É polémico hoje, porque nunca foge de uma luta, mas já o era como futebolista, porque bebeu da fonte de José Maria Pedroto. Octávio soma mais de 300 jogos na I Divisão, a maioria sob as ordens do seu mestre
2016-05-06

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1970

Há mais de 40 anos na ribalta do futebol português, como jogador, treinador, comentador ou dirigente, Octávio nunca fugiu de uma polémica. Pelo contrário: em qualquer dessas funções, até parecia que as procurava, como fator de união dos que estavam com ele. De chuteiras calçadas, foi um médio tecnicista mas ao mesmo tempo muito combativo, que dava tudo em cada lance e que assumia as dores da junção do balneário, olhando sempre para José Maria Pedroto como um mestre cuja influência bebia com sofreguidão. Dentro do campo, só representou duas equipas: o V. Setúbal e o FC Porto. E em ambas se tornou referência da mística que sempre procurou, ficando associado a momentos de glória no Bonfim e nas Antas.

Natural de Palmela, começou por ser falso avançado-centro nos juniores do Palmelense, onde jogou com Camolas e chegou a bater-se com as equipas do escalão do V. Setúbal. Só um ano perdido da escola e o consequente castigo dos pais lhe tiraram alguma evidência numa altura em que já não enganava. Em Março de 1968, ainda com 18 anos, chegou a ir treinar à experiência ao Benfica, mas a baixa estatura – chamavam-lhe “Ratinho”, nas futeboladas da altura – levou a que lhe sugerissem que voltasse mais tarde. E, assim sendo, no final dessa época acabou por assinar contrato com o V. Setúbal. Depois de um ano nas reservas, Octávio começou a ser visto como solução viável pelo treinador, um certo… José Maria Pedroto. A 25 de Janeiro de 1970, aos 63 minutos de uma partida de campeonato contra o Sp. Braga que os sadinos já venciam por 6-0, entrou para o lugar de Tomé. Terá agradado e a 15 de Fevereiro teve direito a estreia como titular, na vaga deixada por Tomé, que se lesionara uma semana antes, em Tomar. A ocasião era um jogo da Taça de Portugal, mas o adversário era o Benfica. Octávio jogou 66 minutos, cedendo o lugar a Guerreiro numa altura em que o Vitória ganhava por 2-1 (no final ficou 3-2). Até final da época fez mais quatro jogos como suplente utilizado, sendo dois contra o Benfica (um deles na segunda mão da Taça, na Luz, onde o Vitória caiu por 2-0).

A saída de Tomé para o Sporting, no final da época, levou a que Octávio passasse a gozar de um estatuto de titular aos olhos de Pedroto. A época de 1970/71 foi, por isso, cheia de novidades para o médio de Palmela. Titular indiscutível a partir da quarta jornada, em inícios de Novembro, ainda conheceu a estreia europeia – jogou a segunda parte de uma vitória por 2-1 frente aos suíços do Lausanne, a 29 de Setembro de 1970, na Taça das Cidades com Feira – e a internacionalização na categoria de esperança – também como suplente utilizado, em vez de Quinito, e numa vitória por 2-1 contra a Espanha, em Lisboa. Além disso, ele que fazia tantos golos nos juniores, festejou o primeiro golo como sénior numa deslocação a Matosinhos, em que o Vitória foi derrotado pelo Leixões por 2-1, batendo Tibi após passe de Guerreiro. O terceiro lugar final do Vitória na Liga, bem como a chegada às meias-finais da Taça de Portugal e aos quartos-de-final da Taça das Feiras, sempre com Octávio a jogar, elevaram o palmelão a outro patamar: após três jogos pelos sub21, chegou mesmo à seleção A, estreando-se pela mão de José Gomes da Silva a 21 de Novembro de 1971, num empate a uma bola contra a Bélgica no Estádio da Luz.

Durante algum tempo, contudo, este foi jogo único. Pilar do meio-campo do Vitória que acabou o campeonato de 1971/72 em segundo lugar, Octávio tinha casamento marcado para o Verão de 1972 e acabou por ficar de fora da convocatória de José Augusto para a MiniCopa. Ao clube, porém, nunca faltava. Fez todos os jogos oficiais do Vitória entre uma derrota em Coimbra contra a Académica, em Setembro de 1970 e uma vitória frente ao Barreirense, no Barreiro, em Dezembro de 1972. E se faltou foi porque, duas semanas antes, tinha visto o primeiro cartão vermelho da carreira, mostrado por Fernando Leite numa derrota frente ao Sporting, em Alvalade. Ainda assim, Octávio era uma presença permanente nas campanhas europeias daquele super-Vitória de Pedroto, tendo estado nos quartos-de-final da Taça das Feiras de 1971, nos oitavos da Taça UEFA de 1972 e outra vez nos quartos da Taça UEFA de 1973. E em Novembro de 1973 voltou à seleção, chamado por José Augusto para o empate frente à Irlanda do Norte, em Alvalade, que deixava Portugal fora do Mundial. A demissão de Pedroto do V. Setúbal, em Dezembro de 1973, não afetou o estatuto do médio no clube – que voltou a ser totalista no campeonato de 1973/74 – mas deu-lhe nova alma na equipa das quinas, à qual chegou Pedroto como selecionador. O treinador que melhor o conhecia não abdicou dele, tornando-o pedra basilar do meio-campo de pequeninos que empatou os dois jogos contra a Inglaterra, na qualificação para o Europeu de 1976. Entre esses jogos, marcou ainda o único golo que tem na seleção: aconteceu a 9 de Março de 1975, em Goiânia, na inauguração do estádio local, frente a uma seleção de Goiás.

