Esteve na equipa do Sp. Braga que ganhou a Taça de Portugal em 1966 e marcou depois o primeiro golo europeu dos bracarenses, antes de servir Belenenses e Oriental, de que foi o último capitão na I Divisão.
2016-05-16

1 de 6
1965

Sujeito reservado, dono de um pé esquerdo que quem viu diz que fazia maravilhas, Luciano gostava do Benfica, clube ao qual esteve ligado durante anos sem uma oportunidade, pelo que foi em Braga que conheceu as maiores glórias, como a conquista de uma Taça de Portugal ou o facto de ter sido o autor do primeiro golo europeu do clube minhoto. Jogou ainda no Belenenses e no Oriental, para onde se transferiu a troco de um emprego num banco que manteve até falecer, terrivelmente jovem ainda, vítima de um cancro no pâncreas.

Natural da Charneca do Lumiar, Luciano despontou no Águias da Musgueira, onde os olheiros do Benfica o descobriram. Foi campeão nacional de juniores no clube da Luz, em 1959, numa equipa da qual Cruz foi o único a transitar diretamente para o plantel principal. A Luciano restou a opção do empréstimo. Seguiu para o Oriental, onde na primeira época de sénior ficou a um ponto da subida de divisão: um empate em Beja, na penúltima jornada, resolveu tudo a favor do Barreirense. Seguiu-se o Benfica de Castelo Branco, mas já com o serviço militar a atrapalhar-lhe a carreira: Luciano haveria de seguir para Angola, onde a Guerra Colonial lhe interrompeu a dedicação ao futebol. Só no último dos três anos de comissão jogou no Ferroviário de Malange.

Regressado à Metrópole com 24 anos, Luciano era forçado a dar uma satisfação ao Benfica. Mas não o deixaram ficar na Luz, antes o fazendo seguir mais uma vez por empréstimo, desta vez para o Famalicão. Um ano na II Divisão foi o que lhe bastou para que ali ao lado, em Braga, dessem por ele. Aos 25 anos, Luciano chegava por fim à I Divisão, prova na qual se estreou pela mão de José Valle, a 12 de Setembro de 1965, num empate a zero com o Belenenses, no Restelo. O lisboeta manteve a titularidade até Dezembro, mês no qual lhe aconteceu o melhor e o pior. Primeiro, dois bis seguidos: fez dois golos no 3-1 ao Beira Mar, a 28 de Novembro, e mais dois nos 3-2 ao Atlético, a 1 de Dezembro (este jogo a contar para a Taça de Portugal). Ainda defrontou o Barreirense, no fim-de-semana seguinte, mas uma lesão tirou-o depois dos relvados por três meses. Só voltaria em Março, precisamente para participar no empate a zero contra o Benfica que, a três jogos do fim da Liga, impediu os encarnados de alcançarem o Sporting no topo da tabela – os leões viriam a ser campeões com um ponto de avanço.

Os jogos da Taça de Portugal contra o Benfica, correriam ainda melhor a Luciano, que marcou presença na jornada dupla que levou os minhotos a afastarem a equipa de Eusébio, Coluna, José Augusto, Torres e Simões. 4-1 em Braga, seguidos de um 1-3 na Luz chegaram para a equipa minhota seguir para as meias-finais. Pelo meio, havia as duas últimas partidas da Liga, uma espécie de ensaio geral para a fase decisiva da Taça de Portugal. As derrotas claras com V. Guimarães (3-5) e V. Setúbal (1-8) podiam fazer pensar no pior, mas a troca de treinador – José Valle deu o lugar a Manuel Palmeira – chegou para os bracarenses encontrarem alento e levarem de vencida, primeiro, o Sporting, recém-coroado campeão nacional (em três jogos) e depois o V. Setúbal, numa final decidida com um golo solitário do argentino Perrichon. Luciano participou em todos esses desafios, deixando desde logo claro que era uma das pedras fixas na equipa do Sp. Braga que ia atacar a época seguinte. E, com Fernando Caiado aos comandos, o canhoto lisboeta não só falhou apenas dois jogos em todo o campeonato, com marcou mais dois golos na prova, ao Atlético e ao FC Porto. Juntou-lhes ainda mais três na Taça de Portugal, em que os bracarenses chegaram às meias-finais, e a honra de fazer o primeiro golo europeu do Sp. Braga: a 28 de Setembro de 1966 foi ele o autor do tento que deu a vitória frente ao AEK, em Atenas (1-0).

