Quatro vezes campeão no FC Porto, depois de se revelar no Belenenses, viu o seu empresário entrar em guerra com Pinto da Costa e isso valeu-lhe um lugar no plantel do Benfica do seu coração.
2016-05-26

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1992

Defesa central contundente e com uma excelente relação com o golo, fruto da forma como surgia na área nas bolas paradas ofensivas, João Manuel Pinto esteve nos quatro últimos títulos nacionais do histórico “penta” portista antes de entrar em conflito com o clube e de se mudar para o Benfica, pela mão do empresário José Veiga. Na Luz, nem o facto de o clube atravessar um período de “vacas magras” o impediu de chegar a internacional A. Espanha e Suíça completaram-lhe uma carreira que já o levou a ser treinador e dono de uma academia de formação.

O crescimento futebolístico de João Pinto aconteceu na zona oriental de Lisboa, entre o Chelas e o Olivais. Chegou ao maior clube da zona, o Oriental, com idade de júnior, mas rapidamente subiu à equipa principal, na qual Francisco Barão o lançou durante a época de 1990/91. Uma época passada no Campomaiorense levou-o aos radares do Belenenses, que aos 19 anos o contratou para o plantel que ia começar a disputar a I Divisão. O facto de os azuis terem passado boa parte da primeira metade da época colados aos primeiros, com Rui Gregório, Guto e Teixeira a darem boa conta do recado no centro da defesa, foi retardando a aposta de Abel Braga no jovem central, que entrou pela primeira vez em campo a 20 de Dezembro de 1992: Rui Gregório foi expulso e João Pinto foi o escolhido para recompor a defesa, substituindo Luiz Gustavo a 20 minutos do fim de um jogo com o Sporting, que os azuis perderam por 3-0. Como se saiu bem – o Sporting já não marcou com ele em campo – em inícios de Janeiro era titular no esquema de três centrais adotado por Abel Braga. Ainda fez 17 jogos no sétimo lugar da equipa do Restelo, marcando dois golos, ambos no mesmo jogo: um 7-0 ao Famalicão, a 2 de Maio.

A segunda época de João Pinto no Belenenses foi mais atribulada, com a destituição de Abel Braga e a ascensão, primeiro, de José António, antes da chegada de José Romão. Com o alentejano, João Pinto foi perdendo espaço no centro da defesa, passando boa parte do final de temporada como suplente de Guto e Teixeira. Só com a chegada ao Restelo de João Alves, em Outubro de 1994, é que o central lisboeta ganhou o lugar. Titular indiscutível até final da temporada, foi uma das armas na subida dos azuis do 16º ao 12º lugar que ocuparam no final, ainda fez quatro golos – dois deles de penalti – e assinou pelo FC Porto. A entrada no grupo das seleções, que fez através de um jogo das esperanças na Rep. Irlanda, levou a que ao nome de guerra tivesse de acrescentar o “Manuel”, para não se confundir com os outros dois João Pintos.

Nas Antas, porém, as coisas iam ser mais difíceis, tanta era a concorrência que tinha de enfrentar. O FC Porto era campeão nacional e, para a posição de João Manuel Pinto, Bobby Robson contava com Aloísio, Zé Carlos e Jorge Costa. A entrada do lisboeta foi, por isso, paulatina. Estreou-se na ponta final de uma goleada fácil ao Campomaiorense (5-0, em Outubro de 1995), rendendo Zé Carlos já com o resultado final feito. Em Dezembro, frente ao Amora, na Taça de Portugal, foi pela primeira vez titular e estreou-se nas competições europeias, voltando a render Zé Carlos no último quarto-de-hora de um empate (2-2) em Aalborg. Outra vez já com o resultado feito. A partir de Fevereiro, porém, João Manuel Pinto começou a fazer regularmente parte das escolhas de Robson, acabando por contribuir até com alguns golos para o bicampeonato portista e por marcar pontos no planeamento da nova temporada. Em 1996, porém, dá-se a afirmação plena de Jorge Costa, que entre empréstimos e anos de pouca utilização, acabou por ganhar a corrida ao lugar ao lado de Aloísio na defesa montada por António Oliveira. O lisboeta ainda participa no histórico 5-0 do FC Porto ao Benfica na Luz, assegurando a vitória na Supertaça, mas além de um curto período entre Novembro e Dezembro, só a partir de meados de Fevereiro assume verdadeiramente a titularidade na equipa que conquistou o “tri”.

