Foram 17 golos em 10 jogos pelo FC Porto no campeonato nacional. É certo que não foi posto à prova tantas vezes, mas Ângelo tem uma média de golos "à Peyroteo".
2016-05-05

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1937

É difícil saber muito acerca de Ângelo, a não ser que teve uma passagem meteórica pelo FC Porto e que é, ainda hoje, o jogador com a mais elevada média de golos por jogo na história do campeonato nacional. Favorecido por não ter jogado muitas vezes – apenas dez jogos – nem costuma ser contabilizado, mas nesses dez desafios marcou 17 golos, a uma média de 1,7 golos por jogo, marginalmente superior aos 1,68 de Peyroteo, que no entanto foi posto à prova em 197 partidas. Ângelo não foi tão longe, desaparecendo do futebol português com 19 anos apenas, feito um dos bodes expiatórios do clima de rivalidade excessiva que se vivia por esses tempos entre o FC Porto e o Benfica e que culminou com as batalhas campais no Campeonato de Portugal de 1938.

Ângelo nasceu no Pará, no Brasil, e apareceu na equipa do FC Porto ao mesmo tempo que Vianinha, tido como o primeiro brasileiro da história do clube. Ao contrário do seu compatriota, que era defesa, Ângelo jogava no ataque e a sua tenra idade fazia com que não fosse escolha habitual do treinador, o austríaco François Gutkas. Atrás de nomes como Lopes Carneiro, Pinga, Carlos Nunes, António Santos ou Reboredo, só se estreou no campeonato da Liga a 28 de Fevereiro de 1937, quando foi chamado a substituir António Santos e marcou o quinto golo de uma vitória expressiva do FC Porto frente ao Leixões (5-0). Nesse campeonato, só voltaria mais uma vez, e de novo contra o Leixões, na partida da segunda volta, a 25 de Abril, respondendo então com um hat-trick na baliza de Adão, o primeiro a saber das qualidades do artilheiro brasileiro.

O FC Porto ganhou o campeonato de Portugal, prova por eliminatórias que se jogou em seguida, mas Ângelo nem chegou a ser utilizado. E menos espaço ainda teve quando ao clube chegou Costuras, um avançado-centro recrutado ao Boavista. Ainda assim, as lesões que foram aparecendo permitiram-lhe regressar ao onze a 27 de Fevereiro de 1938, na partida de campeonato frente ao Académico do Porto que acabou por se transformar na sua maior tarde de glória: jogou no lugar de Pinga, o ídolo portista destes tempos, e marcou os quatro golos da vitória da sua equipa (4-1). Mihaly Siska, que entretanto passara a treinador do FC Porto, teve de lhe arranjar um lugar, pelo menos enquanto Ângelo respondeu com golos: fez dois ao Belenenses, mais dois ao Carcavelinhos, acabando por marcar também a Sporting e Benfica naquele tenso final de época, no qual o FC Porto perdeu o campeonato à conta de um empate com os encarnados, em casa, a três jornadas do fim. Os azuis-e-brancos protestaram a partida, mas a FPF não deu provimento a esse protesto, o que levou a que, finda a Liga, os dois clubes acabassem com os mesmos pontos. O FC Porto garantiu uma melhor diferença de golos, graças a um 7-2 ao Académico do Porto, na penúltima jornada (bis de Ângelo, a 17 de Abril de 1938, naquele que seria também o seu último jogo no campeonato), mas o regulamento mandava atribuir o título a quem tivesse superioridade no confronto direto. E o Benfica foi campeão.

O caso gerou um clima muito tenso, bem à vista quando FC Porto e Benfica se defrontaram, a 29 de Maio, no Ameal, em partida dos quartos-de-final do Campeonato de Portugal. Houve forte policiamento, clima de ódio entre os apoiantes das duas cores, pateadas e apupos que foram dignas de menção na imprensa da época, e tudo isso se transmitiu aos jogadores, tendo o jogo acabado com 4-2 a favor do FC Porto, mas cinco expulsões, entre as quais as dos portistas António Santos e Costuras. O jogo da segunda mão foi, por isso, ainda mais tenso. Sem Santos e Costuras, mas também sem Gomes da Costa, que ficara lesionado no seguimento da primeira mão, Siska chamou três reservistas ao onze, entre os quais Ângelo, que nessa tarde de 5 de Junho de 1938, nas Amoreiras, fez a avançado-centro o seu último jogo com a camisola azul-e-branca. Ao intervalo, no entanto, já o Benfica ganhava por 5-0. No final, os 7-0 implicaram a eliminação portista e uma série de medidas exageradas pela direção do clube, presidida por Carlos Costa, que suspendeu uma série de jogadores. Ângelo, que foi um dos expulsos no jogo, estava entre os suspensos, a exemplo de Vianinha, o outro brasileiro do plantel. Os castigos internos acabaram por ser levantados, mas nem Ângelo nem Vianinha voltaram a representar o clube – conta-se que regressaram ao Brasil nesse Verão, para não mais voltarem.