Foi uma das "Torres de Belém" nas quais se fundou o título de campeão nacional que o Belenenses alcançou em 1946, mas jogou na seleção também como guarda-redes da Académica, clube em que acabou a carreira.
2016-05-09

1 de 12
1943

Tinha um ar bonacheirão que ao mesmo tempo o recomendava para a baliza, porque era grande, “maior que a Giralda”, como uma vez escreveu um jornalista espanhol, mas também o afastava da tarefa solitária de ser guarda-redes, por ter sempre aquela expressão bondosa de “bebé chorão” a precisar de companhia. Capela foi uma das “Torres de Belém” responsáveis pelo único título de campeão nacional do Belenenses, em 1946, antes de ver a carreira dar voltas e mais voltas, fruto de um castigo despótico e de uma transferência para a Académica, onde acabou a carreira perto de casa e com muito mais estabilidade.

Natural de Angeja, na zona de Albergaria-a-Velha, Manuel Capela começou a jogar na baliza, fruto da sua elevada estatura, na Ovarense. Passou ainda pelo Lusitano de Évora antes de se transferir para o Belenenses, em 1943. Aos 21 anos, enfrentava a concorrência de Salvador, mais velho, titular das redes azuis há uns anitos e vencedor da Taça de Portugal de 1942. Na primeira época, Capela ainda jogou pouco, mas Sandor Peics deu-lhe, ainda assim, a estreia na I Divisão, numa vitória por 6-1 face ao Salgueiros, no Porto, a 2 de Janeiro de 1944. Fez mais dois jogos nesse campeonato, que o Belenenses acabou num modesto sexto lugar, só assumindo a titularidade das redes azuis a meio do seguinte, depois de uma aposta de curta duração em Acácio. A 14 de Janeiro de 1945, em visita a Coimbra que se seguiu a uma derrota por 4-2 frente ao Sporting, o treinador húngaro optou finalmente por Capela e as oito vitórias consecutivas que se seguiram, levando o Belenenses da quinta para a segunda posição pareceram dar-lhe razão. Em meados de Fevereiro, a notável exibição numa vitória por 2-1 frente ao Benfica, que haveria de ser campeão nacional, foi o trampolim definitivo para Capela, que rapidamente se afirmaria como um dos grandes jogadores nacionais na sua posição.

Parte da lenda alimenta-se também da notável época de 1945/46, em que o Belenenses se sagrou campeão nacional, muito devido ao contributo das três torres que tinha atrás: Capela, Vasco e Feliciano. O Belenenses teve a melhor defesa do campeonato (24 golos sofridos em 22 jogos) e a esse não foi alheia a prestação do guarda-redes, que manteve a baliza a zeros em seis das 19 partidas em que atuou. Com destaque para três das últimas quatro jornadas, em que os azuis passaram para a frente do Benfica (1-0, a 5 de Maio de 1946) e depois mantiveram a passada, ganhando ao FC Porto (1-0) e ao Olhanense (6-0) antes de carimbarem o título com uma vitória por 2-1 frente ao Elvas, no Alentejo. De regresso a Lisboa em festa, a equipa liderada por Augusto Silva acabou por cair logo à primeira na Taça de Portugal, frente ao Benfica (0-3), mas entrou na mesma na nova época como uma das favoritas à conquista de mais um título. E, ainda que esta não tenha corrido às mil-maravilhas – à sexta jornada, o Belenenses já era nono, a larga distância do Sporting – Capela pôde pela primeira vez jogar na seleção nacional. Aconteceu a 5 de Janeiro de 1947, por lesão do titular, que era o sportinguista Azevedo, e com uma história curiosa: por alguma razão nunca bem esclarecida, todos os jogadores portugueses se benzeram quando passaram pelo guarda-redes que obtinha ali a primeira internacionalização.

