Chegou ao Benfica após uma disputa com o Sporting para ser o primeiro estrangeiro na história do clube da Luz. Mas ali nunca teve o espaço que lhe permitira brilhar no Boavista ou tornar-se uma referência do Sp. Braga.
2016-05-18

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1975

Será para sempre lembrado como o primeiro estrangeiro da história do Benfica, mesmo que a experiência de três anos na Luz não tenha correspondido às expectativas, nem dele, nem do clube. Jorge Gomes, um possante avançado brasileiro que o Boavista recrutou em Maceió em meados da década de 70, mostrou-se um goleador frequente durante década e meia. Ganhou uma Taça de Portugal vestido de xadrez, foi campeão nacional e repetiu a festa do Jamor de vermelho à Benfica e encontrou depois refúgio em Braga, onde pôs termo à carreira de alto rendimento, antes de jogar por vários clubes de menor dimensão. Nunca foi um jogador consensual ou um exemplo de recato e disciplina, mas nem o impediu de deixar as suas marcas num futebol e num país que o assustaram à chegada.

Jorge Gomes era Zinho. Foi com esse diminutivo que começou a carreira, no São Cristóvão, caindo na rede de olheiros do Vasco da Gama. Sem lugar no clube que na altura tinha Roberto Dinamite no comando de ataque, foi sendo emprestado. Primeiro ao Nacional de Uberaba, em Minas, depois ao CRB de Maceió, em Alagoas. Foi ali que o Boavista, na altura muto atento ao mercado brasileiro, o descobriu. Em dia de jogo, foi chamado ao Rio para lhe comunicarem o interesse de Portugal. Jorge Gomes disse que sim mas depois, quando viu os chaimites na rua, no 25 de Novembro de 1975, pensou desistir. Escondeu-se em casa de um amigo, em Campos dos Goitacazes, no estado do Rio, e foi preciso o empresário que tinha intermediado o negócio ir lá descobri-lo, levá-lo ao avião e não arredar pé enquanto este não descolou para ter a certeza de que o jogador embarcava mesmo. Para trás ficava o Zinho, à chegada ao Porto passou a ser o Jorge Gomes – a começar na roupa, que a que trazia era demasiado fresca para o clima português e antes mesmo de ser apresentado o jogador foi conduzido à baixa do Porto para comprar roupa mais quente.

Jorge Gomes não se impôs logo no Boavista. Começou por ser cedido por empréstimo ao União de Lamas, que jogava na Zona Norte da II Divisão. Soube aí o que era jogar em pelados. Em 1976, Mário Wilson deu-lhe uma oportunidade e ele ficou no plantel, mas o jogador não ajudou nada. Estreou-se a 25 de Setembro, num jogo em casa com o Varzim, mas viu logo um cartão vermelho aos 10 minutos da segunda parte, por causa de uma altercação com Horácio. Não voltou a ser titular na primeira volta do campeonato e, nas duas vezes seguintes em que Wilson o chamou ao onze, saiu antes do intervalo. Só nas últimas quatro rondas, na sequência de um castigo federativo a Mané, voltou a ser aposta firme: fez parte do onze na vitória por 2-1 sobre o FC Porto, marcou o seu primeiro golo na semana seguinte, a 15 de Maio de 1977, num 4-1 frente ao Atlético na Tapadinha, e acabou por manter o lugar nas jornadas em que o Boavista confirmou o quarto lugar final e uma presença na Taça UEFA da época seguinte.

Foi já com Fernando Caiado no banco que o brasileiro se estreou na UEFA. E fê-lo com um golo, que a 14 de Setembro de 1977 valeu a vitória por 1-0 frente à Lazio, nas Antas. Os 0-5 da segunda mão, em Roma, interromperam logo ali a carreira europeia do Boavista, confirmando que a época ainda não seria a da explosão de Jorge Gomes. Jogou mais, é verdade, mas não se mostrou um goleador muito frequente, somando apenas mais dois tentos no campeonato ao da UEFA. Na verdade, só a meio da época de 1978/79, com o regresso de Jimmy Hagan ao Bessa, o brasileiro mostrou o seu real potencial: com apenas um golo (e mais uma expulsão) até Dezembro, quando o inglês voltou para substituir José Carlos, fez mais dez no campeonato e três na campanha que levou o Boavista a ganhar a Taça de Portugal, batendo na finalíssima o Sporting por 1-0. A regularidade goleadora, somada às características físicas de um avançado que na altura era incomum no campeonato português – Jorge Gomes era possante como um carro de assalto – levaram ao interesse do Sporting. E, terminada a época, quando o jogador se preparava para apanhar o avião para fazer férias no Brasil, Valentim Loureiro, presidente do Boavista, pediu-lhe que o acompanhasse antes a Lisboa, para o transferir para o Sporting. Só que quando o jogador chegou à reunião, não estava lá o presidente do Sporting, mas sim um representante do Benfica. O avião esperou uns minutos eo negócio fez-se na mesma, mas tantos anos depois é o próprio Jorge Gomes quem diz ainda não ter compreendido o que se passou.

