Apareceu como goleador vindo das alas no Boavista e ainda chegou a ser melhor marcador do Benfica num dos anos do tricampeonato de 1975 a 1977. Uma grave doença cardíaca obrigou-o a um transplante que o mantém agora longe do futebol.
2016-05-13

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1969

Muitos se lembram de Moinhos como um atacante rápido que, com cabelo e bigode de mosqueteiro de Dumas, partia do corredor esquerdo para aparecer em zonas de definição e marcar golos. Esses saberão que saiu do Boavista para fazer parte do último tricampeonato do Benfica. Outros ainda terão conhecimento do drama que viveu após o fim da carreira de futebolística, quando foi forçado a um transplante de coração para superar uma cardiomiopatia dilatada e poder continuar a viver, ainda que fora do futebol. Mas Mário Moinhos foi ainda, com Fraguito, um dos jogadores com os quais Valentim Loureiro descobriu o modelo de negócio do Boavista dos anos 70 e 80: comprar barato e vender caro, aos grandes.

Moinhos começou a jogar no Vilanovense, onde o patriarca do clã Loureiro o foi buscar em 1969, quando se tornou chefe de departamento de futebol do Boavista. Conta a lenda que foi o próprio Valentim a adiantar os 150 contos para contratar aquele jovem de 20 anos que só conhecia o futebol dos distritais mas que, quatro épocas depois, renderia 2500 contos, quando se transferiu para o Benfica. Muito teve Moinhos de fazer pelo caminho, no entanto. O Boavista tinha acabado de voltar à I Divisão, graças a duas subidas seguidas, e António Gama, o treinador, levou o jovem de Gaia para o banco na primeira jornada, uma receção ao V. Setúbal de Pedroto. A um quarto de hora do fim, com a equipa a perder por 2-1, trocou o médio Canário por Moinhos e, um minuto depois, Germano fez o empate, em recarga a remate de Lemos. Titular pela primeira vez à terceira jornada – um 3-2 ao Barreirense, no Bessa – Moinhos fez o primeiro dos cinco golos que marcou nesse campeonato a 23 de Novembro, quando o Boavista empatou a duas bolas com a Académica, em casa. Aprimorava as qualidades à medida que ia ganhando experiência, pelo que na ponta final da época ainda bisou na vitória frente ao Leixões (3-2) e fez mais dois golos na campanha boavisteira na Taça de Portugal, um deles a abrir o marcador no Estádio da Luz, contra o Benfica. O pior foi depois: Artur Jorge fez um hat-trick e os encarnados ganharam por 6-1.

Fosse como fosse, quando Fernando Caiado chegou ao Bessa para comandar o Boavista, na segunda época desde o regresso à I Divisão, Moinhos já gozava de estatuto de titular absoluto. Uma lesão em Novembro tirou-lhe dois meses da época, mas ele conseguiu ainda assim ser um dos melhores marcadores no excelente sexto lugar dos axadrezados. Marcou apenas três golos, é certo, mas um deles, a 20 de Março de 1971, deu uma vitória por 1-0 frente ao Sporting, que usava o escudo de campeão nacional. Moinhos jogava por essa altura sobretudo como extremo-direito, que a ideia das diagonais ainda não estava assim tão vulgarizada. Foi com António Teixeira, que substituiu Joaquim Meirim a meio da época de 1971/72, que se transformou numa máquina de fazer golos: entre Janeiro e Março de 1972, marcou cinco em sete jornadas, entre os quais mais um ao Sporting e um ao FC Porto. Nada que se compare, porém, ao rendimento que teve com Aimoré Moreira. Os 15 golos que marcou em 1972/73, incluindo um hat-trick ao U. Tomar (a 4 de Junho de 1973) e três bis ao Montijo, ao U. Coimbra e na visita ao mesmo U. Tomar fizeram dele uma das sensações desse campeonato, no qual ainda fez o golo da vitória sobre o FC Porto (1-0) e marcou ao Benfica, ainda que num jogo que o Boavista perdeu, no Bessa (1-3). Findo o campeonato, surgiu o interesse do Benfica. O Boavista pediu 2500 contos e Moinhos seguiu para a Luz, onde o esperava um plantel tri-campeão.

