Ganhou seis Taças de Portugal , mas só em três era mesmo titular. Nas outras, era alternativa a Damas ou Bento, dois gigantes que o impediram de ir mais além na carreira.
2016-05-08

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1965

Um dos guarda-redes mais marcantes no futebol português da década de 70, Botelho terá passado demasiado tempo à sombra de Damas e Bento, o que o limitou a pouco mais de 200 jogos na I Divisão. A qualidade que revelava entre os postes, que o levou à seleção nacional e que fazia dele demasiado bom para as equipas de classe média do campeonato era, ao mesmo tempo, o seu maior problema, porque olhavam para ele como o suplente ideal entre os grandes. Foi como segundo guarda-redes que se sagrou campeão nacional, no Sporting de 1974, mas a esse título somou seis Taças de Portugal – e nestas jogou mesmo três finais – antes de se retirar, já com 43 anos, na III Divisão, com o filho Marco a seguir-lhe as pisadas.

Botelho pode orgulhar-se de ter regressado ao Sporting e ao Benfica depois de de lá ter saído e isso acaba por ser um pouco a explicação da história da sua vida, dividido entre influências leoninas e encarnadas. O pai era amigo de vários jogadores do Sporting, que costumava encontrar em sessões de cinema na sede do clube, na Rua do Passadiço, enquanto que o padrinho era benfiquista. Ainda assim, quando o jovem António começou a revelar talento para jogar entre os postes, num torneio de futebol de salão, foi um motorista do Benfica quem o viu e lhe sugeriu que fosse treinar à Luz. O pai meteu-se no meio, até autorizou, mas desde que o rapaz cumprisse uma condição: primeiro, teria de ir a Alvalade. E António assim fez: apresentou-se em Alvalade, treinou com Travaços e até agradou, pois mandaram-no voltar no dia seguinte. Sucede que um mal-entendido acabou por o encaminhar para o outro lado da segunda circular: Botelho apareceu às 15h, quando o treino era às 14h. Barraram-lhe a entrada e ele foi ao Benfica, onde de imediato Fernando Cabrita lhe disse para assinar contrato e o incluiu na equipa de principiantes.

Feito todo o percurso de formação no Benfica, Botelho não encontrava espaço na equipa principal e acabou por ser emprestado, no primeiro ano de sénior, aos Leões de Santarém, que jogavam na II Divisão. Ali brilhou a ponto de justificar que o Benfica lhe oferecesse a renovação do contrato mas, temendo ficar sem jogar, declinou o convite e acabou por assinar pelo Atlético, que em troca mandou José Henrique para a Luz. O espanhol Angel Oñoro, à data treinador dos alcantarenses, ainda começou o campeonato com Gaspar entre os postes, mas logo à segunda jornada, a 25 de Setembro de 1966, chamou o jovem Botelho a defender em Braga. A derrota por 1-0, com golo de Perrichon, não foi o melhor cartão de visita: esse, Botelho apresentou-o quando defendeu uma grande penalidade, batida pelo mesmo Perrichon. Estava lançado. Até final da época só viria a perder a titularidade na sequência de uma lesão, nas Antas, frente ao FC Porto, em Fevereiro: saiu com o Atlético a perder por 1-0 e após a entrada de Ramín, em meia-hora, o resultado subiu para os 5-1 finais. Logo na primeira época, Botelho assinou grandes exibições, mas nem assim o Atlético evitou a descida de divisão. O regresso, porém, foi rápido, com a vitória na Zona Sul da II Divisão e na final nacional, ante o U. Tomar, em 1967/68.

O Atlético, porém, vivia num limbo, permanentemente entre o primeiro e o segundo escalões. Botelho fez todos os jogos da equipa na época de 1968/69, marcada por nova despromoção. E no seguimento de nova temporada na II Divisão – desta vez sem subir – chegou-lhe um convite do Sporting, que acabara de se sagrar campeão nacional. Pensando na oportunidade que perdera no Benfica – José Henrique, que trocou com ele, acabou por se afirmar na baliza dos encarnados –, desta vez Botelho aceitou. Mesmo tendo em conta que na baliza leonina estava Damas, o melhor guarda-redes português daqueles tempos. E aqui aconteceu o que ele temia: praticamente não jogou. Chegado a Alvalade no Verão de 1970, Botelho só se estreou oficialmente a 5 de Março de 1972, em partida da Taça de Portugal frente ao Marítimo, que os leões ganharam por 2-1. Manteve a posição frente ao Belenenses e ao V. Guimarães, as duas partidas da Liga que se seguiam, mas não teve sequer a hipótese de juntar o nome ao dos vencedores da Taça de Portugal, pois os leões perderam a final – com Damas na baliza – frente ao Benfica. E depois de mais uma época (1972/73) sem jogar, Botelho pôde finalmente festejar dois títulos em 1973/74. Alinhou na primeira jornada desse campeonato, que os leões viriam a ganhar (derrota em Setúbal por 1-0), e fez 18 minutos nos 1/16 da Taça de Portugal frente ao mesmo Vitória (4-2 para o Sporting), que a equipa de Mário Lino também viria a vencer, batendo na final o Benfica por 2-1. Nem os títulos, porém, lhe compensaram a amargura de passar tanto tempo sentado no banco. E, finda a temporada, recusou o convite para renovar contrato, optando antes por assinar pelo Boavista, onde José Maria Pedroto via nele condições para triunfar.