Com o 25 de Abril e a revogação da Lei de Opção, Octávio pôde escolher o futuro no final do campeonato de 1974/75, o primeiro que fez sem ter o V. Setúbal a batalhar pelas posições cimeiras da Liga. Houve interesse de Espanha, o jogador chegou a ir a Madrid conversar com o presidente do Atlético Madrid, foi até fotografado na sala de troféus para ser apresentado, mas o acordo acabou por falhar. Oficialmente, o Atlético alegou que não aceitou incluir no contrato uma cláusula que permitisse a Octávio ser libertado para jogar pela seleção nacional, mas muito se disse na altura que o que estava em causa era a limitação de estrangeiros. Nada seduzido pela alternativa fornecida pelo Zaragoza, Octávio acabou por assinar pelo FC Porto, sendo apresentado por Américo de Sá como um trunfo para atacar o longo jejum de títulos do clube. A primeira época, no entanto, não foi fácil, com a demissão de Branko Stankovic após uma derrota no Restelo, em finais de Janeiro, que deixava os azuis e brancos na sexta posição. Octávio, que acabara de chegar ao clube, chegou a dizer publicamente que ao clube faltava “mística” e os dirigentes resolveram a questão chamando de volta José Maria Pedroto. De novo com o seu treinador de eleição, o palmelão começou por fim a ganhar títulos coletivos. Em 1976/77 ainda ficou em terceiro lugar no campeonato, falhando apenas uma partida em toda a época, mas jogou seis dos sete jogos que levaram à conquista da Taça de Portugal, incluindo a vitória por 1-0 sobre o Sp. Braga, na final. Octávio fez mesmo dois golos nessa campanha, ao Montijo, na terceira eliminatória, e ao Fafe, nas meias-finais.

E em 1977/78 o FC Porto pôde finalmente celebrar o fim do jejum de títulos nacionais, que durara 19 anos. Ausente por lesão durante dois meses, entre Dezembro e Fevereiro, regressou bem a tempo de participar na decisiva ponta final da temporada, onde se incluiu o empate caseiro com o Benfica, na antepenúltima jornada, assegurando a manutenção da liderança. Na época em que fez o seu único bis no campeonato – num 3-0 ao Sporting, a 23 de Outubro de 1977 – Octávio esteve ainda entre os goleadores da festa, o 4-0 ao Sp. Braga, na última jornada. E terminou a época em Junho, com a derrota na finalíssima da Taça de Portugal, frente ao Sporting (1-2), ficando a um pequeno passo da dobradinha. Foi nesta altura que a vida de Octávio mudou. A 15 de Agosto de 1978, num torneio de pré-época em Vigo, um choque com Nelinho, lateral do Cruzeiro (e que tinha maravilhado no Mundial pelo Brasil) levou-o a fraturar a tíbia e o perónio. Uma lesão complicada que lhe roubou toda a época. Octávio chegou a ir com a equipa para estágio, mas não jogou um minuto no ano do bicampeonato e conta até que Pedroto lhe explicou a razão pela qual não lhe deu a possibilidade de ser outra vez campeão: “Tu ainda mancas e se as pessoas te veem jogar assim vão dizer que estás acabado”. A verdade é que a história de Octávio como jogador do FC Porto estava mesmo muito perto do fim.

Em 1979/80, o ano que estava para ser o do tricampeonato mas acabou com o Sporting campeão, o palmelão passou mais tempo no banco do que a jogar. Envergou pela última vez a camisola do FC Porto a 4 de Maio, nas Antas, numa partida em que os azuis e brancos ganharam por 3-0 ao Marítimo e se qualificaram para mais uma final da Taça de Portugal – a terceira seguida. Desta vez, porém, ele não saiu do banco e a equipa nortenha perdeu por 1-0 com o Benfica. Como tinha perdido também o campeonato e a guerra “Norte-Sul” estava a ganhar contornos radicais – os adeptos do Sporting juntaram-se aos do Benfica no Jamor, na final da Taça – o FC Porto acabou por entrar num processo de convulsão interna que levou ao afastamento de Pinto da Costa e José Maria Pedroto. Chegou a haver duas equipas do FC Porto nessa pré-temporada, mas se alguns dos que se treinavam com os dissidentes ainda regressaram, outros, como Octávio, recusaram-se sempre a fazê-lo, mantendo-se fieis ao dirigente e ao treinador. Em Agosto, por isso, o palmelão estava no plantel do V. Setúbal que Rodrigues Dias conduziu ao sétimo lugar no campeonato. Em Setúbal, Octávio ainda fez três épocas plenas, sempre como titular. Marcou o último golo na I Divisão a 22 de Novembro de 1980, batendo Matos numa derrota por 3-1 frente ao Boavista, no Bessa. E despediu-se a 17 de Abril de 1983, em Alvalade, numa derrota por 1-0 contra o Sporting, numa equipa que tinha como suplente o homem que agora o levou a regressar aos leões – Jorge Jesus.

Finda a carreira de jogador, Octávio abraçou a de treinador. Dirigiu ainda o Salgueiros por uma época, antes de entrar na equipa técnica de Artur Jorge no FC Porto. Ali, como adjunto, em oito anos foi campeão nacional, europeu e intercontinental. Ainda foi treinador do Sporting, ganhando uma Supertaça, e regressou ao FC Porto, desta vez como responsável máximo, mas tal só serviu para que acabasse por se incompatibilizar com Pinto da Costa, que o afastou em 2002 para dar a vaga a José Mourinho. Nessa altura, Octávio afastou-se do futebol. Foi bombeiro e cumpriu finalmente a promessa de uma vida no campo, que só abandonou quando foi chamado para um lugar de comentador residente da CM TV e, depois, para ser diretor-geral do futebol do Sporting do seu amigo Jorge Jesus.