As dificuldades para se impor no Benfica de Hagan foram imensas. Ninguém o diria, quando, sem Eusébio, Jordão e Vítor Batista, o novo recruta foi logo titular no primeiro jogo da época. Era, ainda por cima, um jogo simbólico: a visita ao Bessa, a 9 de Setembro de 1973. Salvador abriu o marcador para o Boavista e, já sem Moinhos em campo (saiu para dar o lugar a Rui Rodrigues, a 25’ do fim), a equipa da casa chegou aos 2-0, por Moura. Antes do fim do mês, veio a confusão. Hagan demitiu-se, por se sentir desautorizado pela direção, sendo substituído por Fernando Cabrita, e Moinhos – que entretanto também já saíra das escolhas do técnico inglês, devido ao regresso dos consagrados – nunca mais foi titular. Além dos já citados havia ainda Simões e Nené, além de Artur Jorge, que até teve uma época plena de lesões. O gaiense teve ainda direito à estreia europeia – substituindo Nené a 24 minutos do fim de um empate caseiro com os húngaros do Ujpest – mas no campeonato só jogaria mais quatro vezes. Nos 61 minutos que fez nesse ano em que o Benfica perdeu a hipótese de conquistar o “tetra” marcou, ainda assim, um golo, o seu primeiro de águia ao peito: foi a 27 de Janeiro de 1974, em recarga a Humberto Coelho, fixando o 3-1 final num jogo em Marvila frente ao Oriental.

Esta foi a altura em que Moinhos desesperava e pensava voltar para casa. Mas tudo iria mudar. Depois do Verão chegou à Luz Milorad Pavic. Moinhos começou a época como suplente, entrando para o lugar de Vítor Batista na ponta final dos jogos. Mas a 5 de Outubro Pavic deu-lhe a primeira chance como titular, na receção à Académica, na Luz. E o atacante, que já ostentava a cabeleira farta e o bigode que depois se tornaram a sua imagem de marca, respondeu com três golos e mais duas bolas nos postes da baliza de Cardoso. Foram os únicos golos que marcou na primeira volta desse campeonato, o que, mesmo tendo em conta que Eusébio começava a desaparecer e que Jordão teve uma lesão gravíssima, lhe custou a titularidade por alturas do Natal. A segunda volta, porém, foi para ele um sonho. Um bis ao Belenenses, um hat-trick ao Farense, outro bis numa goleada ao Boavista permitiram o sucesso na candidatura para ser o melhor marcador do Benfica nessa Liga, ganha com vantagem considerável face a FC Porto e Sporting. Moinhos marcou ainda nos 3-0 com que os encarnados ganharam aos portistas nas Antas, praticamente arrumando a questão do título a oito jornadas do fim. E aos 13 golos que fez no campeonato juntou mais cinco na Taça de Portugal, quatro dos quais no mesmo jogo, uma vitória por 4-2 frente ao Leixões no Estádio do Mar, a 18 de Maio de 1975.

Por essa altura já Moinhos chegara à seleção nacional, chamado por Pedroto a meio de uma vitória frente à França, em Colombes (2-0), a 26 de Abril de 1975. Pedroto gostava de avançados rápidos e móveis, mas as suas primeiras escolhas eram Marinho e Nené. Moinhos, que Pavic desviara da direita para a esquerda do ataque, aparecia como uma das primeiras alternativas, tendo sido titular da equipa das quinas pela primeira vez num particular com a Escócia, em Glasgow, no dia em que fez 26 anos: 13 de Maio de 1975. Em Junho, antes das férias, marcou em Limassol o seu único golo pela seleção, num 2-0 a Chipre que não chegava para remediar o que já tinha corrido mal na fase de qualificação para o Europeu. Mário Wilson, que chegou ao Benfica para substituir Pavic em 1975/76, manteve a aposta no atacante gaiense, que jogou em 29 das 30 jornadas no ano do bicampeonato – falhou apenas a vitória frente ao Farense, em casa, a 7 de Março de 1976. O volume de golos diminuiu, porque Nené e Jordão quase monopolizavam a concretização, mas Moinhos ainda fez um hat-trick ao Leixões e um bis na visita ao Estádio do Bessa, a 11 de Janeiro. Ele não podia sabê-lo, mas aqueles foram os últimos golos que marcaria com a camisola do Benfica, clube que ainda representou durante mais ano e meio. Só que em 1976/77, com John Mortimore, explodiu o talento de Chalana, apareceu José Luís e, ainda participando ativamente na campanha do tri-campeonato, Moinhos não voltou a marcar golos e perdeu o lugar na seleção, na qual jogou pela última vez a 16 de Outubro de 1976, substituindo o lateral Artur a meio da derrota contra a Polónia nas Antas que inaugurava a qualificação para o Mundial’78.

