediram a repetição do penalti, mas Graça Oliva acabou por deixar seguir o jogo, ao que consta depois de Abrantes lhe ter dito algo como: “Ninguém reparou. Ele não fez diferença nenhuma. E o FC Porto é melhor do que nós. Por isso siga lá com o jogo”. Assim foi e o 1-1 já não saiu do placar, ajudando a manter a invencibilidade de Abrantes nas receções ao FC Porto. E nem em 1983/84, época marcada por nova despromoção do Estoril, os azuis e brancos voltaram a ganhar-lhe em sua casa: o último jogo de Abrantes frente ao FC Porto no Estoril, a 22 de Janeiro de 1984, acabou em novo empate a zero. O alentejano ainda fez mais três jogos na Taça de Portugal e seis no campeonato – entre as quais um empate com o Benfica na Luz – antes de defender a última baliza na I Divisão. Aconteceu a 9 de Março de 1984, num 4-2 ao Varzim na Amoreira. Até final cedeu as redes a Paulino, mas os canarinhos já não saíram debaixo da linha de água, acabando mesmo por cair na II Divisão.

Abrantes ainda passou mais um ano na II Divisão, no Estrela da Amadora, antes de se retirar. Funcionário do Casino Estoril, manteve-se ligado ao futebol sobretudo graças à atividade de correspondente do jornal Record na zona do Estoril.