Carlos Cardoso esteve nos tempos de glória do super-Vitória europeu mas também na época de crise desportiva que se seguiu à falência económica do distrito de Setúbal. É uma referência do clube.
2015-12-29

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1965

A história de Carlos Cardoso é uma história de dedicação ao V. Setúbal, o clube do coração que este sadino serviu como jogador e treinador durante mais de 40 anos e do qual é ainda uma referência viva. Esteve nos tempos de glória do Super-Vitória europeu e das finais sucessivas da Taça de Portugal, mas também na época de crise desportiva que se seguiu à falência económica do distrito de Setúbal, na década de 80. Poucos saberão mais do que é ser Vitória do que este antigo defesa lançado na equipa principal verde e branca aos 19 anos pelo mestre Fernando Vaz e consolidado mais tarde por outro mago do banco, José Maria Pedroto.

A época de 1963/64 não tinha sido muito famosa em Setúbal. Em Março, porém, despedido pelo Belenenses, regressou ao clube Fernando Vaz, o treinador que conseguira a subida de divisão dois anos antes. A classificação já não melhorou muito, mas Vaz começou desde logo a lançar os jovens jogadores que haveriam de tornar o Vitória num par dos grandes durante mais de uma década. A 9 de Maio de 1964, já o campeonato tinha acabado, numa deslocação a Alvalade para defrontar o Sporting, na segunda mão da terceira eliminatória da Taça de Portugal, o treinador lembrou-se de Cardoso para a lateral-esquerda. O Vitória, que tinha empatado a duas bolas em casa, voltou a empatar, mas agora a zero. E, ainda com Cardoso no onze, ganhou o desempate em Évora, semana e meia mais tarde, porque ainda não se aplicava a regra dos golos fora de casa. A juntar aos dois jogos dos quartos-de-final, perdidos para o Belenenses – ex-clube de Vaz – Cardoso ainda alinhou quatro vezes pelo Vitória neste final de época. A estreia no campeonato, porém, Vaz só lha deu à terceira jornada da época seguinte, uma vitória por 2-1 em Guimarães.

Nessa época, os sadinos ganharam as primeiras quatro jornadas, e apresentaram-se em Alvalade, à quinta, no primeiro lugar da classificação. Com Cardoso no onze, o Vitória perdeu por 3-2. Novo desaire, desta vez no Barreiro, contra a CUF, à sétima jornada (0-3) custou a liderança – que passou para o Benfica – e a derrota que se seguiu, em casa com a Académica (1-2, de virada) levou o treinador a sacrificar o novo recruta. Cardoso só voltou às escolhas do técnico em meados de Fevereiro, mas desta vez para ficar. Titular nas últimas nove jornadas, nas quais o Vitória só perdeu duas vezes – com Benfica e FC Porto – fez também toda a ponta final da Taça de Portugal, incluindo mais um épico de três jogos que conduziram à eliminação do Sporting, na meia-final (2-2, 1-1 e 2-0 no desempate no Restelo) e a final, ganha ao Benfica, por 3-1. Seria a primeira de quatro finais da Taça de Portugal consecutivamente jogadas pelo V. Setúbal: Cardoso só jogou a primeira e a quarta, perdida para o FC Porto de Pedroto em 1968, mas participou também na campanha que conduziu à terceira, ganha à Académica em 1967.