O defeso foi, por isso, quente. Do Brasil, Jorge Gomes contou a história, lançando os rivais lisboetas numa dura batalha verbal. Por essa altura, em inícios de Julho de 1978, a assembleia geral do Benfica tinha aprovado – à segunda tentativa, que a primeira, em Outubro de 1976, tinha sido derrotada em votação – a abertura do clube à contratação de jogadores estrangeiros. E o primeiro foi mesmo Jorge Gomes, assim que voltou de férias. Na Luz encontrou Mário Wilson, o treinador que o lançara no Boavista mas que depois tão poucas oportunidades lhe dera. O encontro com a história sucedeu a 29 de Agosto de 1979, quando Jorge Gomes entrou para o lugar de Chalana a 17 minutos do fim de uma vitória clara, por 5-1, frente ao V. Setúbal, na Luz. Dias depois, saindo outra vez do banco, bisa num 3-0 ao Rio Ave, em Vila do Conde. Titular pela primeira vez a 3 de Outubro, num 2-1 em casa ao Aris Salónica – que no entanto não chega para inverter o rumo da eliminatória europeia, pois o Benfica tinha perdido por 3-1 na Grécia – faz um golo. Manteve-se no onze nas semanas seguintes e continuou a responder com golos: um ao Estoril, dois ao Belenenses… Só que depois a fonte secou.

Sacrificado ao intervalo numa derrota caseira com o Boavista, a 25 de Novembro de 1979, nunca mais foi titular nessa época. Ainda jogou nove minutos no dérbi contra o Sporting, a contar para os oitavos-de-final da Taça de Portugal, permitindo que se tornasse bi-vencedor da competição, mas a chegada do seu compatriota César, por alturas do Natal, roubou-lhe muito espaço. E Jorge Gomes não gostou. E entrevista, desabafou: “Se o Benfica deixar, vou embora no primeiro avião”. Que não era jogador para ficar no banco e que a culpa era toda de Valentim Loureiro, que o forçara a escolher a Luz em detrimento de Alvalade, onde o Sporting se sagrava campeão nacional. E no entanto, o Benfica não deixou. No fim das férias, Jorge Gomes continuava no plantel que o húngaro Lajos Baroti tentava conduzir à recuperação do título nacional. E se é verdade que conseguiu ser campeão e participar mais uma vez na vitória na Taça de Portugal, jogou menos ainda. Marcou um golo na primeira vez que foi chamado a saltar do banco – num 2-0 ao Amora – mas foi o único que fez em toda a época, mesmo tendo sido duas vezes titular na Taça de Portugal – frente ao Sacavenense e ao Esperança de Lagos – e outras tantas na Taça das Taças – nas meias-finais, perdidas contra os alemães do Carl Zeiss.

Utilizado com maior frequência em 1981/82, época em que o Benfica ficou a zeros em termos de troféus, Jorge Gomes foi um dos que mais perdeu com a chegada de Eriksson no final dessa época. A relação entre os dois foi curta, mas sempre difícil e acabou com o jogador a insultar o técnico, ainda durante a pré-temporada. O caminho foi o do empréstimo ao Sp. Braga, onde Juca o acolheu de braços abertos. Jorge Gomes nunca fez mais de quatro jogos seguidos no campeonato, pois a falta de regularidade era um dos seus problemas. Acabou a época com nove golos, cinco dos quais na Liga, destacando-se ainda por um hat-trick ao Vizela, na Taça de Portugal, e por ter marcado uma vez ao Sporting, na primeira mão da Supertaça. Foi, depois disso, com o regresso de Quinito das Arábias que Jorge Gomes voltou a mostrar-se o ponta-de-lança temível que levara Benfica e Sporting a lutar pela sua contratação. Na época em que chegou aos 30 anos, falhou apenas dois jogos. “Quinito só me perguntava se eu estava em condições. E se eu dizia que sim, jogava”, contou o brasileiro anos mais tarde numa entrevista. E a verdade é que, jogando, marcava, sendo uma das armas no quarto lugar final do Sp. Braga. Igualou o seu recorde de golos num campeonato (onze), contando-se entre eles o que valeu um empate com o Benfica (1-1) em Braga, e juntou-lhes mais um ao Valdevez, na Taça de Portugal.

A partir daqui, à medida que ia somando anos aos 30 que já contava, o decréscimo de produção do goleador brasileiro foi acompanhado pela decadência nos resultados do Sp. Braga. Jorge Gomes, ainda assim, aguentou mais cinco anos na I Divisão. Em 1984/85, ainda com Quinito, fez seis golos no campeonato – um deles ao FC Porto – e mais um na Taça de Portugal. Mas em 1985/86 baixou a contabilidade para três – um a valer novo empate com o Benfica – e na verdade nunca mais passou dos cinco. Marcou o último golo na Liga a 7 de Maio de 1989, a abrir o ativo num empate caseiro frente ao Fafe, dois minutos depois de Vítor Manuel o ter colocado em campo no lugar do seu compatriota Valtinho. Duas semanas depois, a 21 de Maio, despedia-se, jogando os 90 minutos do empate caseiro frente ao Nacional (1-1). Jorge Gomes ainda jogou uma época no Fafe e outra no Recreio de Águeda, na II Divisão, passando depois a representar equipas amadoras, nos regionais de Braga, como o Águias de Alvelos ou o Terras do Bouro. Treinador diplomado, não exerce e na verdade anda atualmente mais ligado ao andebol do que ao futebol: o seu filho André, de 17 anos, é uma das figuras emergentes da equipa do ABC e Jorge é uma figura frequente no apoio vindo das bancadas aos amarelos de Braga.