Emídio Graça despediu-se do futebol a ganhar uma Taça de Portugal pelo V. Setúbal, mas nessa tarde já nem jogou e viu o irmão Jaime receber o troféu. Antes, além da ligação duradoura ao Vitória, emigrou para o Sevilha.
2016-05-17

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1952

Um dos primeiros emigrantes do futebol português, Emídio Graça não ficou na história apenas pela transferência do V. Setúbal para o Sevilha, em 1958, ou pela forma rocambolesca como acabou por regressar a casa, depois de um ano suspenso por delito de opinião. Presença regular na seleção durante a década de 50, foi uma das maiores inspirações do irmão, Jaime Graça, que era uma década mais novo e viria a ser um dos Magriços de 1966. Emídio foi uma das maiores figuras da história do Vitória em campo, tendo-se mantido depois ligado ao clube, tanto como técnico como na qualidade de dirigente.

Dotado de boa técnica individual e de uma criteriosa visão de jogo, nem por isso o jovem Emídio achou que estava fadado para jogar na frente. Não. Começou como defesa-esquerdo e aos 19 anos já fazia parte do onze de gala do Vitória. Armando Martins chamou-o pela primeira vez à equipa a 12 de Novembro de 1950, numa derrota no Minho frente ao Sp. Braga, por 3-1, e a estreia não foi das mais auspiciosas, porque ao tentar desviar um remate de Elói o jovem Emídio fez na própria baliza o terceiro golo dos arsenalistas. Ainda assim, o treinador não desistiu dele. Bem pelo contrário: Emídio participou até final da época em todos os jogos do Vitória, ajudando a equipa a escapar do 14º para o 12º lugar final, com duas vitórias nas duas últimas jornadas. Devia chegar para ficar na I Divisão, mas acusações de tentativa de corrupção a jogadores do Oriental, na última dessas partidas, acabaram por levar à despromoção na secretaria. Aquele Vitória, no entanto, tinha futebol para mais e, um ano depois, estava de volta.

Mais experiente, Emídio Graça passou a ser defesa central na organização de Janos Biri, treinador que fez dele totalista nas 26 jornadas de 1952/53, num campeonato que o Vitória acabou num ótimo sexto lugar. Benfica, FC Porto e Belenenses perderam no Campo dos Arcos e o Sporting, que ia a meio do seu tetra-campeonato, só lá passou porque Graça falhou um penalti, permitindo a defesa a Carlos Gomes. Tardava o primeiro golo do jovem central, mas a qualidade ninguém lha negava. Esse primeiro golo haveria de aparecer a 6 de Junho de 1954, mas na Taça de Portugal. Depois de uma época difícil, em que o Vitória conseguiu a manutenção à justa, Graça foi totalista na campanha que levou a equipa de Biri à final da Taça de Portugal, marcando de caminho nos 3-0 ao Atlético, nos quartos-de-final. No jogo decisivo, contra o Sporting, no Estádio Nacional, os sadinos saíram derrotados por 3-2, mas venderam cara a derrota contra a equipa tetra-campeã nacional, tendo recuperado de 2-0 para 2-2 antes de Mendonça marcar o golo decisivo.

Após mais uma época muito bem conseguida, na qual voltou a falhar apenas uma partida – a derrota em Braga por 3-0, em Fevereiro de 1955 – Emídio viu a sua qualidade reconhecida pelo treinador nacional, Tavares da Silva, sendo chamado à seleção que jogou em Glasgow com a Escócia, a 4 de Maio de 1955. Estreou-se como defesa-esquerdo no mesmo dia que Coluna, que viria mais tarde a fazer dupla de médios com o seu irmão mais novo, Jaime, na altura ainda um petiz de 13 anos. O resultado (derrota por 3-0) foi amplo e Graça foi um dos que perdeu a vaga, não entrando em campo na vitória frente à Inglaterra (3-1), três semanas depois, nas Antas. Mas nem por isso saiu do lote dos que iam com regularidade à seleção: já apareceu como central na pesada derrota contra a Suécia (2-6), em Novembro, ganhando balanço para fazer parte da equipa portuguesa que tentou, sem sucesso, marcar presença no Mundial de 1958.