No regresso de férias, em 1965, Cardoso continuou a ser aposta de Fernando Vaz, mas sobretudo para atuar a meio-campo. Em Agosto teve a estreia internacional, alinhando na derrota do Vitória na Dinamarca, frente ao Aahrus (1-2), na primeira eliminatória da Taça das Taças. A 26 de Setembro, marcou o seu primeiro golo na Liga, à Académica, mas numa derrota por 4-1 que acentuava um difícil início de época para os sadinos. O campeonato, ainda assim, acabou no quinto lugar e as fichas dos sadinos foram todas para a Taça de Portugal, onde a equipa voltou a atingir a final: Cardoso defrontou o Famalicão e o Marítimo (duas vitórias por 3-0, com um golo em nome próprio na primeira), mas não esteve na fase decisiva. Era o início de um período de menor utilização – fez apenas cinco jogos em 1966/67, mais um contra o Sintrense, que lhe permitiu incluir o nome entre os vencedores da Taça de Portugal, mesmo não tendo estado na final com a Académica. Só no início de 1968, Vaz devolveu Cardoso à linha defensiva, agora como central, abrindo-lhe caminho para uma década de grande afirmação no clube. A 7 de Janeiro, na derrota frente ao Sporting, em Alvalade, por 1-0, tornou-se indiscutível: entre campeonato e Taça de Portugal, esteve nos 25 desafios até final da época, o último dos quais a derrota com o FC Porto no Jamor, por 2-1, na tal quarta final da Taça seguida. E em 1968/69 manteve o estatuto de intocável: o Vitória foi quarto na Liga e jogou duas eliminatórias da Taça de Portugal e quatro da Taça UEFA e Cardoso só falhou um dos 36 jogos (o empate em casa com o Benfica), por lesão sofrida na jornada anterior. Em resultado dessa regularidade chegou mesmo à seleção nacional. A 10 de Dezembro de 1969 fez dupla de centrais com o sportinguista José Carlos num amigável com a Inglaterra em Wembley (derrota por1-0) que Portugal enfrentou com maioria sadina: além de Cardoso estavam no onze Conceição, Tomé, Guerreiro e Jacinto João.

Meses antes chegara a Setúbal Pedroto, que se desentendera com a direção do FC Porto. A mudança de técnico não afetou o estatuto de Cardoso, que nas duas primeiras épocas com o novo treinador faltou a apenas dois jogos, entre campeonato, Taça de Portugal e Taça UEFA: a vitória no Barreiro, contra a CUF, na última jornada de 1969/70 e a segunda mão da meia-final da Taça de Portugal de 1970/71, perdida com o Sporting em Alvalade, por 1-0. O segundo lugar no campeonato de 1972, os terceiros em 1970, 1973 e 1974 e o quarto em 1971 faziam do Vitória uma força imponente no futebol nacional, mas eram as proezas europeias que mais impressionavam. As eliminações do Lyon e da Fiorentina (1968/69), do Liverpool (1969/70), do Anderlecht (1970/71), do Spartak Moscovo (1971/72) e outra vez da Fiorentina e do Inter Milão (1972/73) deram muito que falar numa altura em que os clubes portugueses estavam a começar a perder influência uefeira – entre 1968 e 1983 passaram 15 anos, o mais longo período de sempre sem uma presença portuguesa numa final europeia. A saída de Pedroto, em Dezembro de 1973, após uma vitória sobre o Benfica na Luz, por “razões políticas”, levou a uma mudança de paradigma. José Augusto liderou a equipa até final dessa época e no início da seguinte, sendo substituído por José Torres e, nas duas últimas jornadas de 1974/75, pelo próprio Carlos Cardoso, que teve a estreia como treinador de I Divisão a 4 de Maio de 1975, aos 30 anos, escalando-se a si próprio para um jogo que resultou numa vitória em Faro, frente ao Farense, por 1-0.

O futuro de Cardoso – que passara a juntar Carlos ao nome de guerra por força da entrada na equipa de João Cardoso – estava ali. Com Mário Lino e Fernando Vaz ainda fez duas épocas completas e muito preenchidas. Voltou a marcar um golo no campeonato – e desta vez decisivo, pois sucedeu numa vitória por 2-1 sobre o Benfica, após passe de Jaime Graça – a 3 de Outubro de 1976 e despediu-se da tarefa de jogador a 29 de Maio de 1977, numa vitória por 3-1 no terreno do Estoril com que o Vitória assegurou que acabava a época em sexto lugar. No regresso do campeonato já era membro da equipa técnica de Fernando Vaz, que acabou por substituir em Janeiro do ano seguinte, após uma derrota em Braga por 5-0. O remanescente dessa época constituiu a segunda de várias experiências de Carlos Cardoso à frente do V. Setúbal, mas seria errado pensar que só foi treinador no clube do coração. Passou ainda pelo comando do Barreirense, Nacional, O Elvas, U. Madeira, Benfica de Castelo Branco e Juventude de Évora. A despedida como treinador fê-la em 2009, aos 64 anos, quando sucedeu a Daúto Faquirá em Janeiro e ajudou a salvar o Vitória da descida de divisão. Os tempos em Setúbal, no entanto, estão muito diferentes dos que conheceu em campo.