Avançado nos juniores, quarto-defesa quando subiu aos seniores, Lanzinha nunca foi sequer advertido por um árbitro e tem uma medalha federativa que o atesta. Sempre com as cores do Sp. Covilhã.
2016-05-27

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1952

Um exemplo de correção, João Lanzinha chegou a capitão do Sp. Covilhã, o clube que só não foi de uma vida inteira porque a meio do trajeto o serviço militar obrigatório o mandou para Tavira e ele jogou uma época no Farense. À falta de títulos coletivos – foi campeão nacional, mas da II Divisão – orgulha-se de uma Medalha de Comportamento Exemplar que lhe foi atribuída pela Federação Portuguesa de Futebol por ter passado toda a carreira sem receber sequer uma admoestação dos árbitros. O que não era fácil para quem jogava como quarto-defesa e teve pela frente avançados do calibre de Eusébio ou Hernâni.

Lanzinha sabia bem o que era estar do outro lado. Nos juniores, que foram campeões regionais e não chegaram mais longe na fase final porque foram afastados pela Académica, era ele quem jogava como avançado-centro. Foi em 1950/51 e, um ano depois, quando ele fez 18 anos, Janos Szabó chamou-o ao plantel principal. A estreia fê-la a 30 de Setembro de 1951, num empate caseiro contra o Oriental (0-0), mas já a meio-campo. Nesse campeonato, porém, só jogou mais uma vez, à qual juntou duas partidas contra o Benfica na Taça de Portugal – na segunda fez mesmo a assistência para o golo de Livramento que colocou os serranos a ganhar (2-1) antes de Rogério marcar o golo do empate final. Os primeiros anos de Lanzinha na equipa do Sp. Covilhã foram, de resto, sempre marcados por escassa utilização: em 1952/53 fez mais duas partidas (voltou a não ganhar nenhuma), não participando depois sequer na campanha que levou a equipa de Szabó aos oitavos-de-final da Taça de Portugal; e em 1953/54 repetiu a dose (outra vez sem vitórias).

Foi nessa altura que, chamado para o serviço militar em Tavira, Lanzinha assinou pelo Farense. Teve mais continuidade e a equipa algarvia não ficou longe dos três lugares que davam acesso à fase final da II Divisão e à discussão da subida ao escalão principal: foi quinto, a três pontos do Montijo. E só no momento do regresso à Covilhã, em 1956, começou a assumir-se como opção mais regular para o onze. Titular no início da época de 1956/57, acabou por ser sacrificado a partir de meados de Dezembro, em função do mau momento da equipa do Sp. Covilhã e de forma a acomodar o húngaro Nagy. Mas nem com este o Sp. Covilhã evitou a descida de divisão. E na campanha que culminou com a presença na final da Taça de Portugal, perdida frente ao Benfica, por 3-1, Lanzinha participou em apenas uma partida: a derrota por 4-0 frente ao Lusitano de Évora que quase dava a eliminação precoce mas foi invertida com um vigoroso 7-2 no Santos Pinto.

A época na II Divisão acabou por ser o passaporte de Lanzinha para titularidade do Sp. Covilhã. Com a ideia de que a equipa com ele não ganhava afastada, foi um dos pilares na conquista do título de campeão nacional do segundo escalão e regressou à I Divisão no onze que Janos Zorgo fez e que ganhou por 6-3 ao Caldas. Ainda passou parte da época na reserva, mas reentrou no onze em meados de Janeiro e nele ficou até final da temporada, participando numa série de vitórias – uma delas frente ao Sporting – que levou a equipa do 11º ao oitavo lugar final. E em mais três épocas antes de nova despromoção do Sp. Covilhã foi sempre titular absoluto, falhando apenas uma partida por ano. Destaque para as emoções dúplices que terá sentido na eliminatória da Taça de Portugal contra o V. Setúbal, em Janeiro e Fevereiro de 1960: fez primeiro um autogolo no empate (2-2) em Setúbal, marcando depois ele mesmo o seu primeiro golo como sénior em novo empate (3-3) na Covilhã, de forma a possibilitar um terceiro jogo, em Coimbra, que os serranos ganharam por claros 5-1.

Ao nono lugar de 1959/60, o Sp. Covilhã somou um 11º em 1960/61, só assegurando a manutenção no último dia, com uma vitória por 2-1 frente o V. Guimarães – face à surpreendente vitória do Salgueiros frente ao FC Porto no Estádio das Antas, o empate não teria chegado e condenaria a equipa da Covilhã à despromoção. Um destino que acabou por recair sobre os leões da serra em 1962, apesar da súbita descoberta do golo por parte do seu capitão. Lanzinha marcou por duas vezes nesse campeonato: abriu a sua conta no campeonato a 5 de Novembro de 1961, numa recarga que não impediu uma derrota (1-2) caseira com o Lusitano de Évora, e fechou-a a 10 de Dezembro do mesmo ano, num tiro de longe que ajudou a bater o V. Guimarães por 4-2. A 27 de Maio de 1962, no dia em que fez 29 anos, Lanzinha despediu-se da I Divisão com um empate (1-1) frente ao Salgueiros, no Porto.

A despromoção, que já estava certa há duas semanas, abriu um período de mais de duas décadas sem o clube serrano no campeonato principal. Durante esse tempo, Lanzinha chegou a ser treinador dos escalões de formação, abraçando mesmo a função de treinador principal no já extinto Covilhã e Benfica. Aos 83 anos, continua a viver na Covilhã e a seguir o clube do coração.