Nessa tarde em que Tavares da Silva também estreou Travaços, Albano e Jesus Correia, Portugal empatou a dois golos com a Suíça. Três semanas depois, também no Estádio Nacional, e ainda com Azevedo lesionado, o guardião do Belenenses ficaria ligado à primeira vitória de sempre sobre a Espanha: 4-1, a 21 de Janeiro. O que a seleção estava a dar-lhe, porém, viria a tirar-lhe mais tarde e com requintes de malvadez. De regresso ao banco da equipa das quinas, Capela mantinha o bom nível no Belenenses, que em meados de Maio, à 20ª jornada, era quinto classificado, a uns já irrecuperáveis 13 pontos do Sporting, mas tinha de longe a melhor defesa da prova. Por isso, quando Tavares da Silva viu a seleção a ser cilindrada pela Inglaterra (4-0 aos 21 minutos), lembrou-se de trocar de guarda-redes: Capela entrou para o lugar de Azevedo, mas não foi capaz de evitar uma das maiores humilhações da história do futebol português, os 10 a zero com que os ingleses nos ganharam no Jamor. No fim, os jogadores nacionais não compareceram ao banquete que era tradição entre as seleções e foi-lhes levantado um inquérito. Há quem diga que os jogadores já tinham decidido faltar ao jantar porque a FPF não lhes tinha dado bilhetes para o jogo, que eles depois distribuíam pelos familiares, mas tenha sido por isso ou por terem feito má figura de propósito, como foram acusados, os castigos foram pesados. Capela foi um dos mais visados e teve de parar por seis meses… com efeitos imediatos. Já não jogou as últimas seis jornadas desse campeonato, tendo Sério aproveitado para ocupar as redes do Belenenses na sua ausência e delas se apoderar na temporada seguinte.

Suplente durante toda a época de 1947/48, Capela começou a pensar em mudar de ares. Viu do lado de fora a final da Taça de Portugal dessa época, que os azuis perderam frente ao Sporting, em Julho de 1948, e só voltou a defender as redes azuis na sequência da lesão que o guardião titular sofreu na ponta final desse jogo – e que levou Vasco a jogar os últimos 20 minutos na baliza. Depois do desafio, o Belenenses tinha uma digressão à Madeira e, nela, Capela, ainda jogou, mas a 15 de Setembro de 1948 viu a DGD autorizar-lhe a transferência para a Académica, que pedira ao abrigo da sua condição de estudante de letras. Quatro dias depois, estava a estrear-se em Castelo Branco, em partida da primeira jornada da Zona B da II Divisão, que a Académica ganhou por 4-3. Campeão naconal do segundo escalão, na final contra o Portimonense, o guardião regressaria à divisão maior em Outubro de 1949, defendendo as redes dos estudantes num empate a duas bolas na Covilhã. E nessa época, em que a Académica chegou a andar pelo terceiro lugar, terminando o campeonato em sétimo, não só foi quase sempre titular – falhou apenas a derrota frente ao Belenenses, nas Salésias, em Fevereiro de 1950 – como acabou por regressar à seleção: a 9 de Abril de 1950 foi o escolhido por Salvador do Carmo para o jogo com a Espanha, no Jamor, que terminou num empate a duas bolas e significou o afastamento de Portugal do Mundial.

Capela fez parte da equipa que jogou a final da Taça de Portugal de 1951, perdida por 5-1 contra o Benfica, na tarde em que a equipa médica dos estudantes apresentou uma inovação: os jogadores usaram máscaras de oxigénio durante o intervalo. Nem assim evitaram mais três golos no segundo tempo, pois ao intervalo o resultado estava ainda num equilibrado 2-1 favorável aos encarnados. Titular indiscutível na Académica até ao Verão de 1954, em que contribuiu para a manutenção da equipa na I Divisão, jogando as duas partidas da Liguilha contra o Torreense, Capela perdeu a primazia na temporada seguinte para Ramín, que chegara do Sporting. Durante mais dois anos foi sendo a alternativa ao jovem titular, despedindo-se a 11 de Dezembro de 1955, com uma derrota por 3-0 frente ao Sp. Covilhã, em mais uma época complicada, na qual a equipa liderada por Cândido de Oliveira voltou a precisar da Liguilha para ficar entre os grandes. Desta vez, porém, na disputa contra o V. Guimarães, foi Ramín quem defendeu. Capela deixou o futebol e acabou por falecer, com 76 anos, depois de a diabetes o ter forçado à amputação de um pé.