A concorrência nunca permitiu a João Manuel Pinto uma vaga de titular absoluto na defesa do FC Porto, mas a verdade é que ele ia sempre jogando mais de metade das partidas, ganhando em campo o pleno direito a ser considerado campeão. A época de 1997/98, marcada pelo seu terceiro título nacional – quarto seguido do FC Porto – foi mesmo aquela em que teve mais utilização e, ainda por cima, a primeira em que o clube se qualificou para a final da Taça de Portugal com ele no plantel. Escalado por Oliveira como parceiro de Aloísio no centro da defesa que enfrentou o Sp. Braga na final, acabou por ser vítima do seu excesso de agressividade e expulso por Jorge Coroado a meia-hora do final da partida que o FC Porto haveria de ganhar por 3-1. Não necessariamente por causa da expulsão, esse jogo acabou por marcar a viragem na carreira de João Manuel Pinto nas Antas: em 1998/99, com Fernando Santos, já foram mais as vezes em que ficou no banco do que aquelas em que entrou no onze. As 16 presenças ainda lhe chegaram para mais um título nacional, mas esse já era uma época de conflito aberto entre José Veiga e Pinto da Costa, respetivamente o empresário de João Manuel Pinto e o presidente do FC Porto. O resultado imediato foi uma época de 1999/00 quase sem jogar para o central lisboeta: só foi uma vez titular no campeonato, num 2-1 em casa ao V. Guimarães, alinhando ainda 16 minutos na Taça de Portugal, contra o Fafe, nos quartos-de-final, o que lhe permitiu somar mais esse troféu ao seu currículo.

Finda a temporada, com Veiga a trabalhar mais com o Sporting e com o Boavista, João Manuel Pinto foi forçado a cumprir o último ano de contrato a treinar na equipa B. Em 2001, quando o seu empresário se juntou a Luís Filipe Vieira na gestão do futebol do Benfica, mudou-se para a Luz, concretizando um sonho de criança – sempre foi benfiquista. Em dois anos na Luz não ganhou mais competições, mas pode orgulhar-se de ter sido escolha regular de Jesualdo Ferreira e de estar entre os capitães do início do processo de recuperação do clube, após o período de João Vale e Azevedo. Acabou por cair quando Jesualdo caiu também – num fatídico jogo na Luz com o Gondomar, que marcou a eliminação do Benfica pela modesta equipa da II Divisão B, em Novembro de 2002. Dois meses antes, em Setembro, Agostinho Oliveira tinha-lhe dado a primeira (e simultaneamente única) internacionalização pela seleção A, fazendo-o entrar ao intervalo num empate a uma bola frente à Inglaterra, em Birmingham. Na sequência do escândalo-Gondomar, Jesualdo deu o lugar a Chalana – e depois a Camacho – e João Manuel Pinto passou a terceira escolha para o centro da defesa, cedendo a vaga a Argel. Até final da época ainda fez o último dos seus 20 golos na I Divisão, a 15 de Março de 2003, depois de substituir Nuno Gomes a oito minutos do final de 4-1 à Académica, em Coimbra. A despedida da competição fê-la a 3 de Maio, como titular, numa derrota por 2-1 com o Sporting no Estádio Nacional – porque a Luz estava em obras.

Aos 30 anos, João Manuel Pinto optou finalmente pela vida de emigrante. Ainda passou um ano em Espanha, num Real Murcia que acabou por descer de divisão, seguindo depois para a Suíça, onde assinou pelo Sion. Ali chegou também a capitão de equipa, ganhando uma Taça da Suíça em 2006, antes de enveredar pela carreira de treinador da equipa de sub21 daquele clube. Desde que voltou a Portugal, João Manuel Pinto fixou-se em Tarouca, já treinou o Cinfães, empenhou-se na criação de uma academia de futebol com o seu nome e está prestes a abraçar um novo projeto, a partir da nova época.