Foi no Bessa que começou verdadeiramente a carreira de Botelho. Na primeira época ainda cedeu a baliza a Barrigana – seu antigo colega de escola – entre Setembro e Fevereiro, mas fez toda a campanha que levou os axadrezados a ganharem a Taça de Portugal, batendo o Sporting na meia-final (1-0 após prolongamento) e o Benfica na final (1-0), em Alvalade. Era o primeiro título que Botelho sentia que não lhe tinha caído no colo. Lutara arduamente por ele. Como o quarto lugar nesse campeonato teve continuação no Boavistão de 1975/76, a 3 de Dezembro de 1975 o guardião lisboeta pôde pela primeira vez defender as redes da seleção nacional, numa vitória por 1-0 frente a Chipre, de qualificação para o Europeu do ano seguinte. Portugal já não tinha hipóteses de chegar à fase final, mas ainda assim Botelho deixou no banco Damas, o tal que lhe tapara o caminho no Sporting. E repetiu a internacionalização na partida seguinte, um particular contra a Itália, em Turim, antes de Pedroto optar por Bento para as redes da seleção. No Boavista, Pedroto – que dirigia os axadrezados e a seleção nacional – não tinha dúvidas: Botelho jogou todos os minutos nos 30 desafios do campeonato, nas quatro partidas da Taça das Taças (estreia a 17 de Setembro de 1975, com um empate a zero no terreno do Spartak Trnava) e nos seis jogos que levaram a nova vitória na Taça de Portugal, desta vez batendo o V. Guimarães por 2-1 na final, jogada no Estádio das Antas – que o Jamor era visto como símbolo do antigo regime.

Quando Pedroto saiu do Bessa para regressar ao FC Porto, porém, fixou as atenções de Damas. E como não conseguiu tê-lo, acabou por optar por Joaquim Torres, guarda-redes que tivera no seu tempo em Setúbal. Botelho ficou no Boavista, onde voltou a fazer todas as partidas no quarto lugar de 1976/77, já com Mário Wilson aos comandos. Importante nos dois empates a zero que a equipa axadrezada conseguiu com o Sporting, acabou por ver abrirem-se as portas de Alvalade, onde regressou, mas para ser titular, pois Damas acabara por sair para Espanha. Trocado por Matos e Amândio, que seguiram o caminho inverso, em direção ao Bessa, Botelho ainda começou o campeonato como suplente de Valter (empate a um golo com o Benfica), mas tanto o brasileiro Paulo Emílio como o português Rodrigues Dias, que o substituiu após o Ano Novo, lhe deram depois a baliza leonina, a ponto de só ter voltado a faltar na última ronda, frente ao Portimonense. Mais: Botelho foi também totalista na campanha que levou à vitória leonina na Taça de Portugal, defendendo nos 3-1 ao Benfica (quartos-de-final) e na final e na finalíssima ante o FC Porto (1-1 e 2-1). Era a quarta Taça de Portugal do guardião lisboeta, a terceira como titular, o que chegava para atenuar a frustração do terceiro lugar no campeonato.

Botelho manteve depois a titularidade com Milorad Pavic, mas o jugoslavo não levou os leões além do terceiro lugar mas, quando voltou à final da Taça de Portugal – desta vez perdida na finalíssima contra o Boavista – ainda não tinha proposta de renovação do contrato com os leões. Da Luz, já lhe tinham acenado com a possibilidade de regressar, o que ele acabou por aceitar, comprometendo-se por três épocas, num defeso que também levou Laranjeira de Alvalade para a Luz e no qual Fidalgo e Eurico fizeram o caminho inverso. O problema, para Botelho, era que no Benfica estava Bento, o titular da seleção por esses tempos. E, já com 32 anos, o guardião lisboeta percebeu que lhe estava reservado um lugar como no banco, onde o clube pudesse aproveitar a sua tranquilidade e experiência em caso de necessidade. Em três anos no Benfica, só jogou nove vezes. É verdade que isso lhe chegou para ganhar uma Supertaça e duas Taças de Portugal, mas sobrou-lhe a desilusão de não ter alinhado um único minuto no campeonato de 1980/81, o único que os encarnados ganharam durante a sua permanência. E se na Supertaça vencida ainda alinhou nos dois jogos contra o Sporting, em Setembro e Outubro de 1980 (entrou ao intervalo nos 2-2 de Alvalade e jogou toda a partida nos 2-1 na Luz), nas Taças de Portugal não voltou a ter a alegria de jogar uma final: em 1979/80 alinhara contra o Tadim e o Portimonense, mas ficou no banco a ver Bento defender na final contra o FC Porto (1-0) e em 1980/81 estivera nas vitórias contra o Benfica de Castelo Branco e o Sacavenense, voltando a ver do lado de fora o sucesso contra o FC Porto na partida decisiva (3-1).

Em 1983, Botelho deixou-se seduzir pelo desafio de representar o Amora, equipa da margem sul do Tejo que assegurara a manutenção com outro veterano nas balizas (Vaz). Foi titular durante quase toda a temporada, tendo-se despedido da I Divisão com uma nota de infelicidade: a 15 de Maio de 1983, uma semana depois de fazer 36 anos, o Amora perdeu por 7-1 em Guimarães e António Medeiros decidiu sacrificar o guarda-redes. A três jornadas do fim do campeonato, só um milagre podia salvar a equipa de uma despromoção que se tornou certeza matemática logo na semana seguinte, numa derrota caseira com o Marítimo, já com Botelho no banco. Muito poderiam pensar que era o fim, mas Botelho continuou a defender durante mais sete anos. Primeiro na II Divisão, no Amora e na Sanjoanense, depois em duas subidas consecutivas do Pescadores da Costa de Caparica, do distrital à II Divisão, e por fim no terceiro escalão, no Seixal (duas épocas) e no Amora, onde encerrou a carreira em 1990. Tinha 43 anos e o seu filho Marco – que mais tarde viria a jogar nas redes do Belenenses, na I Divisão – já jogava pelos iniciados.