Com menos espaço na equipa do Benfica, findo o seu contratro, Moinhos deixou-se seduzir por Valentim Loureiro, que o fez regressar ao Boavista. O treinador era Fernando Caiado, que já o conhecia, e o avançado recrutado na Luz assumiu-se como uma das referências da equipa. Acabou a época com dez golos, seis dos quais no campeonato, destacando-se um bis ao Portimonense e mais um golo ao Sporting, a ajudar os axadrezados a construir o mito que durou décadas, segundo o qual os leões não ganhavam no Bessa: nessa época, impôs-se o Boavista por 3-1. A eliminação frente ao Riopele impediu o Boavista de manter a tradição de uma boa campanha na Taça de Portugal, mas em 1978/79 Moinhos pôde mesmo festejar um trofeu vestido de xadrez. Marcou apenas um golo (à Académica) nos nove jogos que permitiram ao Boavista celebrar a vitória na Taça de Portugal, mas esteve presente em todos, incluindo a final e a finalíssima ganha ao Sporting, já sob o comando de Jimmy Hagan. A liderar os leões estava Pavic, o treinador que mais tirara de Moinhos nos quatro anos de Benfica…

Moinhos manteve a importância no Boavista durante mais um ano, no qual ajudou a equipa de Mário Lino a ganhar a Supertaça, frente ao FC Porto (2-1 em pleno Estádio das Antas). Em 1979/80 só falhou uma partida de campeonato – derrota com o FC Porto, no Bessa, por 1-0 – e até viu subir a produção goleadora, com seis tentos no campeonato, um na Taça de Portugal e dois na Taça das Taças, aos malteses do Sliema e aos soviéticos do Dynamo Moscovo. Mas já raramente completava os 90 minutos em campo e saía muitas vezes do banco, como suplente utilizado. Feitas as contas, aos 31 anos assinou pelo Sp. Espinho, onde Manuel José assumira pela primeira vez as funções de treinador. Ali, ainda foi figura de proa durante duas épocas, sendo mesmo o melhor marcador da equipa no nono lugar de 1980/81, época na qual registou um bis que valeu uma vitória por 3-1 frente ao V. Guimarães de Damas. A segunda época não o viu perder fulgor – marcou mesmo a Bento, num jogo em que colocou o Sp. Espinho a vencer o Benfica mas que os encarnados depois viraram para 2-1, com golos de Sheu e Nené – mas a terceira já não foi igual. Álvaro Carolino, o ex-colega de Moinhos no Boavista que substituiu Manuel José ao comando dos tigres espinhenses, já nem sempre fez dele titular. Ainda fez três golos na Taça de Portugal – a Juventude de Évora, Aves e Lusitano de Évora – mas no campeonato só marcou uma vez, a 10 de Abril de 1983, numa vitória por 4-1 frente ao Sp. Braga.

Moinhos haveria de jogar mais um ano, mas já sem golos. Despediu-se a 9 de Março de 1984, quando Hernâni Gonçalves o mandou substituir João Carlos a 26 minutos do fim de uma derrota do Sp. Espinho em Portimão, ainda vendo dentro do campo Norton de Matos e Rui Águas fixarem o 3-0 final a favor da equipa que era agora comandada por Manuel José. Penduradas as chuteiras, Moinhos foi treinador em várias equipas da sua zona, como o Coimbrões, o Pedrouços, o Rebordosa, o São Pedro da Cova, o Paços de Brandão e o Lousada, ocupando-se também de equipas jovens no Boavista. Em 2009, descobriu que sofria da mesma doença cardíaca que já tinha custado a morte prematura ao pai. Recebeu um transplante de coração de urgência, em Coimbra, e deixou-se de futebóis porque, como diz, “se me deram um coração novo não foi para andar a estragá-lo”. Tem um café na zona de Coimbrões, onde de qualquer modo não mantém agora o ritmo de outros dias.