Secretário é um daqueles jogadores a quem provavelmente nunca será feita justiça. Mas foi seis vezes campeão nacional pelo FC Porto, jogou 35 vezes na seleção e foi o primeiro português a jogar no Real Madrid.
2016-05-12

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1988

Quando se lhe olha para o palmarés conquistado em campo, não podem restar dúvidas: foi um dos grandes. Seis vezes campeão português, internacional com presença em grandes competições e ano e meio passado no Real Madrid não enganam. Mas Secretário é exemplo paradigmático de que muitas vezes “mais vale cair em graça do que ser engraçado”. As dificuldades que sentiu quando foi para Espanha, o passe errado para Acosta que deu a virada de mesa no campeonato de 1999/00 e a exposição no caso Paula perduraram na memória de quem sempre se negou a ver-lhe virtudes como uma velocidade e uma técnica mais do que razoáveis, um espírito competitivo assinalável e uma rara disponibilidade para preencher todo o corredor direito das equipas em que jogava. Nos seus dias, Secretário era um dos melhores laterais direitos do seu tempo.

Natural de São João da Madeira, cedo caiu nas malhas dos observadores do Sporting, que por essa altura viam um outro rapaz da terra (Litos) brilhar entre os seniores. Secretário chegou a Alvalade, vindo da Sanjoanense, em 1985, mas não ficou por lá muito tempo. Um ano depois, Catió Baldé, um jovem empresário guineense, convenceu-o a mudar de ares e a seguir para as Antas com Du Lay, um avançado que também era juvenil e que Baldé “vendia” como o “novo Eusébio”. Lay nunca teve carreira condizente nos seniores, mas Secretário, que era visto como o contrapeso neste negócio, chegou longe. Cumprido o trajeto normal entre os juniores do FC Porto, aos 18 anos seguiu para o Gil Vicente com outros colegas de equipa, como Morgado, Jorge Couto, Paulo Alves, Gomes ou Tozé. A equipa de Vítor Gomes andou quase sempre entre os candidatos à subida de divisão, mas perdeu a corrida para o Tirsense, de Lay. Ainda assim, o potencial que levou Secretário a jogar seis vezes pelas seleções jovens foi reconhecido e o então extremo-direito seguiu para Penafiel, onde podia estrear-se na I Divisão.

Suplente na primeira jornada desse campeonato, viu Carlos Alhinho dar-lhe a estreia a 26 de Agosto de 1989, jogando os últimos 17 minutos de uma derrota com o FC Porto, em Penafiel, em vez de Djão. A 9 de Setembro já foi titular na visita ao Portimonense, marcando mesmo um golo em nova derrota, por 2-1. Alhinho seria substituído por José Augusto em finais de Outubro, mas este, que já conhecia Secretário dos tempos em que trabalhava nas seleções jovens, manteve a aposta no sanjoanense, que acabou a sua primeira Liga com 29 jogos e dois golos no 15º lugar que, já com Joaquim Teixeira como treinador, deu a permanência ao Penafiel, em virtude do alargamento da I Divisão para 20 clubes. Com Teixeira e com Vítor Manuel, que o substituiu em finais de Setembro de 1990, Secretário manteve a titularidade na direita do ataque, mas não fazia golos, o que desde logo o recomendava para outras funções em campo. Mas ainda não foi em Famalicão, para onde seguiu depois de conseguida a manutenção dos durienses, que recuou no terreno. Skoblar utilizava-o à frente de Carlos Fonseca e até o viu bisar, numa vitória por 3-1 frente ao Sp. Braga, a 3 de Novembro de 1991. Expulso por José Guímaro frente ao FC Porto (derrota por 1-0), esteve nos empates a zero com Sporting e Benfica e, no Verão, seguiu para Braga, onde não se tinham esquecido daqueles dois golos de Novembro.

