Golos sobre golos. Yazalde foi um dos maiores goleadores que alguma vez passou pelo futebol português, ganhando uma Bota de Ouro ao serviço do Sporting. Fora de campo, dizem, já não era suficientemente egoista.
2016-05-29

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1970

Yazalde era Chirola, a moeda de pouco valor que recebia em garoto para ajudar os pais a superar uma vida difícil, mas também era o Ouro da Bota que ganhou em 1974, quando marcou 46 golos em 29 jogos de campeonato e deu o título nacional de 1973/74 ao Sporting. A história deste goleador argentino que nasceu no mesmo bairro de lata de Diego Maradona e jogou no mesmo Newell’s que viu nascer Lionel Messi podia ter sido escrita com letras de ouro, mas não foi, porque a vida o puxou sempre para baixo quando ele queria ir para cima. Ainda assim, é recordado como um dos maiores de sempre. Uma máquina de fazer golos como não terá havido muitas no futebol mundial, um goleador que nem no aquecimento facilitava. Quando se preparava para o início dos jogos, fazia sempre o mesmo à primeira bola que lhe passassem no aquecimento: chutava-a para dentro da baliza mais próxima.

Héctor Yazalde foi o sexto filho de Petrona e Pedro, um casal pobre de Villa Fiorito, o mesmo bairro onde década e meia mais tarde viria a nascer Diego Maradona. Quase não teve tempo para ser criança, porque a escola ficava claramente a perder para as necessidades familiares, que levaram o pequeno Héctor a trabalhar desde tenra idade, primeiro como distribuidor de jornais, depois como vendedor de fruta ou de gelo. Vem dessa altura a alcunha “Chirola”, porque eram essas moedas de 20 centavos que levava para casa. Ao mesmo tempo, sempre que podia, entretinha-se com os amigos nas peladas de bairro. Um dia foi com o amigo Horacio Aguirre ao treino do Piraña, o clube mais ou menos organizado onde este jogava. Pediu emprestado um equipamento, treinou também e já não o deixaram ir embora sem ele assinar um contrato pelo qual lhe pagaram dois mil pesos. Era o que ganhava num mês na sua atividade normal.

Melhor marcador do Piraña durante dois anos, motivou a cobiça dos grandes de Buenos Aires. Ele gostava do Boca Juniors, mas foi o Independiente quem ganhou a corrida pelo seu concurso: em 1967 contratou-o, passando a pagar-lhe 30 mil pesos ao mês para jogar no campeonato de terceiras categorias. Yazalde ainda fez um par de jogos nessa equipa de reservas, mas depressa o treinador Osvaldo Brandão o passou aos titulares, acabando por contribuir com dez golos para a campanha que terminou com o Independiente no topo da tabela do campeonato nacional. O primeiro golo fê-lo logo à terceira jornada, a 24 de Setembro de 1967, numa vitória por 2-1 sobre o Platense, sendo o hat-trick ao Lanús, uma semana depois, um autêntico o trampolim para a fama. E muitos outros golos se seguiram, a ponto de 1968 o “Chirola” ter chegado à seleção nacional. Estreou-se em Belo Horizonte, lançado por Jose Maria Minella num jogo particular com o Brasil, que os argentinos perderam por 3-2, figurando no ano seguinte na desilusão que foi a eliminação argentina do Mundial de 1970, ao qual compareceu antes o Peru de Cubillas.

Yazalde continuou a marcar golos sobre golos. Foi dele, por exemplo, o golo decisivo no campeonato metropolitano de 1970, a valer uma vitória por 3-2 sobre o Racing Avellaneda, a dez minutos do fim da última jornada. Ao mesmo tempo, o River Plate goleava o Union Santa Fé, mas a vitória dos vermelhos chegava para garantir o troféu, que voltaram a ganhar em 1971, nessa altura já sem o seu principal goleador. Muito cobiçado por clubes sul-americanos e europeus, Yazalde acabou por deixar-se convencer por Abrãao Sorin, o emissário do Sporting que em Janeiro de 1971 se deslocou de São Paulo, onde estava de férias, a Buenos Aires, com a ideia de o contratar. Os leões ofereceram ao jogador um valor exorbitante (4200 contos), tiveram de pagar mais quase outro tanto ao clube argentino (3200 contos), mas asseguraram a viagem do goleador, que chegou a Lisboa em Fevereiro. Já não jogou nesse campeonato, que o Sporting acabou em segundo lugar, a três pontos do Benfica, limitando-se a fazer um jogo de apresentação contra os franceses do Red Star. A estreia oficial fê-la a 12 de Setembro de 1971, na primeira jornada do novo campeonato. O adversário era o Boavista, no Estádio José Alvalade, e, entalado entre Chico Faria e Dinis, o argentino fez logo dois golos na vitória leonina por 4-1. O primeiro, em recarga ao extremo esquerdo angolano, levou apenas 5 minutos.

