Foi um dos mais destacados combatentes e dirigentes na luta pela independência de Angola, mas antes disso jogou no campeonato português, pelo Benfica e pela Académica
2016-05-15

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1957

A vida de Daniel Chipenda não se conta através do futebol. Mas o futebol fez parte dela. Foi pelo futebol que desembarcou em Lisboa, em finais de Setembro de 1954, porque vinha jogar para o Benfica. Logo à chegada, a dissidência: “Sempre fui do Sporting”, declarou. Na Luz nunca teve sucesso e raramente passou da equipa de reservas, mas a transferência para a Académica acabou por frutificar em todos os aspetos: em Coimbra se fez goleador e formou a personalidade daquele que haveria de ser um dos principais combatentes pela independência de Angola, que iniciou no dia em que fugiu do país com a PIDE no encalço, após a crise estudantil de 1962.

Mas recuemos aos inícios. Chipenda chegou a Lisboa a 30 de Setembro de 1954, com destino à equipa do Benfica. Vinha rotulado de goleador e os encarnados estavam apostados em explorar o filão africano – Coluna estava por essa altura a entrar na equipa. À chegada, não se importando com o que pudessem pensar disso, o angolano disse duas coisas: que gostava do Sporting e que queria estudar. “Se não agradar no Benfica, talvez possa jogar na Académica”, sugeriu. E assim foi. Mas só depois de quatro épocas a marcar passo nas reservas do clube encarnado. Os primeiros dois anos não o viram sequer chegar à equipa principal, na qual só se estreou a 3 de Fevereiro de 1957, como interior direito na equipa do Benfica que foi ganhar por 5-0 ao Atlético na Tapadinha. Chipenda até marcou os dois golos inaugurais, ambos no primeiro quarto-de-hora da segunda parte, o que o levou a manter a titularidade para o jogo seguinte, que era a receção ao Oriental. Aí, como extremo-direito, fez o passe para o primeiro golo, de Cavém, mas Otto Glória não voltaria a chamá-lo mais nenhuma vez, trocando-o por Palmeiro.

Esses dois jogos, ainda assim, chegaram a Chipenda para ser campeão nacional. Não ganhou a dobradinha porque não entrou em campo um minuto que fosse na vitória encarnada nessa edição da Taça de Portugal. Mas ganhou, isso sim, um lugar no plantel da época seguinte. Só que, durante toda a época, sé fez mais um jogo, que foi a vitória caseira sobre a CUF (1-0), acabando na lista de dispensas. Pôde então seguir para Coimbra, a fim de estudar, e aproveitou para entrar na equipa da Académica. Ali, com menos concorrência, viu Janos Biri entregar-lhe a titularidade como interior-direito e foi respondendo com golos. Marcou, por exemplo, no empate que a Académica obteve frente ao Sporting, em Alvalade (1-1), a 1 de Março de 1959, mas a sua maior da época aconteceu a 22 de Março, na última jornada desse campeonato, quando fez um póquer nos 11-0 ao Caldas que ainda hoje são a maior goleada da história da Académica no campeonato. Aos 10 minutos de jogo já tinha feito três golos, tendo-lhe depois somado mais um, perto da meia-hora.

Com onze golos no campeonato – e mais um na Taça de Portugal, ao Sporting – Chipenda tornava-se figura incontornável do onze da Académica que ia atacar o campeonato de 1959/60. Nele, porém, já não se revelaria goleador tão regular: fez apenas quatro golos, com destaque para um bis ao Sp. Covilhã, numa vitória por 5-1, a 3 de Abril de 1960. O futebol continuava a ser importante para o jovem Daniel, mas mais importantes eram as reflexões políticas, o germinar dos movimentos pró-independência africanos, que já fervilhavam um pouco por todo o lado. E o futebol ressentiu-se, como é natural. Chipenda ainda fez 14 jogos no campeonato de 1960/61, mas já sem marcar golos, e em 1961/62 já foi pouco visto na equipa. Jogou nas primeiras duas jornadas e só voltou a aparecer, para a despedida, a 8 de Abril de 1962, numa derrota por 6-2 com a CUF, no Barreiro. Dias depois, arrancou a greve estudantil, que levou ao luto académico e ao abandono dos campeonatos nacionais por parte de várias equipas da Académica (râguebi, basquetebol e voleibol, por exemplo). Os jogadores da equipa de futebol decidiram faltar ao desafio com o Beira Mar, da antepenúltima jornada do campeonato, a 13 de Maio, mas, sabendo disso e temendo que o facto viesse dar maior repercussão ao movimento estudantil, o ministro da educação, Manuel Lopes de Almeida, emitiu um despacho a ordenar o adiamento da partida “para data a fixar oportunamente”. Os políticos ganhavam tempo.

A 18 de Maio, dois dias antes do jogo com o Sporting, Mário Wilson, que era capitão de equipa, foi chamado a uma audiência com a nova comissão administrativa da Académica, recentemente nomeada pelo governo. Sai de lá convencido e tenta convencer os colegas a apresentarem-se ao jogo – o que acaba por acontecer. Há quem não concorde, porém. Chipenda e França estão entre os contestatários e acabam por fugir de Coimbra nessa madrugada, com a PIDE atrás deles. Daí a pouco já estavam no terreno, em Angola, na luta armada pela independência. Chipenda foi, nos anos que se seguiram, uma das figuras de topo do MPLA, tendo comandado a Frente de Leste, saído do movimento para a FNLA e regressado mais tarde, acabando por falecer em Cascais, em 1996, em circunstâncias ainda por esclarecer, já com o seu antigo adjunto, José Eduardo dos Santos, na presidência de Angola, e com o filho, Raul Chipenda, a iniciar uma carreira que o levou a jogar durante quase uma década no Belenenses e no V. Setúbal.