O Sp. Braga daqueles tempos estava longe do que é hoje. O ano passado por Secretário no 1º de Maio também foi de luta contra a despromoção: António Oliveira substituiu Vítor Manuel em finais de Março com a equipa abaixo da linha de água e só uma ponta final com quatro vitórias e dois empates em nove jogos permitiu aos arsenalistas recuperarem para o décimo lugar final. Oliveira deu todos os minutos de jogo possíveis a Secretário, começando ali a revelar a consideração que tinha pelo jogador, que haveria de levar à seleção. Mas muita coisa aconteceu entretanto. Nesse defeso, apesar da profusão de jogadores que tinha para o corredor direito, Tomislav Ivic quis ficar com Secretário. Deu-lhe a última meia-hora do jogo com o Famalicão, nas Antas, a 11 de Setembro, mas o facto de ele ter entrado para o lugar de Jorge Couto não chegou para desbloquear o 0-0 que começava a tornar a vida do croata difícil. Ainda assim, semana e meia depois, o sanjoanense lá surgiu como titular, à frente de João Pinto, numa vitória por 2-0 frente ao Sp. Braga, no Minho. E foi ficando. Ivic deu o lugar a Bobby Robson, a época já não se salvou na Liga, mas Secretário teve um primeiro ano de azul e branco bastante preenchido: jogou os 240  minutos da final e da finalíssima da Taça de Portugal, que o FC Porto acabou por ganhar ao Sporting, e marcou golos importantes, por exemplo nos 2-0 ao Anderlecht ou nos 5-0 ao Werder Bremen, na Liga dos Campeões.

Com Robson, aquele FC Porto começava a voar. E isso permitiu que também Secretário crescesse. Ainda era extremo-direito quando, a 18 de Dezembro de 1994, António Oliveira lhe deu a primeira internacionalização pela seleção A: entrou a 20 minutos do fim para o lugar de João Vieira Pinto numa goleada de 8-0 ao Liechtenstein no Estádio da Luz. A lateral direita da seleção estava entregue ao homem que era titular da posição no FC Porto: João Pinto, o capitão de equipa. Mas, ganho o campeonato de 1994/95, feito o primeiro (e único) golo pela seleção (a 3 de Junho de 1995, frente à Letónia, num 3-2 à Letónia, nas Antas), Secretário estava prestes a abraçar um novo desafio de carreira. João Pinto aproximava-se do final da carreira; Bandeirinha, que era a alternativa mais habitual, também não ia para novo; pelo que Robson se decidiu pela adaptação de Secretário a uma posição mais recuada. Não só resultou como, após mais um título nacional, levou o jogador a figurar – como defesa-direito – na lista de convocados por António Oliveira para o Europeu de 1996, em Inglaterra. Ali, suplente de Paulinho Santos nas duas primeiras partidas,    acabou por entrar no onze nos 3-0 à Croácia e na eliminação frente à Rep. Checa, nos quartos-de-final. Ainda assim, jogou o suficiente para ser transferido do FC Porto para o Real Madrid, onde Fabio Capello o pediu de forma expressa. Trezentos mil contos foi o valor do negócio que o levou a ser o primeiro português a jogar pelo Real Madrid, tendo os merengues superado as ofertas do Barcelona, que por via de Bobby Robson também queria o jogador.