Autor de cinco golos nas primeiras seis jornadas desse campeonato – nas quais os leões obtiveram outras tantas vitórias – e de mais três no duplo confronto com os noruegueses do Lyn, da primeira eliminatória da Taça das Taças, Yazalde parecia ter feito uma adaptação perfeita à nova realidade. E no entanto, a chama apagou-se. Depois da épica eliminação europeia da Taça das Taças – com um 4-3 ao Glasgow Rangers, em Alvalade, e um desnecessário desempate por penaltis, fruto de um erro do árbitro na interpretação da recente regra dos golos fora – em inícios de Novembro, o argentino só fez mais quatro golos até final da época. Contavam as más línguas que o balneário não o tinha acolhido da melhor forma e que Fernando Vaz, o treinador, não conseguia impor as suas ideias. A chegada do britânico Ronnie Allen, porém, e o afastamento dos patrões da cabina, chegaram para mudar essa realidade. Em 1972/73 os adeptos leoninos já puderam ver render o seu goleador, que marcou em todos os jogos das primeiras seis jornadas e desta vez não perdeu gás. Finda a época, Yazalde somou 19 golos no campeonato, juntou-lhes sete na Taça de Portugal – incluindo um na final, ganha por 3-2 ao V. Setúbal – e outro na Taça das Taças, da qual o Sporting foi afastado logo à primeira pelos escoceses do Hibernian. O melhor, no entanto, estava para vir, com a extraordinária temporada de 1973/74.

Numa altura em que os portugueses só associavam as Botas de Ouro a Eusébio, foi Yazalde quem se sagrou melhor marcador europeu. Com 46 golos em 29 partidas de campeonato, foi a força principal que levou o Sporting à conquista da prova: fez seis golos num 8-0 ao Montijo; cinco noutros 8-0 ao Oriental; quatro num 7-0 à mesma equipa, mas em Marvila; e marcou ainda dois hat-tricks, ao Barreirense e à CUF. Marcou ainda quatro golos na Taça das Taças, sendo a sua ausência nos jogos das meias-finais, contra o Magdeburgo, a razão principal para a eliminação leonina. E só não conquistou a dobradinha, porque estranhamente não esteve presente em nenhum dos jogos que levaram o Sporting até à final, ganha por 2-1 ao Benfica numa altura em que o Chirola já estava em estágio com a seleção argentina para jogar o Mundial de 1974. Nos relvados da RFA, o Bota de Ouro ainda marcou dois golos, mas a Argentina não foi feliz. Ainda assim, Yazalde teve a oportunidade de dar logo aí o salto para um dos grandes campeonatos da Europa: o Real Madrid ofereceu 25 mil contos pelo seu passe. João Rocha, que tinha sido eleito no início da época anterior, sabia que o sucesso passava pela manutenção do jogador, pelo que fez um esforço monumental para que ele renovasse o contrato – o que conseguiu em finais de Agosto, uma semana antes de começar o novo campeonato.

Uma das cedências feitas por Rocha tinha sido a contratação de um treinador do agrado do seu jogador-estrela: a Alvalade chegou o também argentino Alfredo Di Stéfano, glória do Real Madrid, que no entanto nunca esteve a 100 por cento no cargo até ser demitido, antes mesmo de o campeonato arrancar. E apesar de mais 30 golos de Yazalde – dois póquers, ao Atlético e ao Leixões, de caminho – o Sporting voltou a acabar o campeonato em terceiro lugar. Finda a temporada, tornou-se impossível resistir: a instabilidade do Portugal de 1975 levou João Rocha a aceitar os 12500 contos que o Ol. Marseille pagou pelo melhor goleador de Portugal. Yazalde despediu-se do Sporting ainda sem o saber, exatamente contra o mesmo adversário que tinha defrontado na estreia: o Boavista, que a 30 de Maio de 1975 bateu os leões por 1-0, no Bessa, em partida das meias-finais da Taça de Portugal. Os últimos golos, o Chirola tinha-os marcado dois dias antes, fazendo um bis num jogo de desempate dos quartos-de-final em que a equipa verde-e-branca derrotou o U. Tomar por 5-0.

Em Marselha, Yazalde ainda jogou mais ano e meio, ganhando uma Taça de França, antes de regressar à Argentina em inícios de 1977, para vestir a camisola vermelha e negra do Newell’s. Ali fez ainda cinco anos de nível muito razoável, encerrando a carreira em 1982 no Huracán. O final da carreira, somado ao divórcio de Carmen – atriz portuguesa, nascida Maria do Carmo da Ressurreição de Deus, que conheceu num anúncio de sabonetes e com quem casou em 1973 – fizeram-no cair num turbilhão negativo do qual nunca conseguiu sair. Hector Yazalde, que tinha sido um goleador imponente, acabou um farrapo, vindo a falecer, vítima de cirrose hepática com apenas 51 anos. Na altura tentava fazer vida como empresário de jogadores – foi ele quem trouxe, por exemplo, o também argentino Sérgio Saucedo para o Sporting, na década de 80 – mas no mundo dos negócios era preciso ser implacável e ele só sabia sê-lo na área. Fora de campo, dizem, era uma joia de homem, um coração de ouro, que dava aos outros o que não tinha sequer para ele. Basta ver o que fez com o carro de luxo que recebeu para assinalar a conquista da Bota de Ouro: vendeu-o e dividiu o dinheiro por todos os colegas de equipa.