Mané tinha habilidade, velocidade e um pontapé canhão que fez as delícias dos adeptos de Boavista, V. Guimarães e Sp. Espinho. Em seis anos, ganhou duas Taças de Portugal e nunca foi pior que sétimo no campeonato
2016-05-25

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1975

Mané, um avançado habilidoso que, sem ser alto, tinha perna comprida e a fazia bailar à volta da bola em dribles imprevisíveis, chegou tarde a Portugal. Tinha 27 anos quando o Boavista o foi buscar ao Brasil para lhe dar a missão de acompanhar Salvador num ataque vertiginoso imaginado por José Maria Pedroto. Em seis épocas de I Divisão, por três clubes diferentes, nunca ficou abaixo do sétimo lugar do campeonato, tendo ainda ganho duas Taças de Portugal. O suficiente para deixar marcas na história do futebol português na década de 70.

À chegada do Brasil, Mané vinha credenciado como ponta-direita. O Boavista, que Pedroto estava em vias de transformar em Boavistão, tinha Alves, um médio com caraterísticas de avançado, pelo que o treinador optou por jogar com dois atacantes abertos, um de cada lado. Na primeira vez que Mané, Alves e Salvador jogaram juntos, a 15 de Setembro de 1974, o resultado foi impressionante: 6-3 ao Atlético, em jogo da segunda jornada do campeonato. Na sua estreia, o ponta mineiro fez logo dois golos na baliza de Gaspar. Haveria de fazer mais oito nesse campeonato, que o Boavista terminou na quarta posição, juntando-lhe mais quatro na Taça da Portugal. Destes, um serviu para abrir o ativo na final, ganha ao Benfica, por 2-1, num Estádio de Alvalade mal preenchido, tendo em conta a ocasião: com uma série de dribles à entrada da área, foi mantendo os adversários à distância e ganhou espaço para um remate enrolado, que bateu José Henrique.

O total de golos de Mané desceu na segunda época, mas este brasileiro tinha uma noção certa do compromisso com as balizas nos jogos importantes. Marcou também, por exemplo, na estreia pelas provas da UEFA, um 3-0 em casa aos búlgaros do Spartak Trnava, a 1 de Outubro de 1975, partida na qual fez ainda as assistências para os golos de Celso e Salvador. E esteve na origem de mais uma presença boavisteira na final da Taça de Portugal, desbloqueando o impasse em que estava a tornar-se a meia-final contra o V. Setúbal: 0-0 após 90 minutos, golo de Mané, em lance individual, perto do final da primeira parte do prolongamento, a abrir o marcador que se fixaria no 2-0. Na final, ganha ao V. Guimarães, foi Salvador quem marcou os dois golos (2-1), mas Mané voltou a erguer a Taça de Portugal, pela segunda vez em dois anos no Boavista. Só falhou mesmo o título nacional, perdido para o Benfica: o Boavista acabou em segundo lugar, depois de ter andado a par com o Benfica durante grande parte da competição.

Com a saída de Pedroto para o FC Porto e de João Alves para o Salamanca, Mário Wilson passou a adotar um 4x3x3 mais clássico, encostando Mané à direita do ataque que mais jogou na época de 1976/77. Disso se ressentiu o total de golos do atacante brasileiro: fez apenas três em todo o campeonato. Não terá sido pelo bis ao Marinhense, na Taça de Portugal, que Mário Wilson decidiu levar o brasileiro com ele para Guimarães no final da temporada. O mais provável é que tenha ficado impressionado com as exibições do jogador na Taça das Taças, prova na qual marcou quatro golos em quatro jogos: fez o golo da vitória na Roménia frente ao GSU Galati (3-2), colocou a eliminatória a salvo com dois golos de livre na segunda mão, no Bessa (2-0) e ainda marcou nos 3-1 ao Levski Sofia, na segunda ronda. O 0-2 na capital búlgara ditou a eliminação mas, no final do Verão de 1977, Mané era apresentado como reforço do V. Guimarães de Mário Wilson. E nessa primeira época no Minho fez o seu melhor campeonato em Portugal: foram 14 golos em 24 jogos – total prejudicado pelo castigo que se seguiu a uma expulsão em Espinho, no seguimento de protestos por causa de um penalti assinalado contra. Mesmo só com dois bis em toda a época – outra vez ao Marinhense, na Taça de Portugal, e ao… Boavista, na jornada de encerramento do campeonato – foi o melhor marcador vimaranense, assegurando a manutenção no plantel.

A época de 1977/78 foi, forém, a última de Mané ao mais alto nível. De regresso de férias, perdeu o lugar no onze. Mundinho chegou do Brasil, Jeremias regressou de Espanha e a dada altura da época Wilson optou por uma abordagem mais cautelosa, incluindo mais um médio na equipa, pelo que os remates de longe de Mané eram solicitados quase sempre apenas depois de começar os jogos no banco. Das 20 partidas que fez nesse campeonato, só em sete começou no onze – e ainda que nessas sete tenha feito cinco dos seus seis golos, no final da temporada acabaram por mostrar-lhe a porta de saída. Restou a Mané descer um patamar e assinar pelo Sp. Espinho, onde ainda fez mais um campeonato de I Divisão. No super-Espinho de Manuel José (sétimo lugar no campeonato) ainda viveu um bom período, mas não foi consistente. Marcou logo na segunda partida – o empate a uma bola com o Belenenses, a 23 de Setembro de 1979 – o que viria a ser o seu único golo pelos tigres da Costa Verde, despedindo-se do campeonato a 13 de Abril de 1980, na vitória caseira sobre o Marítimo.

Mané acabou por ficar em Portugal, jogando um ano no U. Lamas – a meio da tabela da Zona Norte da II Divisão – e seguindo depois para o Amarante, em cuja equipa desceu da II para a III Divisão, em 1982. Mais tarde, veio a integrar as equipas técnicas da formação do Boavista, clube que sempre fez gala de não deixar cair os jogadores que estiveram em momentos importantes da sua história. Como indiscutivelmente sucedeu com Mané.