Até lá, porém, Emídio ainda fez mais três campeonatos pelo V. Setúbal. A sua importância era tanta na organização defensiva preconizada pelo treinador Rino Martini, que nas duas únicas partidas e que ele faltou, em 1955/56, o Vitória foi goleado: 7-1 na Covilhã e 4-0 em casa com o Belenenses. Na época seguinte, no décimo lugar obtido sob as ordens de Umberto Buchelli, Graça voltou a faltar a apenas um jogo – derrota com o Benfica – e, na ausência deste, substituiu Pinto de Almeida como capitão de equipa. Esse Vitória voltou a chegar longe na Taça de Portugal, tendo Graça marcado a Carlos Gomes o golo que ditou o afastamento do Sporting nos quartos-de-final. As meias-finais, porém, foram aziagas para a equipa sadina, que perdeu na Covilhã por 3-0 e já não foi capaz de reverter o destino da eliminatória, ganhando em casa por 1-0 apenas. E o campeonato de 1957/58, já feito como capitão de pleno direito e no qual marcou o seu único golo em 178 jogos na prova – e onde haveria de ser? Em Braga, mas numa derrota por 4-1 – foi o suficiente para lhe permitir dar o salto para Espanha.

O maior poderio económico dos clubes espanhóis, que nesse mesmo ano levou à passagem de Jorge Mendonça do Sp. Braga para o Atlético Madrid, conduziu também o Sevilha até Emídio Graça. Por mil contos, mas 125 por época para o jogador – aos quais acrescia um salário de dez contos por mês – o Sevilha conseguiu o concurso do defesa do V. Setúbal, que assim se despediu da seleção em Maio de 1958, cumprindo ante a Inglaterra (derrota por 2-1) a 12ª e última internacionalização. Graça ainda fez um bom campeonato na Andaluzia, ajudando o seu novo clube a escapar à despromoção, mas umas declarações polémicas feitas à imprensa portuguesa durante uma digressão de pré-temporada, no Verão de 1959, levaram à sua suspensão de toda a atividade pelo clube espanhol. Castigado em Setembro de 1959, nem regressou a Espanha, sendo no entanto proibido de jogar em Portugal também. O Belenenses ainda quis saber quanto teria de pagar para ficar com ele, mas de Espanha pediram 600 mil pesetas e o interesse esmoreceu no imediato, pelo que o jogador só voltaria à competição em 1960. No V. Setúbal e já com o irmão Jaime a fazer parte do plantel.

As primeiras duas épocas após o regresso foram feitas na II Divisão. Perdida a subida direta para o Olhanene em 1961 e para o Barreirense em 1962, o Vitória ganhou a Liguilha e regressou mesmo ao escalão principal. Acima dos 30 anos, contudo, Emídio já via as mazelas tirar-lhe continuidade: só esteve disponível para Filipo Nuñez durante dois meses da época de 1962/63, não alinhando um único minuto em 1963/64. Regressaria para a despedida por algumas partidas no sexto lugar da equipa de Fernando Vaz em 1964/65. A última partida de Emídio Graça no campeonato, a 11 de Abril de 1965, foi uma vitória por 2-1 frente ao Belenenses, já no Bonfim. Em Maio e Junho, ainda fez mais dois jogos, ambos na Taça de Portugal, saldados por vitórias contra o Sporting de Benguela (6-1) e o Salgueiros (1-0), na caminhada que levou os sadinos a mais uma final. Nessa decisão, porém, Emídio ficou a ver o Vitória ganhar por 3-1 ao Benfica e o seu irmão Jaime erguer a Taça da tribuna de honra do Estádio Nacional. A braçadeira de capitão transitara na família.

Depois de abandonar a carreira de jogador, Emídio Graça ainda treinou várias equipas, desde os escalões de formação do Vitória de Setúbal ao Tramagal ou ao Elétrico de Ponte de Sor, nos escalões secundários. Até morrer, nunca deixou de ter voz ativa no clube do coração, onde desempenhou cargos diretivos e foi um dos responsáveis, por exemplo, pela entrada de Fernando Oliveira, o atual presidente.