De uma final da Taça dos Campeões ao negócio do imobiliário no Algarve, depois de vestir a camisola do Portimonense. Eis o percurso de Sorensen, atual dono de um pub em Tamworth.
2016-05-14

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1977

Jan Sorensen viveu sempre de acordo com o que eram as suas ideias. Foi profissional de futebol quando quis e como quis, tendo dessa forma chegado a ser campeão belga e a jogar uma final da Taça dos Campeões Europeus, com o Brugges. Após alguns anos na Holanda e o que pensava vir a ser um final de carreira tranquilo no Algarve, deixou de jogar porque não lhe apetecia mais, tão revoltado estava com o que sucedia no Portimonense. Abdicou, da mesma forma que foi deixando cair objetivos sempre que eles afrontavam a sua ideia de vida. Sem medo, vendeu time-sharing no Algarve e entrou no negócio do imobiliário, até que se mudou para Tamworth, em Inglaterra, onde é hoje dono de um pub – o “The Prince of Wales” – e se entretém a contar histórias do tempo em que era treinado por Happel ou Cruijff.

Em muitos clubes por onde passou, Sorensen é recordado como um dos melhores a ter vestido aquela camisola. E a frase a seguir é vulgarmente: “Se ele quisesse…” Dono de um pé esquerdo que aliava habilidade e potência e de uma visão de jogo criativa, Jan chegou ao Frem em 1977. Logo ao segundo jogo na I Divisão fez o primeiro golo, numa derrota frente ao Aahrus (3-2). Em finais de Maio, com seis golos no ativo, o Brugges interessou-se por ele, como forma de substituir o seu compatriota Le Fevre, que anunciara que ia embora. E a transferência fez-se: em 1977/78, com sete golos, o jovem Sorensen foi uma das figuras no título de campeão belga da sua nova equipa, ajudando-a também a chegar à final da Taça dos Campeões Europeus. Nessa caminhada marcou só um golo, ao Panathinakos, mas esteve a tempo inteiro nas últimas cinco partidas: os quartos-de-final com o Atlético Madrid, as meias-finais com a Juventus e a final, perdida por 1-0 com o Liverpool, em Wembley.

Por essa altura já Sorensen era figura na seleção da Dinamarca. Estreara-se em Janeiro de 1977, na Gâmbia, marcando um golo numa vitória por 4-1 sobre a seleção local. É certo que os primeiros jogos do ano eram tradicionalmente usados para testar jovens alternativas do futebol local, mas Sorensen foi ficando. Jogou seis vezes pela seleção em 1977 e mais duas em 1978. Oura vez campeão belga em 1979/80, viu nessa altura o seu nome riscado por Sepp Piontek, o alemão que revolucionou o futebol dinamarquês e transformou uma equipa rústica numa máquina de ganhar. De acordo com o que o próprio Sorensen contou mais tarde, tudo teve origem num jogo com a Espanha, em Cadiz, em Novembro de 1979. A partida era particular, os dinamarqueses ganharam por 3-1 e, depois do jogo, dirigiram-se ao hotel. Sorensen, o seu colega Birger Jensen (guarda-redes do Brugges) e Kirsten Nygaard, avançado do AZ Alkmaar, estavam a petiscar, a beber um copo de vinho e a conversar quando PIontek os mandou recolher aos quartos. Eram 23h30. E como não tinham jogo no fim-de-semana seguinte, os três responderam que iam mais tarde, depois de acabarem o vinho. Nygaard e Jensen não voltaram a ser chamados por Piontek, enquanto que Sorensen ainda apareceu mais duas vezes, despedindo-se da seleção em Junho de 1980, numa vitória por 3-1 frente à Noruega, em Copenhaga.

O dinamarquês entrou nessa altura na melhor fase da sua carreira do ponto de vista individual. Fez 13 golos em 1980/81 e 14 em 1981/82 antes de, na pausa inverna de 1982 para 1983 trocar o FC Brugges pelo Twente, cujo treinador era o seu amigo Spitz Kohn. A ideia era ajudar a equipa de Enschede a evitar a despromoção na Liga holandesa, mas Sorensen lesionou-se um par de vezes e acabou por não ser grande ajuda. Mesmo assim, ficou no Twente mais dois anos. No primeiro foi preponderante no regresso à I Divisão e, apesar do interesse do Liverpool na sua contratação, optou por renovar contrato. No segundo, um conflito com o treinador, Fritz Korbach, levou o clube a aceitar transferi-lo para o Feyenoord, que procurava um substituto para Ruud Gullit, entretanto transferido para o PSV Eindhoven. Sorensen ainda passou um ano no Feyenoord antes de ser emprestado ao Excelsior, equipa menos credenciada de Roterdão, e de se mudar para o Ajax. Ali, com Johan Cruijff, no entanto, durou pouco. Cada um tinha as suas ideias e em Dezembro, aos 32 anos, Sorensen estava a mudar-se para Portugal, onde o esperavam o sol do Algarve e um contrato com o Portimonense.

Em Portugal já não se viu o melhor Sorensen. Já não corria muito, tendo Manuel Cajuda optado por o colocar a jogar atrás dos avançados, onde podia usar o seu remate potente e colocado e a visão de jogo, para deliciosas assistências. Estreou-se dois dias depois do Natal de 1987, numa derrota em casa frente ao Elvas (0-1), que deixava os algarvios na 20ª e última posição da tabela. Até final da época, só falhou um jogo, tendo marcado cinco golos (os primeiros num bis frente ao Rio Ave, em casa, numa vitória por 5-1, a 24 de Janeiro). O Portimonense não só acabou a Liga em 13º lugar, escapando à despromoção, como chegou às meias-finais da Taça de Portugal, caindo após prolongamento contra o V. Guimarães (1-2). A segunda época já não foi tão preenchida. A 6 de Novembro, uma derrota em casa contra o E. Amadora (0-1) marcou-lhe a última aparição com a camisola listada do Portimonense. “Não pagavam e fiquei muito zangado. Foi uma coisa que nunca se resolveu”, conta agora. O dinamarquês deixou o futebol mas ficou pelo Algarve. Dedicou-se ao imobiliário, ainda passou uns tempos a vender propriedades e férias em time-sharing e casou pela segunda vez, com uma britânica que anos depois o levou a mudar-se para Tamworth, na zona central de Inglaterra.

Chegado a Inglaterra, não esteve com meias-medidas e, em 1997, apesar de estar fora do futebol há dez anos, candidatou-se ao lugar de manager do Walsall. Para espanto geral – provavelmente até do próprio – foi contratado. Ali tornou-se um fenómeno de culto entre os adeptos, nem sempre pelas melhores razões: fumava cigarros atrás de cigarros no banco, falava de forma desbragada nas entrevistas e foi vivendo de conflito em conflito até ao despedimento. Pelo caminho, apesar de ter ficado num modesto 19º lugar na II Liga, evitando por pouco a queda no quarto escalão do futebol inglês, chegou à quarta eliminatória na Taça de Inglaterra e na Taça da Liga – na primeira foi eliminado pelo Manchester United em Old Trafford – dessa forma ganhando dinheiro que um ano depois serviu ao clube para subir ao Championship. Sorensen ainda foi diretor desportivo do Hvidovre – conflitos com alguns jogadores, que não aceitavam as regras que ele impunham – mas deixou o futebol nessa altura, para se dedicar por inteiro ao pub que tem com a mulher em Tamworth.