Na II Divisão, a rapidez e o faro de golo levaram a que lhe chamassem Nené. Quando chegou ao topo, as lesões dificultaram-lhe a afirmação no Boavista, mas ainda foi importante no Rio Ave e no Salgueiros
2016-05-28

1 de 6
1976

Chegou tarde à I Divisão e para lá chegar teve de se desenraizar. Homem do Norte, nascido e criado em Rio Tinto, nunca teve oportunidades para se mostrar na sua zona, o que o levou a exilar-se no Alentejo profundo, no Estrela de Portalegre. José Maria Pedroto, que regressara ao FC Porto para mudar o clube, quis ir busca-lo, mas José Manuel escolheu o Boavista, onde ganhou uma Taça de Portugal mas onde as lesões sucessivas nunca lhe permitiram grande continuidade. Rio Ave e Salgueiros ainda lhe aproveitaram a rapidez e o faro goleador numa carreira que se extinguiu aos 36 anos já como extensão em campo de Mário Reis, o treinador com quem passou a trabalhar na sequência do abandono.

José Manuel jogava no Rio Tinto, nos regionais do Porto, quando o convenceram a mudar-se para Portalegre. O Estrela jogava na segunda divisão nacional e pagava oito vezes mais, pelo que, já com 20 anos, José Manuel nem olhou para trás. À segunda época a meio da tabela começou a fazer falar dele na sequência de um jogo épico, ganho ao Caldas – que liderava – por 8-0. Chamavam-lhe Nené, porque fazia lembrar o avançado do Benfica. Ainda ficou na equipa orientada por Mourinho Félix por mais uma temporada, trocando o lugar de extremo-direito por uma vaga a meio-campo, e nela a equipa alentejana até andou a batalhar pela subida de divisão até ao fim. A derrota no dérbi de Portalegre, com o Portalegrense, na penúltima jornada, custou a perda do primeiro lugar para o Feirense e, depois, a liguilha também não correu a contento. Sendo um dos pilares da equipa.no entanto, José Manuel deu o salto: Pedroto foi vê-lo, pediu-lhe que ele passasse pelas Antas, para assinar pelo FC Porto, mas o jogador acabou por assinar pelo Boavista, onde deu entrada em 1977, com 23 anos.

No Bessa, Fernando Caiado começou a época com ele a titular. Estreou-se a 4 de Setembro de 1977, numa derrota por 3-1 com o Varzim, mas a chegada de Albertino acabou por custar-lhe a vaga: só voltou a jogar de início a 14 de Maio de 1978, numa deslocação a Santa Maria da Feira, onde até fez o seu primeiro golo na I Divisão, numa vitória por 4-1 sobre o Feirense. Ficou, ainda assim, no plantel para a temporada seguinte, onde já jogou mais, participando em 13 jogos de campeonato e em mais quatro na campanha que levou os axadrezados à vitória na Taça de Portugal. Não entrou em campo na final nem na finalíssima com o Sporting, mas de caminho ainda fez um golo, na difícil vitória em Paredes (2-1), nos 1/32 final. O que mostrou, porém, não chegou para ficar no plantel, forçando-o a mais dois anos na II Divisão, ao serviço do Amarante. E só quando Mourinho Félix levou o Rio Ave à I Divisão se lembrou dele e do que ele lhe dava quando tinham estado juntos em Portalegre. Aos 27 anos, José Manuel estava de regresso.

Em Vila do Conde, a jogar à direita do meio-campo, viveu algumas das melhores experiências da sua carreira: esteve na vitória sobre o Benfica (1-0), no empate com o Sporting (0-0) e na vitória (2-1) sobre o FC Porto nas Antas, resultados que ajudaram a levar o Rio Ave ao quinto lugar na tabela, transformando os vila-condenses na equipa-sensação da época. José Manuel pôde assim regressar ao Boavista, mas a conjunção de algumas lesões com a inconstância da época seguinte no Bessa – quatro treinadores – impediram-no de se afirmar. A segunda passagem pelo Boavista não foi mais feliz do que a primeira, mas por alguma razão o treinador, Henrique Calisto, o levou com ele em 1984 quando assinou pelo Salgueiros. E em Vidal Pinheiro o gondomarense foi finalmente um dos elementos preponderantes na equipa: tirando dois meses, entre meados de Novembro e meados de Janeiro, foi sempre titular, tendo feito quatro golos. Mesmo tendo um desses golos sido em Alvalade, ao Sporting, não terá sido tão importante como o que marcou na última jornada, em Vidal Pinheiro, ao Farense, a 31 de Maio de 1985: a nove minutos do fim, aproveitou um passe de Joy e colocou os salgueiristas a ganhar por 2-1, abrindo as portas da manutenção, que a equipa conseguiu in-extremis, com os mesmos pontos do Rio Ave e mais um do que os algarvios, que acabaram por descer. José Manuel ainda fez mais três épocas no Salgueiros, acabando por se revelar impotente para ajudar a equipa a evitar a despromoção em 1988. A 2 de Junho desse ano marcou a Damas o seu último golo na I Divisão, numa derrota por 4-2 frente ao Sporting, em Vidal Pinheiro, tendo-se despedido do escalão três dias depois, substituindo Rui França a 23 minutos do fim de novo desaire, desta vez em Elvas, por 3-0, num jogo entre condenados.

Aos 34 anos, José Manuel regressou ao Rio Ave, que estava na II Divisão e era agora treinado por Mário Reis, seu antigo colega como jogador do clube. Ainda seguiu com Reis para o Felgueiras, antes de assumir um lugar na equipa técnica do homem que acabou por levar o Boavista a ganhar uma Taça de Portugal. Ao fim de 13 anos como adjunto, descalçou definitivamente as chuteiras. José Manuel é hoje observador, indica jogadores a vários clubes, na expectativa de vir a constituir-se intermediário nalguma transferência, acompanhando ainda a carreira do filho, Cuco, que chegou a jogar no Sporting B, a alinhar na I Divisão com as camisolas do Santa Clara e do Rio Ave e a emigrar para um clube de Chipre.