Ainda sem espaço no Benfica, Luciano decidiu então pedir a desvinculação, de forma a poder seguir a carreira no Belenenses. No Restelo, Manuel de Oliveira usou-o como médio-esquerdo na equipa que acabou a Liga em sétimo lugar e a fechou com um retumbante 4-0 ao Sporting. Mais uma vez, Luciano impunha-se pela regularidade: falhou apenas três das 34 partidas oficiais dos azuis, que só caíram da Taça de Portugal nos quartos-de-final, eliminados pelo FC Porto. Luciano foi mantendo o estatuto de titular do Belenenses até ao Natal de 1969, quando voltou a magoar-se, desta vez no decurso de um jogo em casa com o U. Tomar. Quando regressou, em Fevereiro, já foi para ser acima de tudo suplente utilizado por Mário Wilson, nos jogos em que o Velho Capitão achava que ele podia ser útil. Foi nessas condições que marcou, por exemplo, o seu último golo de cruz de cristo ao peito: entrou para o lugar de Carmo Pais já perto do final do terceiro jogo contra o Tirsense, dos quartos-de-final da Taça de Portugal, abrindo o ativo no prolongamento e ajudando a equipa azul a seguir para a ronda seguinte, a meia-final perdida contra o Sporting. Por esse altura, porém, já Luciano pensava no que fazer com a vida. Tinha chegado aos 30 anos, via a concorrência crescer no Restelo e tinha uma oferta do Oriental, que estava na II Divisão mas lhe dava, além do contrato como futebolista, um posto de trabalho para a vida no Banco Português do Atlântico. Aceitou e mudou-se para a zona leste de Lisboa.

No Oriental, Luciano acabaria por chegar a capitão de equipa. Ainda passou três épocas na Zona Sul da II Divisão, mas em 1973 esteve diretamente ligado à última subida da equipa de Marvila ao escalão principal: foi do seu pé esquerdo que saiu o livre que Candeias transfomaria, de cabeça, no golo ao U. Coimbra, que valeu o primeiro lugar na Liguilha. Tudo a contribuir para uma última passagem de Luciano pelo campeonato principal. Nela, Luciano já não jogou com a regularidade habitual, mas Pedro Gomes não hesitou em fazer dele titular em oito das derradeiras nove jornadas de 1973/74, nas quais o Oriental passou do 16º para o 12º lugar que no final lhe valeu a salvação. Nessa série de jogos, Luciano fez o seu último golo no campeonato: aconteceu a 10 de Março de 1973 e foi marcado de penalti a Abrantes, ajudando numa vitória por 2-1 frente ao Barreirense. Já depois da festa de despedida, em 1974, num jogo contra o Benfica, Luciano ainda voltaria para mais uma época, na qual nem o facto de Ludgero Ramalho e depois José Carlos o terem chamado a desempenhar um papel mais ativo nas últimas semanas deu ao Oriental a salvação. O último jogo de Luciano no campeonato foi também o último do clube de Marvila: uma derrota por 2-0 frente ao Olhanense, a 11 de Maio de 1975, na qual cedeu o lugar a Faustino, a 8 minutos do final.

Luciano deixou nessa altura o futebol, mantendo-se no ativo no banco em nome do qual aceitara a transferência para o Oriental até que um cancro no pâncreas o vitimou de forma fulminante, em Maio de 1990. Faleceu a dois dias de completar 50 anos.