Em Madrid, as coisas não foram fáceis. Em Janeiro, Capello pediu a contratação de Panucci, o defesa direito com quem trabalhara no Milan, e o espaço de Secretário reduziu-se seriamente. Passou a ser mencionado apenas como uma das piores contratações da história do clube e gozado por causa de um vídeo de um jogo com o Betis de Sevilha, no qual aparece a apanhar um coelho que escapara das bancadas com uma eficácia extrema. Nessa altura eclodiu também o “caso Paula”, denunciado no programa “Os Donos da Bola”, da SIC, por uma prostituta que alegava ter estado na concentração da seleção nacional antes de um jogo. O nome de Secretário foi várias vezes referido pela brasileira como tendo participado na orgia, o que foi apresentado por Manuel Barbosa, à data empresário do jogador, como tendo motivado o descrédito e posterior desvinculação do Real Madrid. Fosse pelo que fosse, no entanto, em Dezembro de 1997, com mais um título de campeão no bolso (ainda fez 13 jogos na Liga espanhola ganha pelos madrilenos), Secretário estava de volta ao FC Porto. Entrou no onze à 12ª jornada, já com o FC Porto de António Oliveira bem isolado na frente e a caminho do tetra-campeonato, que viria a conquistar no fim da temporada, a ele somando a vitória na final da Taça de Portugal, batendo na final o Sp. Braga por 3-1.

Ao tetra seguiu-se o “penta”, já com Fernando Santos aos comandos e Secretário sempre regular como lateral-direito. A caminhada para o que seria o “hexa”, no entanto, foi interrompida a favor da interrupção do jejum do Sporting. Os portistas lideravam quando, a 18 de Março, à 26ª jornada, um mau passe de Secretário isolou Acosta frente a Vítor Baía. O argentino fez o 2-0 nesse jogo (o primeiro tinha saído de um livre direto de André Cruz) e os leões passaram para o comando. Nesse campeonato, Secretário não voltou a jogar, mas desforrou-se na final e na finalíssima da Taça de Portugal, em que os dragões bateram o Sporting (1-1 e 2-0), imediatamente antes do Europeu de 2000. Convocado por Humberto Coelho para a segunda grande competição da sua carreira, desta vez o lateral portista só esteve na vitória frente à Roménia (1-0), vendo Abel Xavier, Beto e até Sérgio Conceição ocupar a vaga do lado direito da defesa nas restantes partidas que levaram a seleção até às meias-finais.

Aos 30 anos, naturalmente, a carreira de Secretário começou a perder fulgor. Em 2000/01 dividiu a lateral direita com Nelson, alinhando ainda assim nos 90 minutos da final da Taça de Portugal que o FC Porto ganhou ao Marítimo (2-0). Antes disso, já se tinha despedido, sem o saber, da seleção, quando marcou presença no empate a dois golos frente à Holanda, a 28 de Março de 2001. Ibarra foi contratado para o remeter a papel secundário ma conturbada época de 2001/02, mas Secretário ainda dividiu o lugar, assumindo a titularidade a partir do momento em que Octávio Machado foi substituído por José Mourinho, em Janeiro. Não queria isso dizer que Mourinho estivesse mesmo convencido. Tanto que no final da temporada chegou Paulo Ferreira. Ainda assim, Secretário foi sendo útil por mais duas épocas, ficando associado ao período de ouro que a equipa viveu com o “Special One”. Fez 12 jogos no primeiro campeonato e três no segundo, participando ainda em duas eliminatórias na vitória na Taça de Portugal de 2002/03 e em cinco partidas da campanha que levou à conquista da Taça UEFA. Já não jogou na vitória portista na Liga dos Campeões, ainda que tenha estado duas vezes no banco. O último jogo que fez de azul e branco aconteceu a 9 de Maio de 2004, na última jornada dessa Liga, que o FC Porto já tinha ganho: saiu pouco antes do intervalo de uma vitória por 3-1 frente ao Paços de Ferreira, apenas para receber a ovação que os adeptos lhe prestaram como tributo.

Secretário ainda passou uma época no Maia, tranquilamente a meio da tabela da II Divisão de Honra, antes de pendurar as chuteiras e se dedicar à profissão de treinador. Seguiu como adjunto de Mário Reis – o seu último treinador – para o Santa Clara, antes de se aventurar a solo no mesmo Maia que o vira terminar como futebolista. Passou ainda pelo Lousada, pelo Arouca e pelo Salgueiros, sendo neste momento treinador do Lusitanos de St. Maur, que competem no quinto escalão do futebol francês.